Resumo semanal: 11/08 a 15/08
Por Matheus Gomes de Souza, CEA
Ásia
A economia chinesa apresentou desempenho aquém do esperado em julho, com sinais claros de desaceleração em diversos indicadores-chave. A produção industrial cresceu abaixo das projeções do mercado, enquanto as vendas no varejo e os investimentos mantiveram ritmo fraco, refletindo um enfraquecimento da demanda interna. Juntam-se a isso o aumento do desemprego urbano e um fluxo de crédito agregado inferior ao esperado, apesar das recentes políticas do Banco do Povo da China (PBOC). O governo anunciou novos programas de subsídios fiscais, especialmente voltados ao setor de serviços, numa tentativa de reanimar a atividade econômica. No entanto, tais iniciativas, segundo as análises, não deverão gerar estímulos significativos no curto prazo, dada a magnitude dos desafios.
Além disso, o desequilíbrio entre oferta e demanda persiste, evidenciado pela inflação ao consumidor estável e a deflação no índice de preços ao produtor (PPI). O consumo doméstico segue enfraquecido, enquanto o excesso de oferta pressiona ainda mais os preços, ampliando o quadro deflacionário no setor industrial. A combinação desses fatores alimenta preocupações quanto à sustentabilidade da recuperação econômica chinesa, especialmente diante de um contexto global menos favorável. Os sinais de fragilidade na China adicionam incertezas à economia asiática como um todo, afetando tanto cadeias produtivas quanto fluxos comerciais e financeiros. Diante disso, a expectativa é de que políticas de estímulo mais robustas possam ser implementadas caso o ritmo de desaceleração se intensifique.
Europa
A guerra entre Rússia e Ucrânia chegou ao seu quarto ano, mantendo o cenário geopolítico europeu instável e impactando diversos setores econômicos. Os dados mais recentes do Eurostat mostram que a produção industrial da zona do euro apresentou queda de 1,3% em junho, superando as expectativas negativas e permanecendo abaixo dos níveis pré-pandemia. Essa maior volatilidade dos indicadores industriais está associada tanto à persistência dos conflitos quanto à intensificação da guerra tarifária, que afeta cadeias produtivas distintas entre países como Alemanha, França, Itália e Irlanda. A incerteza no setor industrial dificulta projeções de recuperação, criando desafios adicionais para a retomada do crescimento. Por outro lado, a política econômica regional permanece cautelosa, diante da combinação de choques externos e instabilidades internas.
No Reino Unido, o PIB do segundo trimestre de 2025 surpreendeu positivamente, crescendo 0,3% em relação ao trimestre anterior, com destaque para a contribuição do setor público frente à desaceleração da demanda privada. O setor industrial e de serviços também exibiu avanço no mês de junho, embora em ritmo moderado. Apesar do desempenho acima das expectativas, o mercado de trabalho britânico segue fragilizado, apresentando taxa de desemprego estável em 4,7% e redução de contratações, conforme revelado pelos dados de folhas de pagamento. O crescimento salarial, de 5% ao ano (excluindo bônus), não tem sido suficiente para reverter o enfraquecimento do emprego. Esse cenário reforça a expectativa de manutenção do ritmo gradual de cortes de juros pelo Banco da Inglaterra, sem mudanças abruptas na política monetária no curto prazo.
Oriente Médio
O conflito entre Israel e Palestina voltou ao centro do debate após a reativação de um plano israelense que poderia dividir a Cisjordânia e isolar Jerusalém Oriental. A contínua expansão dos assentamentos israelenses, considerados ilegais pela maioria da comunidade internacional, intensifica tensões e dificulta a solução de dois Estados, especialmente após o apoio do governo Netanyahu aos colonos desde o ataque do Hamas em 2023. Atualmente, cerca de 700 mil colonos vivem entre 2,7 milhões de palestinos na Cisjordânia e Jerusalém Oriental, consolidando o controle israelense da região. A situação se agrava com denúncias de violência por parte dos colonos e ausência de proteção a palestinos, tornando o ambiente ainda mais instável. Paralelamente, países aliados de Israel sinalizam possível reconhecimento do Estado palestino, ampliando a pressão diplomática.
