Comércio em setembro
Por Ariane Benedito, Economista-chefe do PicPay
O volume de vendas do comércio varejista recuou 0,3% em setembro, na série com ajuste sazonal, frustrando nossa projeção de alta de 0,3%. O resultado mostra um varejo mais fraco do que o esperado, especialmente após um mês de agosto já marcado por perda de tração. Na comparação anual, o setor avançou 0,8%, mantendo a sequência de resultados positivos, mas em um ritmo moderado. No acumulado de 2025, as vendas crescem 1,5%, enquanto o desempenho em 12 meses estabiliza em 2,1%.
Seis das oito atividades pesquisadas registraram queda na margem, evidenciando um quadro disseminado de fraqueza. Destacaram-se as retrações em livros, jornais e papelaria (-1,6%), tecidos, vestuário e calçados (-1,2%), combustíveis (-0,9%) e informática e comunicação (-0,9%), além do recuo em móveis e eletrodomésticos (-0,5%) e supermercados (-0,2%). Essas quedas vieram em linha com nosso diagnóstico de que o consumo nos lares e as vendas de combustíveis devolveriam parte dos ganhos após o pico observado em junho.
Por outro lado, os únicos segmentos com desempenho positivo foram artigos farmacêuticos, médicos e de perfumaria (+1,3%) — refletindo maior demanda por medicamentos — e outros artigos de uso pessoal e doméstico (+0,5%), ambos coerentes com o cenário que antecipávamos de resiliência em itens de consumo menos cíclico.
No varejo ampliado, as vendas cresceram 0,2%, mas abaixo da nossa projeção de +0,8%. Apesar da contribuição positiva esperada dos segmentos mais sensíveis ao crédito, o desempenho foi limitado pelo recuo de veículos (-0,8%) e pela estabilidade negativa de materiais de construção (-0,1%), indicando que a tração observada no início do trimestre perdeu força.
O resultado de setembro reforça a leitura de moderação do consumo das famílias, influenciada por renda real ainda estável, crédito mais restritivo e um ambiente de incerteza que reduz a propensão a compras de maior valor, como bens duráveis. A média móvel trimestral negativa (-0,1%) reforça esse quadro.
Para os próximos meses, esperamos um varejo operando em ritmo moderado, com desempenho ainda sustentado por segmentos essenciais — como farmacêuticos —, mas limitado pelo enfraquecimento do consumo nos lares e pelo arrefecimento das vendas de combustíveis e duráveis. Ainda assim, avaliamos que o setor deve continuar contribuindo positivamente para a atividade, mas de forma mais contida do que anteriormente projetado. Assim, mantemos a nossa projeção do PIB em 2,2% para este ano.
Resumo semanal: 03/11 a 07/11
Por Matheus Gomes de Souza, CEA
Estados Unidos
O governo americano enfrenta o mais longo shutdown de sua história, completando 38 dias de paralisação devido ao impasse entre democratas e republicanos na aprovação do orçamento fiscal de 2026. Serviços públicos não essenciais permanecem fechados e divulgação de dados econômicos está suspensa. Indicadores paralelos apontam criação de 42 mil vagas segundo estimativas privadas e manutenção da taxa de desemprego pouco acima de 4,3%. O setor manufatureiro manteve retração com PMI em 48,7, enquanto o setor de serviços expandiu para 52,4 pontos, mostrando demanda aquecida, apesar da pressão nos preços.
A interrupção administrativa limita a publicação de dados oficiais, mas as métricas alternativas sugerem resiliência do mercado de trabalho. No lado industrial, retração em produção, demanda e emprego intensifica preocupações com custos elevados. Por outro lado, os serviços apresentam forte aceleração na demanda e leve melhora no emprego. O panorama reforça que a economia segue em ritmo misto: serviços sustentando atividade, enquanto a indústria permanece sob pressão estrutural.
Brasil
A inflação medida pelo IGP-DI teve deflação de 0,03% em outubro, acima da projeção de -0,22%. Em 12 meses, acumula alta de 0,7%, abaixo do 2,3% do mês anterior, refletindo alívio nos preços de commodities, enquanto o IPCA segue pressionado pelo mercado de trabalho. A produção industrial caiu 0,4% em setembro frente a agosto, com retração expressiva na indústria extrativa (-1,6%) e estabilidade na de transformação, confirmando tendência de desaceleração para 2025.
O Copom manteve a taxa Selic em 15% ao ano, adotando tom restritivo e indicando que não há perspectiva de cortes neste ano. Projeções de inflação recuaram de 3,4% para 3,3% no segundo trimestre de 2027, aproximando-se da meta de 3%. A estratégia do Banco Central mantém a política monetária em patamar contracionista prolongado, sinalizando início de possíveis reduções apenas em março de 2026, condicionadas à consolidação do cenário de desaceleração inflacionária.
Europa
O comércio varejista da Zona do Euro recuou 0,1% em setembro frente a agosto, com revisões baixistas para o mês anterior. França (-0,1%) e Itália (-0,6%) registraram quedas, enquanto Alemanha (+0,2%) e Espanha (+0,4%) cresceram. O indicador agregado se mantém próximo aos níveis pré-pandemia. No Reino Unido, o Banco da Inglaterra manteve juros em 4% ao ano, com votação apertada e expectativa de cortes graduais à medida que a inflação arrefece.
