PNAD em agosto

Por Igor Cadilhac

Em linha com nossas expectativas, os dados da PNAD Contínua mostraram que a taxa de desemprego se manteve estável em 5,6% no trimestre móvel encerrado em agosto. Nos números dessazonalizados, de acordo com nossos cálculos, observamos uma leve alta, mas ainda dentro do mesmo patamar de 5,6%. O resultado confirma nossa avaliação de que o mercado de trabalho segue aquecido em 2025, muito próximo do menor nível dessazonalizado de toda a série histórica — inclusive em comparação à antiga Pesquisa Mensal de Emprego (PME).

Do ponto de vista qualitativo, a dinâmica foi positiva. Tanto o número de desocupados quanto o de subutilizados recuaram, renovando mínimas históricas e levando o contingente de empregados com carteira assinada a um recorde. Já a taxa de participação e o nível de ocupação permaneceram estáveis, em 62,3% e 58,8%, respectivamente. Por outro lado, a taxa de informalidade avançou de 37,8% para 38%.

Em relação à renda, os rendimentos permaneceram relativamente estáveis na margem. O rendimento médio real habitual foi de R$ 3.488, enquanto a massa de rendimento real totalizou R$ 352,6 bilhões, permanecendo muito próxima da máxima histórica. Do ponto de vista inflacionário, o hiato do produto positivo continua sendo um desafio, ainda que em um contexto de NAIRU mais baixa.

Olhando à frente, com base nos dados correntes e na natureza cíclica do mercado de trabalho, esperamos que o aquecimento persista ao menos até o fim do terceiro trimestre, quando deve ter início um processo gradual de desaceleração. Para 2025, projetamos taxa média de desemprego de 6%, encerrando o ano em 5,6%.

Resumo semanal: 22/09 a 26/09

Por Matheus Gomes de Souza, CEA

Ásia

O Banco do Povo da China (PBoC) manteve, em setembro, as taxas de empréstimo (Loan Prime Rate) inalteradas, conforme amplamente antecipado pelo mercado. A LPR de 1 ano permaneceu em 3%, enquanto a taxa de 5 anos se manteve em 3,5%, ambas estáveis desde junho. A decisão reflete a opção da autoridade monetária por preservar condições atuais, diante de um balanço delicado entre estímulo e estabilidade financeira. Em discurso, o presidente Pan Gongsheng reforçou que a estratégia seguirá condicionada a dados econômicos, evitando movimentos precipitados. Essa postura indica que cortes de juros só ocorrerão se as projeções de crescimento ficarem abaixo da meta governamental.

Com um objetivo oficial de expansão próxima a 5% para o PIB em 2025, Pequim sinaliza prudência na calibragem de sua política monetária. A ausência de ajustes sugere confiança na trajetória atual, mas também revela atenção aos riscos de endividamento e à desaceleração global. A decisão pode influenciar fluxos de capital e expectativas de mercado, sobretudo entre investidores atentos à capacidade da China de sustentar o ritmo econômico sem comprometer a estabilidade. Assim, o PBoC mantém uma postura de monitoramento contínuo, aguardando sinais concretos antes de promover intervenções mais expressivas.

Europa

No contexto econômico, a Zona do Euro registrou avanço moderado em setembro, segundo a prévia do PMI Composto, que subiu 0,2 ponto para 51,2, conforme esperado. Houve expansão no setor de serviços (51,4), mas retração nas manufaturas (49,5), com demanda e emprego relativamente estáveis e pressões de preços diminuindo. Entre as principais economias do bloco, a Alemanha apresentou crescimento de 52,4 pontos, impulsionado por serviços, enquanto a França registrou retração de 48,4 pontos. A combinação desses dados aponta para um quadro de recuperação tímida e heterogênea.

No Reino Unido, a atividade manteve-se em terreno positivo em setembro, embora tenha perdido força. O PMI Composto recuou 2,5 pontos para 51,8, alinhado às previsões dos analistas. O setor de serviços continua em expansão, com 51,9 pontos, ao passo que as manufaturas seguem em retração, acumulando 46,2 pontos. A composição do índice sugere uma demanda moderada, com queda no nível de emprego e leve pressão de preços. Esse cenário reforça a visão de que a economia britânica permanece resiliente, mas enfrenta desafios para sustentar o crescimento diante de condições de mercado mais restritivas.