Além do conflito israelense-palestino, outras tensões regionais se destacaram. Na Turquia, uma operação anticorrupção resultou na prisão do prefeito de Beyoglu e de outros membros da oposição, elevando temores sobre repressão política e uso do Judiciário para enfraquecer adversários do governo Erdogan. No Líbano, o Hezbollah fez duras ameaças ao governo sobre planos de desarmamento apoiados pelos EUA, levantando o risco de escalada para guerra civil. O grupo xiita defende seu armamento como resistência a Israel, enquanto apelos por seu desarmamento aumentam fora da comunidade xiita. Esse quadro reforça a centralidade das questões de soberania, segurança e instabilidade institucional como pilares do cenário político do Oriente Médio nesta semana.
Estados Unidos
A inflação permanece como tema central na economia americana, com o índice de preços ao consumidor (CPI) registrando alta de 0,2% em julho, superando a meta do Federal Reserve. Apesar do aumento das tarifas de importação, especialmente sobre bens chineses, seus efeitos ainda não foram significativamente sentidos nos preços internos. O núcleo do CPI, que exclui itens voláteis como alimentos e energia, também segue pressionado, indicando persistência do cenário inflacionário. Em resposta, o Fed mantém uma postura cautelosa, indicando pouca margem para cortes de juros neste ano, diante do desafio de ancorar expectativas de inflação. Paralelamente, a extensão da trégua tarifária com a China por mais 90 dias trouxe leve alívio nas tensões comerciais, embora a alíquota média efetiva de importação dos EUA já tenha atingido 18,6%.
Em termos de atividade econômica, os dados de julho apontam para uma moderação, com produção industrial e vendas no varejo crescendo de forma comedida. Pequenas empresas demonstraram leve recuperação de otimismo, conforme refletido pelo índice NFIB, ao passo que a incerteza ainda persiste, impulsionada por temas como qualidade da mão de obra. O mercado de trabalho segue aquecido, evidenciado pelo baixo número de pedidos de seguro-desemprego, consistentemente abaixo dos padrões históricos. No front internacional, além das questões comerciais, destaca-se a pressão sobre Donald Trump para apoiar um acordo de cessar-fogo entre Rússia e Ucrânia, mostrando como fatores geopolíticos seguem influenciando o ambiente econômico americano. Tais elementos reforçam a necessidade de cautela e monitoramento constante das principais variáveis macroeconômicas nos EUA.
Brasil
Os dados econômicos de junho evidenciam um cenário de desaceleração gradual na atividade brasileira. A Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) apontou uma leve expansão de 0,3% no volume de serviços frente ao mês anterior, com queda nos serviços prestados às famílias (-1,4%) e destaque para o segmento de transportes, que avançou 1,5%. Já a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) registrou recuo de 2,5% nas vendas do varejo ampliado, superando negativamente as expectativas, especialmente em setores como hipermercados e material de construção. O crescimento do varejo no acumulado dos últimos doze meses ficou abaixo de 1%, bem distante dos 3,7% observados no mesmo período do ano anterior. Esses resultados reforçam sinais de perda de fôlego no consumo interno.
Paralelamente, a conjuntura de juros elevados segue restringindo investimentos e afetando a confiança dos agentes econômicos. Com a atividade doméstica mais tímida, as projeções para o Produto Interno Bruto (PIB) foram revistas e apontam para crescimento de 2% em 2025 e 1,5% em 2026, indicando ritmo mais moderado em comparação aos anos anteriores. O ambiente de crédito mais caro e as incertezas macroeconômicas acrescentam desafios ao cenário para os próximos trimestres. Nesse contexto, a economia brasileira tende a permanecer resiliente, porém sob impacto direto das condições financeiras restritivas e do enfraquecimento nas principais bases de consumo e investimento. A leitura reforça atenção às próximas decisões de política monetária e movimentos do mercado de trabalho.
Serviços em junho
Por Igor Cadilhac
O setor de serviços avançou 0,3% na passagem de maio para junho, registrando expansão de 2,8% na comparação anual — o décimo quinto mês consecutivo de crescimento. No geral, o resultado veio um pouco acima do esperado e reforça a resiliência do principal setor da economia brasileira no segundo trimestre. Nos últimos cinco meses, o setor acumula alta de 2% e se encontra no pico da série histórica.
