Juros futuros avançam após IBC-Br acima do esperado colocar em dúvida corte da Selic em março
Os juros futuros acumularam prêmios nesta sexta-feira, após o IBC-Br de novembro acima do esperado, e um dia depois das vendas fortes no varejo do mesmo mês já terem surpreendido o mercado.
Os dados aumentaram a percepção dos investidores de que o Copom poderá se manter conservador por mais tempo, não iniciando o ciclo de cortes em março, como o mercado cogitava até agora.
Lá fora, o avanço dos Treasuries, após Trump sinalizar que Kevin Hassett não assumirá o comando do Fed no lugar de Jerome Powell, também impulsionou as taxas por aqui.
No fechamento, o DI para janeiro de 2027 marcava 13,805% (de 13,748% no ajuste anterior); Jan/29 a 13,195% (13,076%); Jan/31 a 13,495% (13,371%); e Jan/33 a 13,660% (13,546%).
Resumo semanal: 12/01 a 16/01
Por Matheus Gomes de Souza, CEA
Estados Unidos
A economia dos EUA encerrou 2025 com inflação ao consumidor de 2,68% (CPI), acima da meta de 2,0% do Fed, impulsionada principalmente pela alta persistente de serviços e shelter, apesar da desaceleração nos preços de bens. O núcleo do CPI avançou 0,24% em dezembro, abaixo das expectativas, refletindo pressão concentrada nos segmentos de maior peso. O mercado de trabalho manteve baixa contratação e demissão, com taxa de desemprego em 4,4%, enquanto pedidos de auxílio-desemprego caíram para 198 mil na primeira semana de janeiro. Paralelamente, os Estados Unidos enfrentaram instabilidade política interna, com o presidente Donald Trump ameaçando acionar a Lei da Insurreição para conter protestos em Minnesota contra ações do ICE, além de novas sanções contra o Irã e intensificação das tensões diplomáticas com a Dinamarca e Groenlândia. O setor bancário vem registrando bons resultados, sustentados pelo aumento robusto no volume de empréstimos no quarto trimestre, reforçando a leitura de resiliência econômica, em meio a debates sobre limite de juros de cartões de crédito e defesa da independência do Fed.
A persistência da inflação de serviços mantém o desafio para o Fed atingir sua meta, adiando expectativas de cortes de juros antes da posse do novo presidente da instituição, prevista para junho de 2026. As tensões migratórias e uso potencial da Lei da Insurreição ampliam incertezas políticas, enquanto a tentativa de anexação da Groenlândia tem gerado resistência internacional e impacto na percepção de estabilidade externa. No campo financeiro, o crescimento do crédito sinaliza confiança corporativa e suporte ao PIB, mas propostas como limitar juros de cartões podem restringir a oferta de crédito e afetar consumo. O varejo apresentou expansão de 0,6% em novembro, impulsionado por segmentos específicos, porém com padrão de gastos desigual e pressão sobre famílias de baixa renda. A investigação criminal contra Jerome Powell intensifica questionamentos sobre a independência do banco central, podendo influenciar expectativas inflacionárias e decisão de política monetária. Em meio a este cenário, projeções apontam para manutenção de juros no curto prazo e potencial ajuste a partir de junho, caso haja sinais de enfraquecimento mais acentuado no mercado de trabalho.
Brasil
O governo federal sancionou a Lei Orçamentária Anual de 2026, fixando despesa total de R$ 6,54 trilhões e vetando R$ 393,8 milhões destinados ao aumento das emendas parlamentares. Entre as principais destinações, destacam-se R$ 1,6 trilhão para a Seguridade Social e R$ 2,93 trilhões para o orçamento fiscal, além de R$ 197,9 bilhões em investimentos das estatais. No campo macroeconômico, o IBC-Br cresceu 0,70% em novembro, acima das expectativas, com altas em serviços, indústria e arrecadação de impostos, enquanto o varejo avançou 1,0% no mês, beneficiado pela Black Friday e aumento amplo nas atividades comerciais. O Banco Central determinou liquidação extrajudicial da CBSF Distribuidora (ex-Reag), por graves violações no SFN e vínculos com investigações sobre lavagem de dinheiro.
