Morning Call

Após CMN, curva DI já projeta 9% de Selic

Atualizado 30/06/2023 às 16:11:46

Por Rosa Riscala e Mariana Ciscato*

[30/6/2023]

… Inflação na zona do euro (6h) e nos EUA (9h30) está na agenda dos mercados globais; os dados podem ser importantes para reforçar as expectativas de um aperto mais prolongado dos juros. Em NY, a probabilidade de mais 25pb em julho elevou-se a 90% na CME, após o PIB/1Tri crescer acima do consenso, assim como cresceu a probabilidade de um ajuste adicional. Ainda hoje, o sentimento do consumidor americano (11h), com as expectativas inflacionárias, pode influenciar. Já aqui, a política monetária vai na direção oposta. A decisão do CMN de manter a meta de inflação em 3% e o intervalo de oscilação de 1,50pp em 2024, 2025 e 2026 deu o start para apostas mais agressivas de queda da Selic, com a curva do DI projetando taxa de 11,75% para o final do ano e de 9% no final de 2024.

… O mercado de juros futuros ainda estava aberto quando Haddad e Tebet começaram a entrevista para anunciar as medidas do CMN, que confirmou a adoção da meta contínua a partir de 2025, quando Campos Neto já terá encerrado o seu mandato no BC.

… As taxas acentuaram as quedas, enquanto o ministro manifestava “grande expectativa de cortes consistentes” da Selic já a partir de agosto. No fechamento, a aposta em uma redução inicial de 50pb (40%) caminhava para empatar com 25pb (60%).

… A percepção é de que o CMN terá impacto sobre as expectativas de inflação, abrindo espaço para um Copom mais generoso.

… Até o ex-diretor do BC Alexandre Schwartsman, reconhecido crítico do governo Lula, admitiu que o CMN “deverá ajudar no processo de ancoragem das expectativas de inflação”, afirmando no Broadcast que “o corte da Selic em agosto está dado”.

… Para Marco Caruso (PicPay): “Foi golaço do governo; podemos ter melhora de até 0,5 pp nas projeções de IPCA.”

… Carlos Kawall (Oriz): “Desfecho muito bom; mostra amadurecimento institucional após tensão entre governo e BC.”

… Fábio Kanczuk (ASA): “Decisão do CMN foi ótima, a melhor possível.”

… Rodolfo Margato (XP): “Mudança para meta contínua é um aperfeiçoamento do sistema.”

… Alberto Ramos (Goldman Sachs): “CMN remove elemento de incerteza e melhora sistema de metas.”

… Maurício Oreng (Santander): “Se houver queda maior das expectativas, pode corroborar para corte em agosto.”

… O resultado representou um grande alívio para quem ainda guardava algum receio de que o intervalo de oscilação da meta pudesse ser expandido. Não foi e nem precisava ser, com a inflação convergindo para a meta.

… Pela manhã, o RTI/1Tri divulgado pelo Banco Central trouxe revisão da estimativa para o IPCA de 2025, de 3,2% para 3,1%.

… Na entrevista para comentar o Relatório, Campos Neto antecipou a defesa da meta contínua, considerando um “aperfeiçoamento”. Já no final da tarde, foi a vez de Haddad lembrar que o ano-calendário só existe ainda no Brasil e na Turquia.

… O ministro fez um paralelo com os EUA, dizendo que ninguém lá fica cobrando o Fed pelo cumprimento da meta de 2% todo ano, referindo-se à maior flexibilidade para o Banco Central conduzir a política monetária.

… Apesar de a meta contínua ter sido aprovada, deixou no ar muitas dúvidas que ainda terão de ser respondidas.

… Haddad deu informações contraditórias sobre essa questão, uma hora dizendo que a meta contínua será, “na prática, de 24 meses”, outra hora, que “a meta será de 3% nos próximos anos após de 2026”, que “pode ser revista, mas é muito mais raro”.

… O ministro esclareceu que a meta contínua não foi decidida pelo CMN, já que é uma prorrogativa do presidente da República, que será determinada por decreto. “Comunicamos a decisão no CMN por lealdade ao BC, que não poderia ser surpreendido.”

… Não há data prevista para o decreto de Lula, nem detalhes de como funcionará a prestação de contas sobre o cumprimento ou não da meta. Pelo sistema atual, no caso de descumprimento, o presidente do BC explica-se em carta aberta ao ministro da Fazenda.

… O Brasil adota o regime de metas de inflação desde 1999. Não cumpriu em sete anos: 2001, 2002, 2003, 2015, 2017, 2021 e 2022.