Entre as cinco atividades pesquisadas, apenas os transportes apresentaram avanço na margem, de 1,5%. Em contrapartida, os destaques negativos ficaram com outros serviços (-1,3%) e serviços prestados às famílias (-1,4%). Em seguida, serviços de informação e comunicação (-0,2%) e serviços profissionais, administrativos e complementares (-0,1%) tiveram resultados próximos à estabilidade.
Para 2025, projetamos crescimento de 2,1% no setor de serviços. Nossa avaliação indica que a atividade econômica brasileira mantém bom desempenho, sustentada por um mercado de trabalho em pleno emprego e pela massa salarial, ambos nos melhores níveis da história. A economia segue aquecida, mas desacelerando gradualmente. Para os próximos trimestres, esperamos que a combinação de inflação persistente, juros elevados e deterioração das condições financeiras resulte em uma desaceleração mais nítida.
Com os dados de atividade de junho consolidados, estimamos que a alta nos serviços mais que compense as quedas no varejo e na indústria. Dessa forma, projetamos um crescimento de 0,4% para o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br).
Resumo semanal: 04/08 a 08/08
Por Matheus Gomes de Souza, CEA
Ásia
Em julho de 2024, a balança comercial chinesa registrou superávit de 98,2 bilhões de dólares, resultado inferior ao mês anterior e abaixo das expectativas do mercado. Apesar do crescimento anual tanto nas exportações quanto nas importações, o desempenho no comparativo mensal foi marcado por queda nas exportações, reflexo principalmente da retração nas vendas para Estados Unidos, Japão e União Europeia. Itens afetados vão desde bens de consumo menos sofisticados, como têxteis, vestuário e brinquedos, até produtos de maior valor agregado, como celulares e computadores. Em contrapartida, as importações cresceram moderadamente, impulsionadas por uma demanda doméstica ainda fraca.
Setorialmente, destacou-se a resiliência das exportações de semicondutores, possivelmente beneficiadas por isenções tarifárias temporárias concedidas pelos Estados Unidos. No âmbito diplomático, houve uma melhora pontual nas relações comerciais sino-americanas, atribuída a acordos temporários firmados entre maio e junho. Contudo, as incertezas persistem, já que as tarifas elevadas sobre produtos chineses continuam sendo um obstáculo relevante e devem seguir limitando o dinamismo do comércio bilateral nos próximos meses. Assim, o cenário permanece sujeito a riscos associados ao ambiente geopolítico e à evolução das políticas comerciais internacionais.
Europa
A guerra entre Rússia e Ucrânia chega ao quarto ano, com o conflito permanecendo sem solução definitiva. Os ataques russos persistem, enquanto iniciativas de cessar-fogo perdem força, evidenciando a complexidade das negociações internacionais. A pressão americana se alterna entre posicionamentos mais rígidos e tentativas diplomáticas, destacando que uma solução permanente ainda parece distante. Paralelamente, o contexto geopolítico europeu influencia diretamente as perspectivas econômicas e políticas da região, afetando decisões estratégicas de governos e órgãos multilaterais. O ambiente permanece incerto, exigindo cautela por parte de analistas e formuladores de políticas.
No campo econômico, a Zona do Euro apresentou sinais de recuperação moderada no varejo, com alta de 0,3% nas vendas em junho e avanço anualizado de 2,8% no segundo trimestre, segundo o Eurostat. Alemanha e Itália contribuíram para o desempenho positivo, enquanto a França registrou retração. O nível geral das vendas se aproxima do patamar pré-pandêmico, sinalizando resiliência do consumo na região. Ao mesmo tempo, o Banco da Inglaterra reduziu a taxa de juros em 25 pontos base, para 4% ao ano, em decisão dividida, refletindo o avanço gradual da desinflação frente à persistente pressão inflacionária em energia e alimentos. A expectativa é que a inflação atinja a meta de 2% apenas em 2027, mantendo o debate sobre a necessidade de ajustes graduais na política monetária.
Oriente Médio
Na última semana, o mercado de petróleo foi marcado por significativa volatilidade, com o preço futuro do Brent apresentando queda de 8,4%, encerrando o período em 66,4 dólares por barril. Esse movimento foi impulsionado pela expectativa de uma reunião entre líderes mundiais que pode avançar em acordos de cessar-fogo envolvendo Rússia e Ucrânia, além de progressos nas relações entre Estados Unidos e Rússia. Destacou-se ainda a possibilidade de redução das ameaças de imposição de tarifas secundárias a países que importam petróleo russo, o que pode reconfigurar os fluxos comerciais e aliviar pressões sobre o mercado internacional da commodity.
