Impasse em Ormuz e vacilo das techs desafiam rali
… O mercado começa a quinta-feira dividido entre duas forças que caminham em direções opostas. De um lado, Israel e o Líbano se reúnem, e o impasse entre Estados Unidos e o Irã mantém o petróleo acima de US$ 100, com o Estreito de Ormuz praticamente travado e risco crescente de pressão inflacionária global. De outro, Nova York renova recordes, sustentada pela sinalização de que Trump não deixará o conflito sair do controle. O início da temporada de balanços das big techs deu suporte ao rali, mas o after hours não confirmou o entusiasmo. Tesla superou expectativas, mas virou para queda após falas de Elon Musk, enquanto a IBM, que também bateu projeções, caiu após manter o guidance. Hoje tem Intel.
QUEDA DE BRAÇO – Enquanto Nova York renova recordes apostando na capacidade dos Estados Unidos de conter o conflito, o noticiário vindo do Oriente Médio aponta para um impasse cada vez mais explícito entre Washington e Teerã.
… Na prática, o que se vê é uma guerra de posições.
… O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, decidiu estender o cessar-fogo por tempo indeterminado, mas retirou qualquer senso de urgência das negociações ao afirmar que não há prazo para que o Irã apresente uma proposta de acordo.
… Washington quer negociar, mas no seu tempo e sob seus termos. O Irã responde na mesma moeda — e com instrumentos reais de pressão.
… Teerã mantém o Estreito de Ormuz praticamente fechado, condiciona qualquer avanço diplomático ao fim do bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos e, na prática, transformou a principal rota energética do mundo em uma alavanca de negociação.
… O resultado é um impasse clássico: nenhum dos lados quer ser o primeiro a ceder.
… Esse jogo de força ganhou contornos mais agudos nas últimas horas, com disparos contra navios comerciais, apreensão de embarcações e relatos de tráfego praticamente zerado na região, por onde passa cerca de 20% do petróleo global.
… Apesar do tom mais agressivo, não há escalada militar direta — o que reforça a leitura de uma disputa controlada, mas longe de resolvida.
… O ponto central é que, embora Trump sinalize disposição para negociar — e até flerte com a possibilidade de novas conversas nos próximos dias —, suas próprias ações ajudam a travar o processo. Ele precisa encerrar a guerra, mas não pode sair derrotado.
… O bloqueio naval segue em vigor, as exigências americanas continuam elevadas (incluindo o programa nuclear iraniano) e há ruído constante entre discurso público e negociações de bastidores, o que alimenta a desconfiança de Teerã.
… Nesse contexto, o Irã parece confortável em sustentar a tensão.
… Há divisões internas entre os aiatolás, mas também uma linha dura ganhando força, defendendo uma postura mais firme nas negociações. E, diferente dos Estados Unidos, o país não enfrenta a mesma pressão imediata do ciclo político ou da inflação doméstica.
… É exatamente aí que entra o descolamento com os mercados.
… Enquanto Wall Street opera na expectativa de que Trump, mais cedo ou mais tarde, será forçado a desescalar, diante do impacto do petróleo sobre a inflação americana, o fluxo de notícias indica que esse caminho pode ser mais longo e errático do que o mercado gostaria.
… O Brent voltou a operar acima de US$ 100, sustentado pelo risco de escassez de oferta e pelo bloqueio em Ormuz, com sinais de aperto também no mercado físico. A leitura dominante é que, enquanto o impasse persistir, o petróleo segue em alta.
… A implicação é direta: mais energia cara, mais pressão inflacionária e menos espaço para cortes de juros.
… No fim, o que se desenha é um cenário em que o mercado aposta no desfecho, mas negocia a incerteza do caminho. E, por ora, esse caminho segue travado em uma queda de braço entre Estados Unidos e Irã, com o petróleo funcionando como o termômetro mais sensível da disputa.
ISRAEL E LÍBANO – Embaixadores dos dois países têm nova reunião marcada para hoje, em Washington. Beirute buscará uma extensão do cessar-fogo de dez dias mediado pelos Estados Unidos, que deve expirar no domingo.
… Na véspera das negociações, ataques israelenses mataram pelo menos quatro pessoas.
BIG TECHS – A temporada de balanços passa a dividir espaço com a geopolítica como principal driver de curto prazo em Wall Street, e pode ser decisiva para sustentar (ou interromper) o rali, em meio ao aumento das incertezas globais.