Oriente Médio

O presidente turco Tayyip Erdogan e Donald Trump realizaram o primeiro encontro na Casa Branca em seis anos, discutindo defesa, comércio e questões regionais. Erdogan destacou avanços rumo à meta de US$ 100 bilhões em comércio, incluindo revisão de tarifas alfandegárias, e anunciou encomendas da Turkish Airlines para 75 Boeing 787 e negociações para 150 737 MAX. Trump, por sua vez, sugeriu que a Turquia interrompa compras de petróleo russo, tema não citado por Erdogan, enquanto o Kremlin reafirmou a continuidade da cooperação entre Moscou e Ancara, incluindo um memorando de entendimento para a construção de usinas nucleares. As conversas também incluíram a guerra em Gaza, com acordo de princípios sobre cessar-fogo e defesa da solução de dois Estados, reforçando a postura turca de crítica à ofensiva israelense.

No âmbito econômico, a inflação da Turquia é projetada em 2,6% para setembro, impulsionada por educação e alimentos, com taxa anual recuando a 32,5%. O Morgan Stanley espera que o banco central reduza cortes de juros para 200 pontos-base, elevando a taxa para 38,5%, diante das pressões inflacionárias persistentes e cenário político volátil. Paralelamente, o Irã assinou acordo de US$ 25 bilhões com a estatal russa Rosatom para construir quatro usinas nucleares, intensificando laços estratégicos. Já na Cisjordânia, Israel acelera medidas de anexação formal, retomando o projeto de assentamento E1, que desalojará milhares de beduínos e fragmentará a continuidade territorial palestina. A escalada inclui aumento de bloqueios, incursões letais e violência de colonos, consolidando o risco de inviabilização de um Estado palestino.

Estados Unidos

Em agosto, os preços ao consumidor nos Estados Unidos avançaram conforme esperado, segundo o índice PCE divulgado pelo Departamento do Comércio. Os preços de bens apresentaram leve alta, enquanto os serviços mantiveram ritmo persistente e elevado. O núcleo do indicador, que exclui alimentos e energia, registrou alta anual de 2,9%, acima da meta de 2% do Federal Reserve. Esse cenário, somado à possibilidade de novas pressões vindas de tarifas comerciais, reforça a necessidade de cautela na política monetária. Entretanto, o Fed aparenta priorizar os riscos ligados ao mercado de trabalho, que dá sinais de enfraquecimento.

O presidente da autoridade monetária, Jerome Powell, destacou os desafios impostos por uma inflação acima da meta e alertou para possíveis impactos negativos sobre o emprego. Em paralelo, os dados mostram aumento da renda das famílias e expansão dos gastos tanto em bens quanto em serviços em agosto. Já em setembro, a atividade econômica apresentou crescimento moderado: o PMI Composto recuou de 53,6 para 52,1 pontos e o setor manufatureiro passou de 53,9 para 52,6 pontos. Apesar da desaceleração, empresas indicam resistência em repassar aumentos de custos aos consumidores, o que pode amortecer novas pressões inflacionárias no curto prazo.

Brasil

Em setembro, o IPCA-15 avançou 0,48%, resultado inferior às projeções internas (0,57%) e à mediana de mercado (0,51%). No acumulado de 12 meses, o índice passou de 4,95% para 5,32%, ultrapassando o limite superior da meta de 4,5%. O principal fator foi o aumento de 12,17% nas contas de energia elétrica residencial, em razão da ausência do desconto da usina de Itaipu concedido nos meses anteriores. Entre os destaques de queda, seguros de veículos recuaram 5,95%, ingressos para cinema, teatro e concertos caíram 4,78% e passagens aéreas recuaram 2,61%, com impacto limitado de 0,12% no índice.