No âmbito da produção, a OPEP+ decidiu elevar em 547 mil barris por dia a oferta de petróleo a partir de setembro, sinalizando o provável último aumento no curto prazo, com previsão de retirada voluntária de 2,2 milhões de barris até o final de 2024. Essa decisão reflete o esforço do grupo para equilibrar oferta e demanda globais diante de incertezas geopolíticas e volatilidade dos preços. No setor agrícola, os preços futuros apresentaram desempenho misto: a soja registrou alta de 1%, enquanto milho e trigo recuaram 2,4% e 1%, respectivamente. O cenário reforça a relevância do Oriente Médio no centro das discussões energéticas e comerciais internacionais.
Estados Unidos
As novas tarifas comerciais implementadas pelos Estados Unidos entraram em vigor nesta semana, aumentando a média efetiva das alíquotas de importação para 18,3%, patamar bem acima do histórico de 2,4% desde 1935, segundo cálculos de um centro de pesquisa de Yale. Entre os principais parceiros comerciais, houve impacto diferenciado: a União Europeia enfrentou medidas generalizadas, Japão e Coreia do Sul passaram a ser taxados em 15%, o Canadá está sujeito a 35% devido a preocupações de segurança na fronteira, enquanto Índia e Brasil viram suas tarifas subirem significativamente, e México conseguiu um prazo maior de negociação. China, por sua vez, terá múltiplas tarifas, incluindo aumentos de 10% e 30% em diferentes setores. Esse cenário ressalta o aumento das tensões comerciais globais e pode gerar efeitos inflacionários relevantes, com potencial impacto nos preços internos.
No âmbito doméstico, o setor de serviços dos Estados Unidos se manteve estável em julho, com o índice PMI do ISM marcando 50,1 pontos – uma leve queda de 0,7 em relação ao mês anterior. Apesar da pequena redução em demanda e no emprego, os níveis continuam próximos à estabilidade, enquanto os preços seguem sob pressão. Os pedidos iniciais de seguro-desemprego permaneceram baixos, atingindo 226 mil na primeira semana de agosto, o que reforça a resiliência do mercado de trabalho frente ao novo cenário de tarifas. Diante desse quadro e da recente surpresa negativa nos dados do emprego, acredita-se que o Federal Reserve (Fed) deverá manter os juros no patamar atual por mais algum tempo, monitorando de perto os desdobramentos inflacionários e eventuais mudanças a serem avaliadas na próxima reunião de setembro.
Brasil
Em julho, o IGP-DI registrou a terceira deflação consecutiva, com queda de 0,07%. O resultado ficou acima das expectativas do mercado, que projetava recuo de 0,15%, e reflete principalmente a contração dos preços ao produtor, especialmente no setor agrícola, cujo IPA caiu 3,42%. O núcleo do IPA industrial, que exclui alimentos, combustíveis e minério de ferro, também apresentou retração de 0,26%. Nos últimos 12 meses, o IGP-DI acumulou alta de 2,9%, com destaque para avanços de 2,8% no IPA agrícola e 4,9% no núcleo industrial. Esse movimento indica um recente alívio nos preços do atacado, embora a inflação ao consumidor, medida pelo IPCA, permaneça pressionada por fatores internos, como o mercado de trabalho aquecido.
No âmbito da política monetária, a ata do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada pelo Banco Central, reforçou o tom de cautela do colegiado. A Selic foi mantida em 15% ao ano, sinalizando a interrupção do ciclo de alta para observar os efeitos dos ajustes já realizados. O documento mencionou quatro vezes a necessidade de cautela, motivada principalmente pelo ambiente internacional instável e incertezas no comércio global e geopolítica. Destacou-se ainda que o mercado de trabalho segue dinâmico, sendo apontado como um elemento-chave para monitoramento das próximas decisões. A expectativa, conforme indicado na ata, é de manutenção da Selic em patamar elevado até o final deste e do próximo ano, corroborando o cenário de estabilidade monetária diante dos desafios inflacionários.