Resumo semanal: 30/03/2026 a 02/04/2026
Por Matheus Gomes de Souza, CEA
1. Cenário global e geopolítica
Ao longo dos dias, o conflito alternou sinais de possível desescalada com retórica agressiva, especialmente por parte de Donald Trump. Declarações sobre encerramento da ofensiva em “duas a três semanas” sustentaram breves episódios de alívio nos mercados, mas foram rapidamente revertidas por discursos prometendo ataques “com extrema força” e expansão das ações militares. O fechamento quase total do Estreito de Ormuz permaneceu como principal risco estrutural, mantendo o choque de oferta de petróleo como vetor central da semana.
Apesar dos esforços diplomáticos envolvendo China, Paquistão, Turquia e países do Golfo, não houve avanço concreto para cessar-fogo. A ausência de consenso entre aliados ocidentais, somada à ambiguidade estratégica de Washington, consolidou a percepção de que o conflito tende a se prolongar. Ao final da semana, o mercado precificou um cenário de guerra mais longa do que o inicialmente prometido, com elevado custo econômico global.
2. Política monetária e inflação
O petróleo acumulou altas expressivas no mês, mantendo-se acima de US$ 100 por barril mesmo nos momentos de alívio geopolítico. Estimativas passaram a indicar impacto inflacionário global entre 0,8 p.p. no cenário-base e até 2 p.p. em cenários adversos, reacendendo temores de estagflação. Nos EUA, dirigentes do Fed adotaram discurso mais cauteloso, reforçando a estratégia de “wait and see” diante da incerteza sobre a persistência do choque energético.
Os mercados passaram a descartar completamente a hipótese de alta de juros nos EUA em 2026, mas também empurraram para mais longe qualquer início de ciclo de cortes. Os Treasuries oscilaram conforme a narrativa da guerra, enquanto o dólar se fortaleceu em momentos de maior aversão ao risco. A leitura predominante ao final da semana foi de política monetária global mais restritiva por mais tempo, não por excesso de crescimento, mas por choques de custo e risco geopolítico.
3. Brasil: Macro, fiscal e política
O governo avançou com a proposta de subvenção ao diesel importado, de R$ 1,20 por litro, com adesão da maioria dos Estados, buscando evitar desabastecimento e suavizar o repasse do petróleo à inflação. Medidas adicionais foram discutidas para conter tarifas de energia e mitigar impactos sobre famílias e empresas, em um contexto de endividamento recorde das famílias e juros ainda elevados. No campo fiscal, o bloqueio de R$ 1,6 bilhão no Orçamento foi detalhado, enquanto se manteve oficialmente a meta fiscal de médio prazo.
Na política monetária, falas de Galípolo e Picchetti reforçaram a leitura de cautela e gradualismo. O Caged mostrou mercado de trabalho ainda robusto, porém em acomodação, e a inflação corrente acelerou com combustíveis. O consenso ao final da semana apontava para um corte de 0,25 p.p. da Selic como cenário-base, com redução significativa da probabilidade de movimentos mais agressivos. No plano político, pesquisas eleitorais mostraram deterioração da popularidade de Lula e maior incerteza para 2026, adicionando ruído ao ambiente macro.
4. Mercados financeiros
Globalmente, bolsas alternaram entre correção e forte recuperação intraday conforme surgiam rumores de cessar-fogo ou novas ameaças militares. Em Nova York, índices chegaram a entrar em território de correção, mas reagiram nos momentos de maior otimismo, ainda encerrando o mês com perdas relevantes. O dólar global (DXY) oscilou, refletindo tanto aversão ao risco quanto ajustes na curva de juros americana.
No Brasil, o Ibovespa mostrou resiliência relativa, beneficiado pelo fluxo estrangeiro e pelo peso de Petrobras, que capturou diretamente a alta do petróleo. O real se manteve apreciado frente ao dólar, apoiado pelo status do Brasil como exportador líquido de petróleo e pela entrada consistente de capital externo. A curva de juros doméstica queimou prêmio nos vencimentos longos nos momentos de alívio geopolítico, mas permaneceu elevada nos curtos, refletindo a leitura de Selic mais alta por mais tempo.
Síntese da Semana
▪️ A guerra no Oriente Médio consolidou-se como choque sistêmico, com fechamento do Estreito de Ormuz sustentando petróleo estruturalmente mais caro.
▪️ O risco de estagflação global ganhou tração, reduzindo o espaço para cortes de juros nos principais bancos centrais.
▪️ No Brasil, o petróleo alto protegeu câmbio e bolsa, mas pressionou inflação e limitou o ritmo de flexibilização da Selic.
▪️ A narrativa errática de Trump manteve os mercados em estado de alerta, elevando volatilidade e encurtando horizontes de risco.