COMBUSTÍVEIS – Termina hoje a desoneração de combustíveis e, segundo Haddad, não há qualquer intenção de prorrogar.

… No início do ano, o governo retomou parcialmente a cobrança de impostos federais sobre gasolina e etanol, que havia sido zerada às vésperas da campanha eleitoral de 2022 pelo então presidente Bolsonaro. A partir de julho, os tributos voltam à alíquota cheia.

AGENDA – As contas dos setor público consolidado, que o BC divulga às 8h30, devem registrar déficit primário de R$ 45,60 bilhões em maio, na mediana de pesquisa Broadcast, após o superávit de R$ 20,324 bilhões em abril.

… Às 9h, sai a Pnad. A taxa de desemprego deve recuar de 8,5% (até abril) para 8,2% no trimestre móvel até maio.

… Bolsonaro deve se tornar inelegível hoje. O julgamento do TSE será retomado ao meio-dia. O placar está em 3 a 1 contra o ex-presidente. Ainda faltam votar Cármen Lúcia, Kassio Nunes Marques e Alexandre de Moraes.

LÁ FORA – A inflação do PCE nos EUA deve desacelerar para 3,8% em maio, contra 4,4% em junho. Mas continuará bem acima da meta de 2% e será incorporada pelo Fed no discurso de defesa de até mais duas altas do juro.

… Às 10h45, sai o PMI/ISM de Chicago em junho. Às 14h, a Baker Hughes informa os poços de petróleo e plataformas em operação. Yellen discursa sobre política econômica em conferência (sem horário). A Colômbia decide juro (15h). 

CHINA HOJE – O PMI industrial oficial subiu de 48,8 em maio para 49,0 em junho, mas veio ligeiramente abaixo da previsão dos analistas, de 49,1, e indicou contração econômica (leitura abaixo de 50) pelo terceiro mês consecutivo.

JAPÃO HOJE – O ministro das Finanças, Shunichi Suzuki, disse que o governo tomará as medidas apropriadas caso o iene enfraqueça excessivamente. A resposta vem após a moeda ter caído às mínimas em sete meses contra o dólar.

REPRECIFICAÇÃO NO CÂMBIO – Agora que todos as cartas estão na mesa, com o BC e Fazenda jogando juntos pelo corte da Selic em agosto e o Fed decidido a subir mais o juro nos EUA, fica plantada a dúvida em relação ao fluxo.

… É verdade que, mesmo que o Copom derrube o juro em meio ponto logo de saída, a Selic continuará atraente (13,25%). O carry-trade ainda é bom. Mas já foi melhor e o momento é de redefinição para o mercado de câmbio.

… Precisa esperar o cenário acomodar (e se confirmar) para projetar a tendência para o fluxo. Será que o dólar já voltou a R$ 4,80 por causa do novo diferencial do juro? Ainda não dá para saber. É uma pergunta que vale dinheiro.

… “Se o BC não cortar o juro de forma errada, não vai haver estresse no câmbio. Com acomodação das commodities, o dólar deve ficar entre R$ 4,80 e R$ 4,90 no curto prazo”, disse o economista-chefe da Western Asset, Adauto Lima.

… Ouvido pelo Broadcast, o profissional observou que “a gente precisa fazer muita coisa errada para a taxa [de câmbio] ir para R$ 5,10 ou R$ 5,20. Ou o Fed sinalizar que vai ter que fazer muito mais na política monetária”.

… Ontem, pouco antes do desfecho do CMN, o dólar zerou as altas e fechou de lado (-0,01%, a R$ 4,8471), no movimento que coincidiu com a melhora de clima que projetou a bolsa às máximas e o DI às mínimas.

… A briga da ptax hoje pode confundir as expectativas para o câmbio em termos de tendência. Mas liquidada a disputa especulativa de final de mês e virada de trimestre, o investidor já terá maior visibilidade do futuro.

… Na curva do DI, mesmo antes do CMN, outros quatros fatores já alimentavam a aposta de corte de juro em agosto:

… O RTI; o comentário de RCN de que o juro neutro maior, de 4,5%, não é “impeditivo” para recuo da Selic; a deflação de 1,93% do IGP-M em junho, mais acentuada do que em maio (-1,84%); e a desaceleração do Caged.

… Em maio, o Brasil criou 155.270 vagas de emprego, abaixo da mediana das apostas, de 188.682 postos.

