Resumo semanal: 24/11 a 28/11
Por Matheus Gomes de Souza, CEA
Estados Unidos
A economia norte-americana apresentou sinais mistos em setembro e novembro, evidenciando desaceleração moderada em consumo e emprego. As vendas no varejo cresceram apenas 0,2% no mês, abaixo das previsões, após alta de 0,6% em agosto, com ajuste pontual no setor automotivo antes do vencimento de incentivos fiscais. O Índice de Preços ao Produtor subiu 0,3% em setembro e acumula 2,7% em 12 meses, pressionado por aumentos em combustíveis e alguns bens industriais. O Livro Bege do Fed indicou estabilidade na atividade geral, mas fragilidade no mercado de trabalho em metade dos distritos, com consumo mais sustentado por famílias de alta renda e retração nas demais, parcialmente influenciada pela paralisação de 43 dias do governo. A confiança do consumidor caiu para 88,7 em novembro, menor nível desde o segundo trimestre, com preocupações sobre empregos e finanças pessoais.
A desaceleração das vendas e a queda na confiança do consumidor apontam para um ritmo mais cauteloso no gasto das famílias, em especial entre as de menor renda, pressionadas por tarifas e inflação persistente. O avanço moderado dos preços ao produtor sugere manutenção de pressões de custo, com impacto desigual entre setores, podendo sustentar a inflação próxima ou acima da meta do Fed. O cenário descrito no Livro Bege fortaleceu expectativas de novo corte de 0,25 p.p. na taxa básica na reunião de dezembro, diante do enfraquecimento gradual do mercado de trabalho e perda de ímpeto em consumo. Todavia, a decisão deve enfrentar resistência interna entre dirigentes preocupados com o risco de flexibilização prematura. A paralisação do governo adicionou ruído à demanda e à percepção de estabilidade financeira das famílias, ampliando incertezas no curto prazo e reforçando a necessidade de calibragem cuidadosa da política monetária para 2026.
Brasil
Os indicadores de outubro apontaram uma economia brasileira marcada por contrastes entre mercado de trabalho aquecido, desaceleração na atividade e pressões fiscais. A taxa de desemprego atingiu 5,4% no trimestre até outubro, menor patamar da série histórica do IBGE, com renda média recorde de R$ 3.528, embora dados do Caged mostrem criação líquida de apenas 85,1 mil vagas formais (o pior resultado para o mês desde 202). O setor público consolidado acumulou déficit primário de R$ 46,85 bilhões entre janeiro e outubro, equivalente a 0,45% do PIB, puxado pelo rombo de R$ 63,38 bilhões no governo central. O IPCA-15 avançou 0,20% em novembro, trazendo inflação em 12 meses para 4,50%, dentro da meta, enquanto o IGP-M também subiu 0,27% no mês, mas acumula queda de 0,11% em um ano. Nas contas externas, o déficit em transações correntes foi de US$ 5,12 bilhões, acima do esperado, com investimentos diretos no país somando US$ 10,94 bilhões. A arrecadação federal registrou recorde para outubro, com R$ 261,9 bilhões, influenciada por alta expressiva em IOF, IRRF-Capital e regulamentação das apostas online, que geraram R$ 1 bilhão no mês.
A baixa taxa de desemprego reforça a resiliência do mercado de trabalho e sustenta a renda e o consumo, mas sinais de moderação (como menor ritmo de contratações formais e desempenho desigual por setores) indicam que o ciclo de expansão pode estar próximo ao ápice. A manutenção da Selic em 15% gera efeito de contenção sobre a economia, refletido na desaceleração das receitas federais e na pressão sobre criação de empregos. No campo fiscal, o déficit primário do governo central, somado ao aumento da dívida pública bruta para 78,6% do PIB, reforça o desafio de conciliar estímulo econômico com disciplina orçamentária. A melhora da inflação para dentro da meta abre espaço para eventual flexibilização monetária, embora o Banco Central adote cautela diante da persistência de pressões sobre preços administrados e serviços. O saldo elevado de investimentos diretos revela confiança externa, atenuando parte do impacto do déficit externo, ao passo que a forte alta na arrecadação com apostas online mostra potencial de novas bases tributárias. Esses elementos compõem um quadro de transição para 2026, em que ajustes fiscais e calibragem monetária serão decisivos para sustentabilidade do crescimento.
Europa
O cenário europeu foi marcado por definições fiscais relevantes e intensificação das discussões geopolíticas. No Reino Unido, a ministra das Finanças, Rachel Reeves, apresentou um orçamento com aumento de impostos de £26 bilhões, elevando a carga tributária para 38% do PIB até 2030, o maior nível desde a Segunda Guerra Mundial, acompanhado de medidas como congelamento de limites de imposto de renda, sobretaxa sobre imóveis de alto padrão e fim da restrição de benefícios sociais a famílias com mais de dois filhos. As principais agências de classificação de risco avaliaram o plano como consistente para consolidação fiscal, embora com riscos de execução. Na União Europeia, avançaram as negociações para o uso de €140 bilhões em ativos russos congelados para financiar a Ucrânia, mas a Bélgica mantém resistência, alegando riscos jurídicos e diplomáticos. A França anunciou um serviço militar voluntário para jovens visando reforço defensivo diante de ameaças, enquanto a Suíça se prepara para votar um imposto sobre grandes heranças e enfrenta retração de 0,5% no PIB no terceiro trimestre, impactada pela queda nas exportações químicas e farmacêuticas. Em Portugal, o parlamento aprovou o orçamento de 2026 com previsão de superávit e queda da dívida pública, mantendo estímulos fiscais seletivos.