O núcleo da inflação aponta continuidade das pressões nos serviços essenciais, cujo acumulado em 12 meses subiu de 6,6% para 6,7%. Apesar da queda nos preços das commodities e do enfraquecimento do dólar, fatores como mercado de trabalho aquecido e perspectiva de câmbio mais depreciado devem sustentar pressões inflacionárias. A expectativa atual é que o IPCA encerre 2025 entre 5% e 5,2%, e atinja 5,2% em 2026, patamar acima das metas previstas. Esse cenário reforça a necessidade de monitoramento contínuo e possível manutenção de política monetária restritiva para assegurar convergência ao objetivo.

Resumo semanal: 15/09 a 19/09

Por Matheus Gomes de Souza, CEA

Ásia

No Japão, o Banco do Japão (BoJ) manteve a taxa de juros em 0,5% ao ano, decisão amplamente esperada, mas marcada pela dissidência de dois membros do comitê, que defenderam alta imediata e a redução gradual do balanço de ativos. O presidente Kazuo Ueda adotou postura cautelosa, afirmando que são necessárias mais evidências para avaliar o impacto das tarifas impostas pelos EUA sobre a economia japonesa, embora, até o momento, não observe efeitos negativos significativos. Analistas avaliam que, diante do bom desempenho da economia e da inflação mais elevada, o BoJ deverá iniciar o ciclo de alta ainda este ano. A projeção é que os ajustes ocorram de forma gradual, preservando a estabilidade financeira.

Na China, a atividade econômica apresentou crescimento abaixo do esperado em agosto, com a produção industrial desacelerando para 5,2% na comparação anual. Apesar do desempenho positivo em setores de alta tecnologia, eletrônicos e automotivo, as vendas no varejo perderam força, e os investimentos fixos recuaram, impactados pela menor aplicação em infraestrutura. A taxa de desemprego urbano subiu de 5,2% para 5,3%, enquanto o governo adotou políticas “anti-involução” para estabilizar preços imobiliários e coibir práticas predatórias. Mesmo com subsídios e estímulos, a crise no setor de construção persiste, pressionando o mercado e elevando os estoques de imóveis, fator que limita uma recuperação mais robusta.

Europa

O prolongamento da guerra entre Rússia e Ucrânia, agora em seu quarto ano, mantém elevado o grau de incerteza geopolítica na região, sem perspectivas de solução definitiva no curto prazo. No campo econômico, a produção industrial da zona do euro registrou leve alta de 0,3% em julho, recuperando parte da queda anterior, impulsionada pela Alemanha (+1,3%), mas com recuos relevantes na França (-1,1%) e na Espanha (-0,5%). Apesar do avanço, o nível de produção segue inferior ao observado em 2019, evidenciando uma retomada ainda incompleta. A fragilidade industrial reflete, em parte, custos elevados de energia e demanda externa moderada.

No Reino Unido, o mercado de trabalho continua perdendo fôlego, com a taxa de desemprego estável em 4,7% nos três meses até julho, mas diante de menor oferta de vagas. O crescimento salarial, embora desacelerando, ainda supera a inflação — destaque para o setor privado, com alta anual de 8,1%, frente a um índice de preços ao consumidor de 3,6% ao ano, no menor patamar em mais de dois anos. O Banco da Inglaterra manteve a taxa básica em 4%, com dois membros votando por corte, reforçando a atuação cautelosa diante dos riscos inflacionários. As projeções apontam pico de inflação em 4% em setembro, seguido de queda gradual, o que abre espaço para possíveis reduções de juros apenas no terceiro trimestre de 2025.

Oriente Médio

No Oriente Médio, Israel intensificou a ofensiva sobre a Cidade de Gaza, com bombardeios direcionados à infraestrutura do Hamas nas regiões de Sheikh Radwan e Tel Al-Hawa. Essas áreas são estratégicas para avançar em direção ao centro e ao oeste da cidade, onde se concentra a maior parte da população. Autoridades locais informaram 33 mortes nas últimas 24 horas, enquanto estimam que 350 mil pessoas já deixaram a Cidade de Gaza desde o início de setembro, restando cerca de 600 mil. Imagens de satélite mostram a instalação de novos acampamentos ao sul, além de intenso fluxo de civis pela via Salah al Din. Israel também anunciou a morte de Mahmoud Yusuf Abu Alkhir, apontado como vice-chefe da inteligência militar do Hamas. Apesar da pressão militar, não há sinais de cessar-fogo, enquanto cresce a insatisfação interna com protestos que exigem a libertação de reféns.

