Resumo semanal: 26/02/26 a 30/02/26

Por Matheus Gomes de Souza, CEA Estados Unidos O cenário norte-americano da semana foi marcado por decisões relevantes de política monetária, indicadores mistos de atividade e aumento das tensões geopolíticas. O presidente Donald Trump indicou Kevin Warsh para a presidência do Federal Reserve, substituindo Jerome Powell, após um processo de seleção que envolveu quatro finalistas. […]

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Por Matheus Gomes de Souza, CEA

Estados Unidos

O cenário norte-americano da semana foi marcado por decisões relevantes de política monetária, indicadores mistos de atividade e aumento das tensões geopolíticas. O presidente Donald Trump indicou Kevin Warsh para a presidência do Federal Reserve, substituindo Jerome Powell, após um processo de seleção que envolveu quatro finalistas. Warsh, ex-membro do Conselho de Governadores do Fed, ganhou destaque por sua mudança recente de postura, passando a defender juros mais baixos. Em paralelo, o Fed manteve a taxa básica de juros na faixa de 3,50% a 3,75%, em decisão dividida, citando inflação ainda elevada e crescimento econômico sólido. Indicadores de mercado de trabalho mostraram pedidos iniciais de seguro-desemprego em 209 mil, enquanto a taxa de desemprego em dezembro ficou em 4,4%.

Do ponto de vista econômico, os dados reforçaram um ambiente de incerteza quanto à trajetória futura dos juros. A confiança do consumidor caiu 9,7 pontos em janeiro, para 84,5, o menor nível desde 2014, refletindo preocupação com preços elevados e um mercado de trabalho menos dinâmico. Ao mesmo tempo, o índice de preços ao produtor subiu 0,5% em dezembro, acima das expectativas, mantendo alta anual de 3,0%, sinalizando pressões inflacionárias persistentes, possivelmente associadas ao repasse de tarifas de importação. No campo político e geopolítico, as tensões com o Irã se intensificaram, com declarações do Departamento de Defesa e reforço da presença militar no Oriente Médio, adicionando um componente adicional de risco ao ambiente macroeconômico e às expectativas dos investidores.

Brasil

A semana no Brasil foi marcada por um quadro fiscal e monetário desafiador, combinado a sinais ainda heterogêneos da atividade econômica. A dívida bruta do setor público consolidado encerrou 2025 em 78,7% do PIB (R$ 10 trilhões), ante 76,3% no fim de 2024, refletindo aumento de gastos, despesas com juros e déficits recorrentes. Pelo critério do FMI, o endividamento alcançou 93,4% do PIB, acima da média de emergentes. No campo monetário, o Banco Central manteve a taxa Selic em 15% ao ano, citando incertezas externas, tensões geopolíticas e a necessidade de cautela diante da política fiscal. O IPCA-15 desacelerou na margem para 0,20% em janeiro, mas a inflação em 12 meses subiu para 4,50%, no limite superior da meta contínua.

Do ponto de vista macroeconômico, as contas públicas seguiram pressionadas: o setor público consolidado registrou déficit primário de R$ 55,0 bilhões em 2025 (0,43% do PIB), enquanto o déficit nominal somou R$ 1,063 trilhão (8,34% do PIB), com despesas de juros equivalentes a 7,91% do PIB. No setor externo, o déficit em transações correntes atingiu US$ 68,8 bilhões em 2025 (3,02% do PIB), o maior desde 2014, apesar de o investimento direto no país ter financiado integralmente esse desequilíbrio no ano. No mercado de trabalho, houve forte fechamento líquido de vagas em dezembro (-618 mil pelo Caged), movimento sazonal, enquanto a taxa de desemprego caiu para 5,1% no trimestre encerrado em dezembro, mínima histórica, com renda média real em R$ 3.613. No campo político, avançaram articulações para as eleições de 2026, com sinalizações que reforçam a polarização entre Lula e o campo bolsonarista, ao mesmo tempo em que lideranças do PSD tentam estruturar uma alternativa de terceira via, cenário acompanhado de perto pelo mercado financeiro.

Europa

A semana foi marcada por sinais de resiliência econômica na zona do euro, apesar de um ambiente ainda permeado por incertezas políticas e geopolíticas. A economia do bloco cresceu 0,3% no quarto trimestre de 2025, acima das expectativas, com avanço anual de 1,3%, sustentado por consumo e investimentos mais fortes. A Espanha permaneceu como principal motor, com expansão de 0,8%, enquanto a Alemanha cresceu 0,3%, seu melhor desempenho trimestral em três anos, e a França avançou 0,2%, em meio à instabilidade política. Dados preliminares indicam que 2026 começou em terreno mais favorável, com melhora inesperada nos indicadores de confiança, desemprego próximo de mínimas históricas e inflação em torno da meta de 2% do Banco Central Europeu.