… A Tesla abriu a rodada após o fechamento com resultados acima do esperado, com crescimento de receita e lucro no primeiro trimestre, impulsionados pelo negócio automotivo e pela estratégia de avanço em veículos autônomos.
… A reação inicial foi positiva, mas perdeu força ao longo do after hours, com as ações virando para queda (-0,29% no fechamento) após o CEO Elon Musk alertar para aumento de investimentos e reconhecer limitações do hardware atual para direção autônoma.
… Ainda após o fechamento, a IBM também superou as projeções, com números fortes apoiados pela demanda por inteligência artificial e nuvem híbrida, mas viu suas ações afundarem 7,08% no pós-mercado após manter o guidance.
… Para um mercado que opera em níveis elevados e com alta exigência, isso se mostrou insuficiente. A leitura que começa a se desenhar é de uma temporada positiva, mas seletiva: não basta bater estimativas, é preciso sinalizar aceleração.
… No mesmo ambiente, a ServiceNow desabou 12,5% no after hours após indicar impacto negativo em receitas por atrasos de contratos no Oriente Médio, evidenciando que a geopolítica começa a contaminar os balanços.
… O calendário desta quinta-feira traz novos testes importantes, com resultados de Intel, após o fechamento, além de nomes ligados ao ciclo doméstico americano, como American Airlines e First Citizens BancShares, antes da abertura.
B3 – Aqui, a Usiminas abre a temporada de balanços amanhã, sexta-feira (24), com resultado antes da abertura e teleconferência às 11h.
MAIS AGENDA – A quinta-feira combina agenda doméstica enxuta, com indicadores de atividade no exterior, que ajudam a calibrar o pulso da economia global. No Brasil, o destaque fica para os dados do fluxo cambial semanal, que o Banco Central divulga às 14h30.
… Os números são importantes, em meio ao bom desempenho recente do real, sustentado pelo diferencial de juros e pela melhora dos termos de troca com o petróleo. Às 15h, tem reunião do CMN, com a participação do presidente do BC, Gabriel Galípolo.
… O mercado também acompanhará o leilão de títulos prefixados do Tesouro, após o movimento recente de inclinação da curva.
… No exterior, os índices preliminares de atividade (PMIs) concentram as atenções ao longo da manhã, com divulgações na Alemanha, Zona do Euro e Reino Unido no final da madrugada no Brasil, antes do PMI composto dos Estados Unidos, às 10h45.
… Entre os dados americanos, também saem o índice de atividade do Fed de Chicago e os pedidos semanais de auxílio-desemprego, às 9h30, em um momento em que o mercado monitora sinais de resiliência da economia, diante do cenário mais incerto.
CURTAS DA POLÍTICA – A CCJ da Câmara aprovou por unanimidade nesta quarta-feira a admissibilidade da PEC que prevê o fim da escala 6×1, em meio à pressão do governo para avançar com a proposta. O texto segue agora para uma comissão especial, onde o mérito será discutido.
… A expectativa é de debate intenso, diante da resistência de setores produtivos.
… O presidente da Câmara, Hugo Motta, afirmou que a comissão especial será instalada em breve e que a PEC deve chegar ao plenário ainda em maio. A sinalização reforça o esforço para acelerar a tramitação, apesar do potencial impacto econômico e fiscal da medida.
… O tema também ganha tração no campo político: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai defender o fim da escala 6×1 na propaganda partidária do PT, que começa a ser veiculada nesta quinta-feira, reforçando o engajamento do governo na pauta.
… Estimativas do setor privado indicam custo elevado da mudança, com impacto relevante sobre indústria e serviços, enquanto estudos apontam que os efeitos podem ser comparáveis a reajustes históricos do salário mínimo, o que amplia a disputa em torno do tema.
… Já o relator do marco regulatório dos minerais críticos, deputado Arnaldo Jardim, adiou a apresentação do seu parecer para o dia 4 de maio, após pedido do governo por mais tempo para consolidar sugestões e alinhar a proposta.
… No campo econômico, o governo alterou o decreto da subvenção ao diesel e ao GLP, com efeitos retroativos a 1º de abril, antecipando o início do período de apuração e ajustando prazos de envio de informações à ANP para atender demandas das distribuidoras.