A blindagem de emendas prevista na LOA reforça o poder do Congresso sobre a alocação orçamentária, mas mantém possibilidade de cortes para despesas obrigatórias no final do exercício. A expansão no varejo e no IBC-Br sinaliza recuperação na atividade, mesmo com desempenho setorial heterogêneo, fortalecendo as projeções positivas para o PIB. O episódio da liquidação da CBSF evidencia maior atuação regulatória no combate a ilícitos financeiros. No cenário político, a primeira pesquisa presidencial de 2026 revela liderança de Lula na maioria dos cenários de primeiro e segundo turno, com empate técnico apenas contra Tarcísio de Freitas, acompanhada de elevada rejeição ao presidente (40,8%), acima dos opositores. A combinação de estabilidade econômica recente com disputas políticas acirradas projeta um ambiente interno de crescimento moderado, mas sujeito a volatilidade conforme o ciclo eleitoral avance.
Europa
O cenário europeu em janeiro de 2026 é marcado por forte instabilidade política e diplomática. A França enfrenta um impasse sobre o orçamento de 2026, com risco de moção de desconfiança caso o governo recorra a dispositivos constitucionais para aprová-lo sem votação. Na Bulgária, a renúncia do governo provocou a oitava eleição antecipada em quatro anos, enquanto Portugal deve realizar segundo turno presidencial pela primeira vez em quatro décadas devido à fragmentação eleitoral. A Hungria caminha para uma disputa inédita em anos, com Viktor Orbán enfrentando Peter Magyar em abril. No campo geopolítico, tensões crescem com a intenção declarada de Donald Trump de adquirir a Groenlândia, levando países da OTAN (como Alemanha, França, Suécia e Noruega) a enviarem tropas para reforçar a presença na região. Em paralelo, líderes da Itália, França e Alemanha sinalizam abertura para retomar o diálogo com Moscou sobre a Ucrânia, contrastando com a postura mais rígida do Reino Unido.
A conjuntura econômica apresenta sinais mistos. A Alemanha encerrou 2025 com inflação de 2,0% e crescimento de 0,2% após dois anos de recessão, sustentada por consumo interno e gastos fiscais, mas com queda contínua nas exportações e no investimento. O índice Sentix aponta melhora da confiança dos investidores na zona do euro, embora ainda em território negativo. No Reino Unido, o PIB subiu 0,3% em novembro graças à retomada da produção automotiva, mantendo expectativa de cortes de juros pelo Banco da Inglaterra. A França cresceu cerca de 0,2% no quarto trimestre, impulsionada por setores aeroespacial e de defesa, mas enfrenta elevada incerteza devido à crise orçamentária. Na Ucrânia, o estado de emergência no setor energético busca mitigar danos de ataques russos à infraestrutura, agravados por temperaturas extremas, enquanto o Kremlin aguarda resposta dos EUA sobre a extensão do tratado nuclear Novo START. A combinação de instabilidade política interna, tensões diplomáticas e recuperação econômica desigual mantém a Europa vulnerável, porém com perspectivas de retomada moderada ao longo de 2026.
Ásia
O panorama asiático em janeiro de 2026 é marcado por intensa atividade política, diplomática e econômica. No Vietnã, o líder do Partido Comunista, To Lam, busca concentrar os principais cargos de poder, aproximando o modelo político ao chinês, enquanto negociações internas tentam equilibrar seu avanço com as prerrogativas das forças armadas. A Malásia registrou crescimento econômico robusto no quarto trimestre de 2025 (+5,7% ano a ano), acima das previsões, sustentado por serviços, manufatura e exportações, apesar de tarifas americanas de 19% sobre seus produtos. Taiwan fechou acordo com os EUA para reduzir tarifas e ampliar investimentos bilaterais em semicondutores e IA, envolvendo US$ 250 bilhões de empresas taiwanesas, com potencial de irritar Pequim. O Japão e as Filipinas assinaram novos pactos de defesa como parte de uma cooperação trilateral com os EUA diante da crescente tensão regional, enquanto Tóquio encara eleições antecipadas convocadas pela primeira-ministra Sanae Takaichi para 8 de fevereiro, visando consolidar apoio à sua política fiscal e estratégica de segurança.