No campo político e geopolítico, persistiram fatores de risco relevantes. Na França, o governo sobreviveu a novas moções de censura ligadas ao orçamento de 2026, mantendo um cenário de fragilidade institucional que limita perspectivas de crescimento mais robusto. No leste europeu, a Hungria entrou em um ciclo eleitoral decisivo, com a oposição abrindo vantagem de cerca de 10 pontos percentuais sobre o partido do primeiro-ministro Viktor Orbán, o que pode redefinir a relação do país com a União Europeia. No âmbito internacional, a UE avançou politicamente para incluir a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã em sua lista de organizações terroristas, enquanto acompanham-se iniciativas de desescalada no conflito entre Rússia e Ucrânia mediadas pelos Estados Unidos. Em paralelo, grandes investidores institucionais, como o fundo soberano da Noruega, alertaram que a fragmentação da economia global representa o principal risco sistêmico, apesar de manterem elevada exposição a ativos americanos, reforçando um cenário europeu de crescimento moderado, porém vulnerável a choques externos.

Ásia

O noticiário asiático combinou decisões de política monetária cautelosas, forte desempenho econômico em polos tecnológicos e mudanças políticas relevantes. No Paquistão, o banco central manteve a taxa básica em 10,50%, contrariando as expectativas de corte, apesar da inflação em 5,6% em dezembro, avaliando a taxa real como suficiente para manter a inflação dentro da meta de 5% a 7%. Em Hong Kong, o PIB cresceu 3,8% no quarto trimestre e 3,5% em 2025, sustentado por comércio regional, turismo e serviços financeiros, enquanto os preços residenciais subiram 3,3% no ano, a primeira alta desde 2021. Taiwan destacou-se com crescimento de 12,68% no quarto trimestre e 8,63% em 2025, impulsionado pela demanda por semicondutores e aplicações de inteligência artificial, o ritmo mais forte em 15 anos.

No campo político e institucional, Myanmar consolidou o domínio do partido apoiado pelos militares após eleições amplamente contestadas, com baixa participação e rejeição internacional, em meio a um conflito interno que já deslocou cerca de 3,6 milhões de pessoas. Na Tailândia, pesquisas indicaram liderança do Partido Popular Progressista às vésperas das eleições de fevereiro, enquanto o banco central anunciou limites às transações diárias de ouro para conter a valorização do baht, que subiu cerca de 9% em 2025. Na Indonésia, a nomeação de Thomas Djiwandono como vice-governador do banco central levantou dúvidas sobre a independência da autoridade monetária, pressionando a rupia. Em paralelo, autoridades regionais intensificaram medidas sanitárias após a confirmação de casos do vírus Nipah na Índia, reforçando controles em aeroportos, um fator adicional de risco para mobilidade e confiança no curto prazo.

Oriente Médio

A região foi marcada por avanços diplomáticos limitados e pela intensificação de tensões políticas, militares e sociais. No centro do noticiário, os Estados Unidos detalharam no Conselho de Segurança da ONU o plano para a desmilitarização de Gaza, que prevê o desarmamento do Hamas por meio de um mecanismo internacional de monitoramento e um programa de recompra de armas financiado externamente, como condição para novas retiradas israelenses. O cessar-fogo firmado em outubro permanece frágil, com episódios pontuais de violência, mas avançou na entrega de todos os reféns israelenses, vivos ou mortos, e na devolução de corpos palestinos. A segunda fase do plano norte-americano envolve a criação de uma força internacional de estabilização e a transição da governança local, tema que segue cercado de divergências.

Em paralelo, as tensões entre Estados Unidos e Irã se agravaram, com novas ameaças de ação militar caso Teerã não aceite negociar um acordo nuclear, enquanto autoridades iranianas responderam com alertas de retaliação regional. Internamente, o Irã atravessa sua mais grave crise desde 1979, com milhares de prisões após protestos motivados por deterioração econômica, inflação anual em torno de 60% e a moeda atingindo a mínima histórica de 1.500.000 reais por dólar. A União Europeia caminha para ampliar sanções a indivíduos e entidades iranianas, embora ainda sem consenso para classificar a Guarda Revolucionária como organização terrorista. Em outros pontos da região, a Arábia Saudita anunciou uma nova estratégia de privatizações com foco em parcerias público-privadas e investimentos superiores a US$ 64 bilhões até 2030, enquanto a Síria segue sob tensão no nordeste, com enclaves curdos em alerta diante da pressão do governo central. O conjunto desses fatores reforça um cenário regional de elevada incerteza geopolítica, com impactos relevantes sobre segurança, fluxos de investimento e expectativas econômicas.

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