No campo geopolítico, a Arábia Saudita firmou um pacto de defesa com o Paquistão, introduzindo o guarda-chuva nuclear paquistanês no quadro estratégico regional, ainda que sem referência explícita ao uso de armas nucleares. A medida é interpretada como resposta às ameaças percebidas de Israel e como reflexo da desconfiança em relação à proteção oferecida pelos Estados Unidos. Paralelamente, Israel fechou o cruzamento de Allenby/King Hussein entre a Cisjordânia e a Jordânia após um ataque que matou dois militares, afetando uma rota comercial e humanitária essencial para milhões de palestinos. Já os Emirados Árabes Unidos elevaram sua projeção de crescimento para 2025 a 4,9%, impulsionados pelo aumento da produção de petróleo e pelo desempenho do setor não-petrolífero, que já responde por mais de 75% do PIB. As estimativas apontam para aceleração em 2026, com efeitos positivos sobre investimentos, confiança e gastos públicos.

Estados Unidos

O Federal Reserve reduziu a taxa básica de juros em 25 pontos-base, para o intervalo de 4% a 4,25% ao ano, movimento amplamente antecipado pelo mercado. A decisão, no entanto, não foi unânime: parte do Comitê defendeu um corte maior, de 50 pontos-base, diante do enfraquecimento na geração de empregos e maiores riscos de deterioração no mercado de trabalho. O comunicado indicou que a inflação segue resiliente, freando cortes mais agressivos. As projeções divulgadas apontam para três novas reduções em 2025, totalizando 0,75 p.p., e confirmam expectativa de ajustes graduais ao longo dos próximos anos. Jerome Powell destacou que os riscos estão mais equilibrados entre inflação e atividade, reforçando cautela na condução da política monetária.

A economia norte-americana apresentou desempenho melhor no setor real em agosto. A produção industrial avançou 0,1% frente a julho, com destaque para o segmento manufatureiro, enquanto as vendas no varejo superaram as expectativas. Em contraste, o mercado imobiliário manteve fraqueza: o número de construções iniciadas caiu 8,5% no mês, e as permissões para novas obras recuaram 3,7%, refletindo o impacto das taxas de hipoteca ainda elevadas. O índice de confiança das construtoras permaneceu em patamar baixo, mantendo a atividade abaixo do nível pré-pandemia. Por outro lado, os pedidos semanais de seguro-desemprego mostraram resiliência, somando 231 mil na semana até 13 de setembro.

Brasil

A taxa de desemprego medida pela PNAD Contínua recuou para 5,6% no trimestre encerrado em julho, alinhada às projeções e abaixo dos 5,8% do trimestre anterior, igualando o menor nível da série histórica. Os dados ajustados sazonalmente indicam estabilidade da população ocupada e economicamente ativa, com mercado de trabalho ainda aquecido. Em relação a julho de 2024, a renda real média subiu 3,8% e a massa de renda habitual avançou 6,4%, impulsionada pelo emprego formal e salários. A projeção aponta para encerramento de 2025 com desemprego em torno de 5,5%, patamar historicamente baixo, o que sustentará a atividade econômica, mas pode dificultar o controle da inflação, sobretudo no segmento de serviços.

No campo da política monetária, o Copom manteve a Selic em 15% ao ano, decisão unânime e consistente com o cenário de estabilidade até o fim de 2024, com possível início de cortes apenas em março de 2025. O comitê destacou que a convergência da inflação para a meta exige postura restritiva por mais tempo, e reforçou que poderá retomar ajustes se necessário. No lado dos preços, o IGP-10 subiu 0,21% em setembro, abaixo das estimativas, com alta de 3,1% no IPA agrícola e queda de 0,29% no núcleo industrial. Em 12 meses, o índice acumula avanço de 2,88%, próximo à variação anterior, com alívio no atacado por commodities mais baratas em reais, mas ainda com pressão inflacionária doméstica ligada ao mercado de trabalho robusto.