JAPÃO HOJE – A leitura preliminar do PMI composto, medida pela S&P Global, piorou de 53 pontos em março para 52,4 pontos em abril, mas permaneceu acima do patamar neutro de 50, apontando expansão da atividade.
… Já o PMI industrial avançou de 51,6 para 54,9 pontos no mesmo período, também em território de alta, em seu ritmo mais forte desde fevereiro de 2014. O resultado contrariou a previsão dos analistas, de queda a 49,5 pontos.
… O PMI de serviços caiu de 53,4 para 51,2 pontos, abaixo da aposta de 53 pontos, mas em território expansionista.
PRESO AO PASSADO – Apesar de as bolsas americanas terem renovado os recordes históricos ontem, o Ibovespa caiu firme, porque estava devendo o ajuste ao pregão negativo em Nova York durante o feriado de Tiradentes.
… Sem queimar etapas, o índice à vista cumpriu a realização de lucros atrasada, perdeu 1,65% e entregou os 193 mil pontos (192.888,96), com giro de R$ 26,4 bilhões, apesar do alívio frágil da trégua estendida por Trump.
… Participantes do mercado ouvidos pelo Valor disseram que a queda forte dos papéis dos bancos brasileiros no pregão desta quarta-feira pode ter indicado que o fluxo estrangeiro não foi favorável ontem para a bolsa local.
… Segundo eles, a melhora das expectativas de lucro para as empresas de tecnologia americanas atraiu recursos para as ações das big techs em Wall Street, o que pode ter atrapalhado a vinda de capital externo aos papéis brasileiros.
… Houve uma onda de vendas em BB ON (-3,62%, que fechou a R$ 23,40), Santander unit (-3,37%, a R$ 30,11), BTG Pactual (-3,27%, a R$ 62,03), Bradesco PN (-2,95%, cotado a R$ 20,41) e Itaú PN (-2,89%, negociado a R$ 45,03).
… No clima de incertezas sobre a guerra no Irã, as ações da Vale também exibiram recuo expressivo, de 1,70%, e fecharam na mínima do dia, de R$ 87,22, ignorando a alta modesta de 0,32% do minério de ferro.
…O desempenho negativo da bolsa só foi atenuado pelo avanço dos papéis da Petrobras (ON +1,86%, a R$ 52,70; e PN +1,38%, a R$ 47,67), na esteira da valorização do petróleo. O barril voltou a ultrapassar a marca de US$ 100.
… Embora o Ibovespa ainda não tenha conseguido bater a marca inédita dos 200 mil pontos, o BofA continua confiante e alterou ontem a sua projeção para o índice no fim do ano de 180 mil pontos para 210 mil pontos.
… Segundo o banco, uma possível desescalada da guerra levaria à queda dos preços do petróleo e aliviaria a pressão sobre os custos, permitindo que o BC encerre o ano com a Selic em 13,25%; para 2027, juros podem ficar em 12,50%.
… Persistem, porém, as dúvidas sobre a extensão do choque energético com o conflito no Irã. Ontem, como se viu, pela primeira vez em duas semanas, os contratos do Brent voltaram a ultrapassar a barreira simbólica dos US$ 100.
… O barril para junho emplacou a terceira alta seguida e saltou 3,5%, a US$ 101,91, diante da continuidade do bloqueio ao trânsito de navios no Estreito de Ormuz, que Teerã considera como uma violação do cessar-fogo.
… A pressão do petróleo, que significa inflação, puxou os juros futuros, de ponta a ponta. Faltando menos de uma semana para o Copom, é improvável que a guerra caminhe para um desfecho que justifique corte de 0,50pp da Selic.
… No Broadcast, a curva futura precifica quase 100% de chance de queda de 25 pontos do juro na próxima reunião.
… No fechamento, o DI para Janeiro de 2027 marcava 14,010% (de 13,933% no ajuste anterior); Jan/28 subia a 13,465% (contra 13,312%); Jan/29, 13,305% (de 13,166%); Jan/31, 13,405% (13,260%); e Jan/33, 13,510% (13,366%).
VIVENDO O PRESENTE – Têm circulado avaliações de que o fôlego da rotação de ativos para os mercados emergentes está se esgotando e que o real tem espaço cada vez mais limitado para cair muito abaixo dos R$ 5.
… Mas o fato de o Brasil ser produtor de petróleo tem atuado como um diferencial importante para o câmbio.