… No fechamento, os juros caíram de ponta a ponta na curva do DI: jan/24, a 12,920% (de 12,957%); jan/25 na mínima de 10,855% (contra 10,970% na véspera); jan/26, a 10,260% (de 10,344%); e jan/27, a 10,310% (de 10,368%).

… O jan/29 recuou para 10,650% (de 10,685% no pregão anterior) e o jan/31 pagou 10,820% (de 10,848%).

O CAMPEÃO VOLTOU – Para onde quer que tenha olhado ontem – da alta das commodities ao corte da Selic mais do que contratado pelo RTI e CMN -, o Ibov viu motivos para interromper o ajuste negativo dos três pregões anteriores.

… Subiu 1,46% e reconquistou a faixa dos 118 mil pontos (118.382,65), com apenas seis ações no campo negativo.

… O índice à vista da bolsa doméstica chega ao último pregão do mês com alta acumulada de 9,27% em junho e, se ampliar o otimismo hoje, vai emplacar sua melhor performance mensal em mais de dois anos e meio (desde nov/20).

… Nas últimas sessões, a bolsa doméstica balançou com o potencial impacto negativo no consumo das commodities da onda de apertos monetários nas grandes economias e da pressão da China, que tem crescido abaixo do desejável.

… Mas deu ontem a volta por cima com a inflação rodando baixa e o juro liberado para cair por aqui.

… O CMN pegou o Ibov nos ajustes finais do pregão e melhorou o que já estava bom. Desde cedo, a deflação do IGP-M e a declaração de Campos Neto, na coletiva do RTI, de que o BC também “quer baixar os juros” pegavam bem.

… Para completar o ambiente favorável, o minério (+0,85%) e petróleo subiram, dando impulso às blue chips das commodities: Vale, +1,22% (R$ 65,51); Gerdau, +1%; Metalúrgica Gerdau, +0,9%; CSN ON, +1,1%; e Usiminas, +1,1%.

… Petrobras (ON, +1,10%, a R$ 34,89; e PN, +0,45%, a R$ 31,03) foi no embalo do petróleo, que pelo segundo dia conseguiu ignorar o dólar forte e fechar em alta, com o PIB/1Tri dos EUA esvaziando os receios de recessão.

… O Brent para setembro avançou 0,36%, a US$ 74,51 por barril, e o WTI para agosto subiu 0,43%, a US$ 69,86.

… Na festa da Selic, os papéis dos principais bancos anteciparam o efeito do início do ciclo de desaperto: Itaú, +1,21%, a R$ 28,49; Bradesco PN, +0,43%, a R$ 16,17; Santander unit, +1,56%, a R$ 30,62; e BB ON, +0,93%.

… A sessão também foi favorável para papéis do setor da educação, influenciados pela expectativa de redução da taxa de juros em agosto. Yduqs ON saltou 10,08% (R$ 19,65) e Cogna ON registrou avanço de 5,18% (R$ 3,25).

… Mas a estrela do dia foi GPA, que disparou 13%, acima de R$ 18 pela primeira em quase cinco meses, a R$ 18,26, diante da oferta do bilionário colombiano Jaime Gilinski pela totalidade da fatia da empresa no Éxito por US$ 836 mi.

… Parte do entusiasmo será devolvida hoje, depois de o Grupo Pão de Açúcar ter informado após o fechamento que resolveu recusar a oferta em dinheiro, não solicitada, por toda a fatia que tem na varejista (leia mais abaixo).

… JBS parou de cair com o embargo do Japão e novo caso de gripe aviária e acionou uma arrancada de 6,67%.

… As únicas seis ações que fecharam no vermelho foram 3R Petroleum (-1,04%), que desperdiçou a alta do petróleo, Klabin unit (-0,64%), Taesa unit (-0,30%), Carrefour (-0,27%), Suzano (-0,27%) e Azul, praticamente estável (-0,05%).

EU TENHO A FORÇA – NY ficou achando que Powell está certo e que não vai ter recessão nos EUA, depois da revisão em alta do PIB/1Tri, de 1,3% para 2,0%. Deu para esquecer por um dia o risco de queda do império americano.

… Mas é certo que o receio de hard landing ainda pode ser resgatado, mesmo porque, tanto mais forte a economia, tanto maior a chance de o ciclo de aperto monetário durar mais. Powell está com até duas altas no juro engatilhadas.

… Durante evento em Madri, ele disse que as decisões do Fed serão tomadas reunião a reunião, que tudo depende da evolução “sempre incerta” da economia. Mas lembrou que a maioria dos dirigentes prevê um ou dois apertos.