As medidas fiscais no Reino Unido tendem a reforçar o equilíbrio das contas, mas podem pressionar o consumo, em um contexto de crescimento fraco e risco de reversões políticas devido à queda de popularidade do governo. O impasse na UE sobre ativos russos reflete a complexidade de conciliar apoio financeiro à Ucrânia com segurança jurídica e unidade política interna, enquanto debates sobre modelos alternativos liderados pelos EUA adicionam novas variáveis. O programa militar voluntário francês sinaliza adaptação às mudanças no ambiente de segurança europeu, fortalecendo o contingente de reservistas sem retomar o serviço obrigatório. A proposta suíça de imposto sobre heranças de grandes fortunas, apesar da baixa expectativa de aprovação, reabre o debate sobre redistribuição e financiamento climático. A contração econômica na Suíça, aliada à pressão por redução de custos de vida, pode influenciar decisões fiscais futuras. Já Portugal busca manter estabilidade fiscal e atratividade para investimentos, equilibrando cortes tributários e disciplina orçamentária. O aumento moderado da confiança do consumidor alemão sugere resiliência para as vendas de fim de ano, embora expectativas de curto prazo sigam contidas, limitando impulso adicional ao crescimento regional.
Ásia
A semana na Ásia foi marcada por tensões geopolíticas e decisões relevantes de política monetária e orçamentária. No Japão, o Banco do Japão sinalizou possibilidade de novos aumentos graduais nas taxas de juros, após anos de estímulo e com inflação persistentemente acima da meta de 2%, impulsionada por alta de preços de alimentos e valorização do dólar frente ao iene. O ambiente regional segue agravado pela pior crise diplomática entre Japão e China em anos, com Pequim reagindo fortemente às declarações da primeira-ministra japonesa sobre defesa de Taiwan, e ao plano japonês de instalar mísseis em Yonaguni. A pressão chinesa também é sentida em Taiwan, que anunciou um orçamento suplementar de US$ 40 bilhões para defesa e iniciou conversas com os EUA sobre aquisições estratégicas de armamentos. Na Coreia do Sul, o banco central manteve sua taxa básica em 2,50%, ajustou projeções de crescimento e inflação e demonstrou cautela diante da depreciação do won e da alta dos preços imobiliários em Seul. No Sudeste Asiático, a Tailândia aprovou um orçamento de 3,788 trilhões de baht para 2027 com déficit reduzido, enquanto a junta militar de Myanmar anunciou anistia a milhares de pessoas antes de eleições contestadas internacionalmente.
As expectativas de ajuste monetário no Japão podem fortalecer o iene e conter pressões inflacionárias, mas exigem equilíbrio para não comprometer aumentos salariais e atividade econômica. A escalada diplomática entre Japão, China e Taiwan eleva riscos de instabilidade no Leste Asiático, sobretudo diante da ampliação das capacidades defensivas de Taiwan e da retórica militar chinesa, o que tende a influenciar mercados e rotas comerciais. Na Coreia do Sul, a decisão de manter juros reflete as limitações impostas pela fragilidade cambial frente a um cenário de exportações em recuperação (puxadas por semicondutores e automóveis) e pode sinalizar um fim próximo ao ciclo de cortes. A aprovação orçamentária na Tailândia indica esforço por responsabilidade fiscal, enquanto em Myanmar o gesto político da anistia é percebido por analistas como tentativa de legitimar um processo eleitoral sem garantias democráticas, podendo ter impacto limitado na percepção de risco-país. O reforço militar conjunto entre Coreia do Sul e EUA, voltado a conter a Coreia do Norte, adiciona um elemento de tensão adicional ao quadro regional.
Oriente Médio
O Oriente Médio registrou avanços diplomáticos e agravamento de tensões militares. Líbano e Chipre assinaram um acordo histórico de demarcação marítima, encerrando uma disputa de anos e abrindo perspectivas para cooperação energética e exploração de gás offshore, enquanto a Turquia rejeitou o pacto por considerar que viola direitos dos cipriotas turcos. Nos Emirados Árabes Unidos, foi anunciado um pacote de US$ 1 bilhão para projetos de energia solar, eólica e rede elétrica no Iêmen, visando reconstrução e expansão da capacidade energética. Ao mesmo tempo, mediadores turcos, egípcios e catarianos discutiram no Cairo a transição para a segunda fase do cessar-fogo em Gaza. Apesar da trégua vigente desde outubro, a UNCTAD relatou o pior colapso econômico já registrado nos territórios palestinos, com PIB de Gaza recuando ao nível de 2003. Paralelamente, a ONU denunciou a morte de pelo menos 127 civis no Líbano em ataques israelenses pós-trégua, e Israel realizou um ataque aéreo que matou o chefe de gabinete interino do Hezbollah, ampliando a fragilidade do cessar-fogo estabelecido em 2024.
O acordo marítimo entre Líbano e Chipre pode atrair investimentos e criar base legal para futuros projetos de exploração e interconexão elétrica, aliviando a crônica escassez energética libanesa, embora a contestação da Turquia introduza incertezas jurídicas e diplomáticas. O pacote energético dos Emirados ao Iêmen representa um impulso crucial para sua infraestrutura, podendo aumentar participação das renováveis na matriz nacional, mas requer estabilidade política para plena execução. O colapso econômico palestino sinaliza desafios de reconstrução que demandam vultosos recursos internacionais e décadas de recuperação, criando riscos sociais e humanitários adicionais. No front militar, os ataques israelenses contra alvos no Líbano e a eliminação de líderes do Hezbollah aumentam a possibilidade de retomada das hostilidades, comprometendo negociações mediadas regionalmente com apoio dos EUA. A manutenção da política de produção da OPEP+ reforça expectativas de estabilidade de oferta global, mas debates internos sobre capacidade de produção podem influenciar acordos futuros, afetando mercados e receitas de países-membros.