Na península coreana, o Banco Central sul-coreano interrompeu o ciclo de cortes de juros, priorizando a estabilidade frente à desvalorização do won, enquanto o país enfrenta o julgamento histórico do ex-presidente Yoon Suk Yeol por insurreição. A Coreia do Norte reforçou a retórica contra Seul, rejeitando a retomada das negociações bilaterais. A Indonésia reafirmou o compromisso com o projeto de US$ 32 bilhões de sua nova capital, Nusantara, apesar de limitações fiscais e ajustes no cronograma até 2029. Tailândia e Mianmar vivem conjunturas eleitorais complexas, com o Partido Popular liderando intenções de voto na Tailândia e eleições graduais em Mianmar sob forte controle militar. A China reportou superávit comercial recorde de quase US$ 1,2 trilhão em 2025, ampliando exportações para mercados alternativos e reduzindo a dependência dos EUA, mas elevando tensões comerciais globais e a pressão internacional sobre suas práticas. O quadro na Ásia combina crescimento significativo em áreas estratégicas e tecnológicas com elevada instabilidade política e disputas geopolíticas, projetando um ambiente de oportunidades e riscos para 2026.
Oriente Médio
O início de 2026 no Oriente Médio é marcado por forte instabilidade política, pressões internacionais e tensões regionais. No Líbano, o ex-governador do Banco Central, Riad Salameh, foi indiciado por crimes de peculato e enriquecimento ilícito, em mais um capítulo do amplo escrutínio jurídico que se estende a investigações na Europa. No Irã, a repressão às manifestações (as mais intensas desde 1979) mobilizou ações coordenadas dos EUA, incluindo sanções contra autoridades iranianas e discursos de Donald Trump, que alterna ameaças de intervenção militar com declarações cautelosas após sinais de redução nas mortes; ao mesmo tempo, impôs tarifa de 25% a países que mantêm comércio com Teerã, afetando parceiros estratégicos como China e Turquia. Internamente, a oposição iraniana exilada segue fragmentada entre monarquistas ligados a Reza Pahlavi e o grupo Mujahedin-e Khalq, dificultando a formação de frente única. A Turquia manifesta posição contrária a qualquer intervenção militar americana no Irã, reforçando o apelo a soluções negociadas.
No cenário sírio, intensos combates em Aleppo entre forças governamentais e militantes curdos levaram à fuga de mais de 150 mil pessoas, com o exército declarando zonas militares e ampliando deslocamentos, enquanto a Turquia pressiona pela integração das Forças Democráticas Sírias ao governo central. No Chifre da África, a decisão do governo central da Somália de romper relações com os Emirados Árabes Unidos foi rejeitada por governos regionais autônomos, evidenciando a influência persistente de Abu Dhabi por meio de investimentos portuários e cooperação militar. No Mar Negro, ataques coordenados com drones contra petroleiros operados por gregos acenderam alerta máximo para embarcações da frota mercante da Grécia, aumentando custos de seguro e risco operacional. A conjuntura combina crises econômicas internas, como no Líbano e Irã, pressões militares na Síria e disputas por influência geopolítica, enquanto sanções e tarifas impostas por Washington têm potencial para reconfigurar fluxos comerciais e acentuar o isolamento de Teerã, mantendo elevada a tensão no eixo Oriente Médio–Eurásia.
Petróleo sobe e fecha semana em alta com tensão no Irã prevalecendo sobre excesso de oferta
Após desabarem mais de 4% ontem, os contratos futuros de petróleo subiram nesta sexta-feira, em que pese as sucessivas análises apontando um horizonte de excesso de oferta.
Em relatório hoje, a Fitch estima que serão adicionados ao mercado neste ano, globalmente, mais 2,5 milhões de bpd, ao passo que a demanda aumentará em apenas 800 mil bpd. Tal conjuntura seria suficiente para compensar incertezas de produção no Irã e na Venezuela, por exemplo.
Apesar disso, e dos sinais de arrefecimento das tensões entre EUA e Irã com a diminuição dos protestos e cancelamento de execuções de manifestantes, o Pentágono mobilizou dois grupos de porta-aviões rumo ao Oriente Médio, mantendo os investidores em alerta quanto a um possível conflito e eventual interrupção do fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz, o que pressiona as cotações.
O contrato do Brent para março fechou em alta de 0,58%, a US$ 64,13 por barril na ICE, enquanto o WTI para fevereiro subiu 0,42%, a US$ 59,44 por barril na Nymex. Na semana, os desempenhos acumulados são positivos em 1,25% e 0,54%, respectivamente.