… De seu lado, o presidente do Fed de Atlanta, Raphael Bostic, que este ano não vota, persistiu na linha dovish.

… Embora não tenha descartado totalmente novas altas, ele continua não vendo urgência em apertos adicionais, para não causar impacto excessivo na atividade, e disse que prefere esperar os efeitos defasados do ciclo do Fed.

… Na Casa Branca, a diretora do Conselho Econômico Nacional, Lael Brainard (ex-Fed), disse que a inflação deve melhorar no 2º semestre e que há chance razoável de o ritmo cair a quase 2% até as eleições de novembro de 2024.

… As taxas dos Treasuries e o dólar continuaram subindo com o Fed hawkish no radar, mas as bolsas em Wall Street deixaram de lado o temor de que o ciclo estendido do juro provoque recessão e se concentraram no PIB forte. 

… Outro trigger positivo veio do rali dos bancos (Wells Fargo, +4,89%; JPMorgan, +3,62%; Goldman Sachs, +3,16%; e BofA, +2,24%), que passaram no teste de estresse do Fed, indicando capacidade de enfrentar a recessão simulada.

… O Dow Jones subiu 0,80% (34.122,42 pts); e o S&P 500, +0,45% (4.396,44). Só o Nasdaq ficou estável (13.591,33).

… O yield da Note de 2 anos avançou para 4,869% (de 4,707% na véspera) e o de 10 anos, a 3,846%, contra 3,709%. O índice DXY, que mede o fôlego do dólar contra outras moedas fortes, registrou alta de 0,42%, a 103,342 pontos.

… Diante do PIB forte nos EUA, o euro recuou para US$ 1,0871, apesar de o BCE já ter sinalizado que vai subir o juro de novo em julho. Setembro ainda está em aberto. A libra caiu a US$ 1,2611 e o iene recuou para 144,82/US$.

EM TEMPO… GPA informou que rejeitou oferta de banqueiro colombiano por fatia na Éxito, porque preço ofertado (US$ 836 mi) “não atende parâmetros adequados de razoabilidade financeira para transação desta natureza”.

BRASKEM. A proposta de compra da petroquímica pela Unipar vencerá em dez dias e não deve ser refeita, segundo pessoas que participam das negociações. (Folha)

PETROBRAS adquiriu a certificação internacional Renewable Energy Certificate (I-REC), que garante que 100% da energia elétrica utilizada em suas operações industriais e administrativas no Brasil é gerada por fontes renováveis.

RAÍZEN. Baillie Gifford atingiu participação de 10,35% das ações PN da companhia, passando a deter 140.641.200 de papéis do tipo.

VALE confirmou que o primeiro Lead Independent Director (LID) da empresa será Manuel Oliveira.

ELETROBRAS aprovou a prorrogação por até 12 meses do prazo de transição operacional da gestão dos programas governamentais Luz para Todos e Mais Luz para a Amazônia…

… Os programas sociais, que deveriam ser assumidos neste mês pela ENBPar, um ano após a homologação da privatização, continuarão a ser geridos pela companhia até 17 de junho de 2024.

CIELO informou que José Ricardo Fagonde Forni renunciou aos cargos de membro e vice-presidente do Conselho de Administração da companhia…

… Forni será substituído por José Ricardo Sasseron, atual vice-presidente de Governo e Sustentabilidade Empresarial do Banco do Brasil.

NUBANK. S&P elevou rating do banco digital de brAA para brAA+, com perspectiva estável.

MRV concluiu venda do empreendimento Pine Ridge, na Flórida (EUA), pelo valor geral de venda (VGV) de US$ 77 milhões, o equivalente a um lucro bruto de US$ 17,1 milhões, cap rate de 5,6% e yield on cost de 7,1%.

GAFISA. Conselho de Administração homologou novo aumento de capital social da companhia no valor de R$ 19.900.008,18, mediante a emissão de 2.834.759 de ações, pelo preço de R$ 7,02 cada…

… Trata-se de um bônus de subscrição atribuído como vantagem adicional ao aumento de capital privado homologado em 24 de abril…

… Assim, o capital social da Gafisa passará de R$ 1.396.201.375,62 para R$ 1.416.101.383,80, dividido em 63.257.283 de ações ON.

SANEPAR. Fitch reiterou rating nacional de longo prazo AAA(bra) da companhia e de suas emissões de debêntures quirografárias, com perspectiva estável.

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*com a colaboração da equipe do BDM Online

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