… O Bradesco informou em relatório que o País apareceu em destaque como alternativa de investimento tanto em juros quanto em moeda nos encontros de primavera do FMI, realizados semana passada em Washington.
… Descolado da alta no exterior, o dólar à vista fechou estável ontem por aqui, a R$ 4,9740, blindado pelo avanço do petróleo e pela Selic muito elevada, que mantém o carry trade atrativo, apesar do ciclo de calibração do Copom.
… O real se mantém nos melhores níveis em mais de dois anos e acumula ganho de quase 4% no mês e 10% no ano.
… Lá fora, pouco convencido de que Trump e o Irã vão se entender logo, o DXY exibiu uma dose de cautela: +0,2%, a 98,590 pontos. O euro caiu 0,30%, a US$ 1,1708, a libra ficou estável (US$ 1,3501) e o iene subiu a 159,52 por dólar.
… Os relatos de que Teerã só vai sentar novamente à mesa de negociação quando for encerrado o bloqueio aos seus portos levou a alguma procura pelos Treasuries, derrubando os juro da Note de dois anos a 3,799%, contra 3,801%.
… Só mesmo as bolsas americanas ignoraram a dificuldade para um acordo de paz, preferindo antecipar balanços positivos das gigantes de tecnologia. Após três recordes semana passada, S&P 500 e Nasdaq partiram para mais um.
… O S&P500 avançou 1,05% e estabeleceu a mais nova máxima de fechamento aos 7.137,89 pontos, enquanto o Nasdaq subiu 1,64%, para o pico histórico de 24.657,57 pontos. O Dow Jones ganhou 0,69%, aos 49.490,03 pontos.
CIAS ABERTAS NO AFTER – PETROBRAS divulgará relatório de produção e vendas do 1TRI26 no dia 30/4, após o fechamento. O balanço sai no dia 11/5, após o fechamento; teleconferência será no dia 12/5.
REFINARIA DE MATARIPE reduzirá, pela quarta vez este mês, os preços do diesel S-10 (em 1,05%) e da gasolina (em 1,36%) a partir de hoje; diesel acumula queda de 4% e gasolina de 5,7% no mês.
RAÍZEN disse que não há decisão definitiva sobre reestruturação, mas mantém tratativas com credores.
KLABIN informou que a BlackRock passou a deter 10,003% das ações preferenciais.
USIMINAS realiza hoje AGO e AGE para eleger o conselho de administração por voto múltiplo; Latache Capital pretende emplacar os nomes de Marco Aurelio Gonçalves e Stefan Lourenço de Lima (O Globo).
NEOENERGIA elegeu Carlos Henrique Quadros Choqueta como diretor de Finanças e RI…
… A empresa informou ainda que o reajuste tarifário da Coelba (+5,85%) e Cosern (+5,40%) foram aprovados.
LIGHT ENERGIA elegeu Stefano Miranda como diretor-presidente e Leonardo Gadelha como diretor de RI.
ISA ENERGIA. Axia passou a deter 20,68% do capital total da companhia.
AEGEA disse que mantém fundamentos operacionais sólidos, com crescimento consistente.
LOCALIZA. Norges Bank elevou participação para 5,02% das ações preferenciais.
REDE D’OR aprovou emissão de notas de até US$ 750 milhões, com prazo de até 10 anos e juros de até 7% ao ano.
CARREFOUR teve queda de 0,8% nas vendas no Brasil no 1TRI26.
ALLOS ajustou dividendo intermediário para R$ 0,29193 por ação, de R$ 0,29247; pagamento em 5/5.
GRUPO SBF aprovou emissão de debêntures de R$ 600 milhões.
GOL teve alta de 10% na oferta (ASK) em março na comparação anual.
OI. Após vender as principais linhas de negócios para pagar dívidas no processo de recuperação judicial, a companhia se prepara para a alienação do próximo ativo da fila, a Oi Soluções, que fornece tecnologia da informação…
… O processo deve atrair as grandes operadoras de telecomunicações que também têm braços de TI, como Vivo, Claro e TIM, além de provedores regionais com atuação no setor.
BRISANET pagará R$ 18 milhões em JCP (R$ 0,0410 por ação) em 12/5.
FERBASA. O CEO, Silvano de Souza Andrade, assumiu diretoria de RI, acumulando funções.
EUROFARMA pagará R$ 87,6 milhões em JCP em 27/4.
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