No campo geopolítico, a guerra entre Rússia e Ucrânia entra no quarto ano sem perspectivas de acordo. A manutenção das taxas britânicas reflete cautela diante de crescimento salarial enfraquecido e mercado de trabalho estagnado, mas incertezas impedem ação mais expansionista. Já na Zona do Euro, a estabilidade relativa nos indicadores sugere desaceleração suave do consumo, mas sem romper o equilíbrio macroeconômico alcançado após a pandemia.
Ásia
A balança comercial da China registrou superávit de US$ 90 bilhões em outubro, abaixo das expectativas, mas igual ao mês anterior. As exportações recuaram e as importações tiveram leve alta frente a outubro de 2024, com a queda nas exportações atribuída a feriado prolongado e redução de dias úteis. A perspectiva é de expansão gradual das vendas externas, impulsionada por acordo entre Donald Trump e Xi Jinping para reduzir tarifas comerciais.
O desempenho desapontou os analistas, pois a retração foi ampla entre diferentes produtos e mercados. Apesar disso, o saldo comercial permanece forte e sustenta otimismo moderado sobre ganho de tração nas exportações nos próximos meses. A redução de barreiras comerciais com os EUA representa oportunidade estratégica para a indústria exportadora chinesa, especialmente diante da recuperação gradual da demanda americana e de ajustes na política comercial bilateral.
Oriente Médio
No Iraque, as eleições parlamentares marcadas para 11 de novembro testam a confiança pública após duas décadas de sistema democrático desgastado por corrupção e serviços precários. Mohammed Shia al-Sudani busca segundo mandato enfrentando concorrência de redes políticas tradicionais e novas lideranças jovens. A divisão sectária no sistema de poder mantém garantias de repartição de cargos entre xiitas, sunitas e curdos. Paralelamente, a influência de Masoud Barzani segue decisiva na política curda, com o PDK mobilizando alta participação para ampliar poder nas negociações sobre receitas do petróleo.
No Líbano, ataques aéreos israelenses no sul, acompanhados de ordens de evacuação inéditas em um ano de cessar-fogo, aumentam a tensão com o Hezbollah. Israel acusa o grupo de reconstruir capacidades militares, enquanto a ONU denuncia violações à resolução 1701. O exército libanês avança no desarmamento, mas a ofensiva israelense eleva riscos de escalada militar. Nos Emirados Árabes, bolsas fecharam em alta, impulsionadas por ganhos em Abu Dhabi e Dubai, embora dados semanais mostrem leve perda no acumulado regional.
IPCA em setembro, melhor que o esperado
O IPCA de setembro avançou 0,48%, abaixo da nossa projeção, que apontava para uma alta de 0,53%. No acumulado em 12 meses, a inflação acelerou de 5,13% para 5,17%. Do ponto de vista qualitativo, o resultado foi melhor do que o esperado: todos os principais indicadores de inflação subjacente vieram abaixo das estimativas. Esse desempenho coloca uma assimetria baixista para o IPCA deste ano, com uma chance marginal de encerrar 2025 dentro da banda da meta. Ainda assim, sob a ótica da política monetária, reforçamos a necessidade de manter a taxa Selic em 15% pelo menos até 2026.
Dos nove grupos analisados, seis apresentaram variações positivas em setembro. Os principais impactos vieram de Habitação (2,97%), Vestuário (0,63%), Despesas pessoais (0,51%) e Saúde e cuidados pessoais (0,17%). No grupo de Habitação, destacou-se a alta de 10,31% na energia elétrica residencial, impulsionada pela retirada do Bônus de Itaipu e pela cobrança da bandeira tarifária vermelha patamar 2. Em Vestuário, a elevação foi puxada por roupas masculinas (1,06%) e joias e bijuterias (1,37%). Já em Despesas pessoais, os destaques foram pacote turístico (2,87%) e cinema, teatro e concerto (2,75%), com a devolução dos preços após os descontos promovidos na Semana do Cinema.
Por outro lado, Alimentação e bebidas (-0,26%), Artigos de residência (-0,40%) e Comunicação (-0,17%) registraram deflação no mês. Os grupos Transportes (0,01%) e Educação (0,07%) apresentaram variações próximas da estabilidade. Entre os principais destaques negativos, figuram as quedas em alimentação no domicílio (-0,41%), seguro voluntário de veículos (-5,98%) e passagens aéreas (-2,83%).
Olhando à frente, revisamos nossa projeção de inflação para 2025 de 4,9% para 4,7%. Por ora, avaliamos que o balanço de riscos se apresenta menos incerto e mais benigno, com destaque positivo para o comportamento do câmbio. Apesar disso, o cenário segue significativamente pressionado. Continuamos atentos às pressões altistas decorrentes da possível desancoragem das expectativas, da manutenção de um hiato do produto positivo e do risco de depreciação do real diante de uma eventual deterioração do quadro fiscal e/ou geopolítico.