Resumo semanal: 19/01 a 23/01
Panorama global da semana: menor liquidez nos EUA, tensões geopolíticas com o Conselho da Paz de Trump, dados econômicos resilientes, Brasil em cautela diplomática, Europa entre inflação e comércio, Ásia sob pressão monetária e Oriente Médio marcado por instabilidade e avanços humanitários.
Foto: REUTERS/Denis Balibouse
Por Matheus Gomes de Souza, CEA
Estados Unidos
A semana nos Estados Unidos foi iniciada com menor liquidez nos mercados financeiros em razão do feriado de Martin Luther King Jr. Day. No campo político e geopolítico, o presidente Donald Trump anunciou oficialmente a criação do chamado “Conselho da Paz”, estrutura voltada inicialmente à supervisão da reconstrução da Faixa de Gaza, com forte concentração de poder na presidência norte-americana e críticas explícitas à Organização das Nações Unidas. A iniciativa foi apresentada durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, e gerou cautela entre aliados tradicionais, em meio a receios de enfraquecimento da governança multilateral. Paralelamente, Trump elevou o tom em temas sensíveis, como imigração, ao sugerir o envolvimento da Otan na proteção da fronteira com o México, além de intensificar críticas públicas ao Federal Reserve e a lideranças democratas estaduais.
No plano econômico, os indicadores continuaram a sinalizar resiliência da atividade, ainda que com sinais de moderação. Os pedidos iniciais de auxílio-desemprego subiram marginalmente para 200 mil na semana encerrada em 17 de janeiro, abaixo das expectativas de mercado, reforçando a avaliação de um mercado de trabalho estável, caracterizado por baixa rotatividade. O PIB do terceiro trimestre foi revisado para cima, com crescimento anualizado de 4,4%, sustentado principalmente pelo consumo, que avançou 3,5%, além de exportações e investimentos empresariais. Já os dados preliminares de janeiro mostraram o PMI composto em 52,8 pontos, indicando expansão, porém com desaceleração no ritmo e pressão de custos associada às tarifas, ao mesmo tempo em que o crescimento do emprego permanece contido diante da elevada incerteza econômica e política.
Brasil
A semana foi marcada por cautela diplomática do governo brasileiro diante do convite feito pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para que o Brasil integre o recém-criado Conselho da Paz. O Planalto segue avaliando a proposta internamente e em diálogo com parceiros internacionais, em linha com a postura predominante da comunidade internacional, que observa a iniciativa com reservas diante da baixa adesão inicial. Em paralelo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reforçou sua agenda de articulação regional ao confirmar visita oficial ao Panamá nos dias 27 e 28 de janeiro, com foco na aproximação do país centro-americano ao Mercosul e no fortalecimento de acordos comerciais e de investimentos, em um contexto de tensões políticas na América Latina.
No campo econômico, os dados fiscais e de mercado reforçaram sinais de resiliência, embora com alertas à frente. A arrecadação federal encerrou 2025 em nível recorde, somando R$ 2,88 trilhões, com crescimento real de 3,75%, impulsionado pelo avanço da massa salarial, pelo setor de serviços e por mudanças na legislação tributária, como o aumento do IOF e a consolidação da tributação sobre apostas. Apesar disso, analistas apontam desaceleração em relação a 2024 e projetam crescimento real de 2,8% da arrecadação em 2026, insuficiente para o cumprimento da meta fiscal. Nos mercados, o Ibovespa renovou máximas históricas e acumula alta de 10% em 2026 e de 45% em 12 meses, movimento sustentado majoritariamente pela forte entrada de capital estrangeiro, enquanto investidores domésticos seguem reduzindo a exposição à renda variável em favor de ativos de renda fixa.
Europa
O cenário europeu foi dominado por temas geopolíticos e comerciais, com destaque para as tensões no eixo transatlântico e no Leste Europeu. A Dinamarca reforçou, em coordenação com a Otan, a necessidade de ampliar a segurança no Ártico após declarações do presidente dos Estados Unidos sobre a Groenlândia, ao mesmo tempo em que reiterou que a soberania da ilha não está em discussão. No front do conflito entre Rússia e Ucrânia, Moscou confirmou a realização de novas conversas de segurança com Estados Unidos e Ucrânia em Abu Dhabi, ressaltando que qualquer acordo duradouro dependerá da resolução das disputas territoriais, enquanto os ataques à infraestrutura energética ucraniana se intensificam durante o inverno.
No campo econômico, avançaram debates estratégicos sobre comércio e inflação. A União Europeia sinalizou a possibilidade de aplicação provisória do acordo de livre comércio com o Mercosul já a partir de março, apesar de resistências políticas internas e de questionamentos jurídicos, em um contexto de busca por maior diversificação comercial diante das tarifas americanas e da dependência da China. No ambiente macroeconômico, a inflação da zona do euro desacelerou para 1,9% em dezembro, puxada pela queda dos preços de energia, enquanto o Reino Unido registrou aceleração inflacionária para 3,4%, acima do esperado. Na Alemanha, o PPI recuou 2,5% em termos anuais, também influenciado pela energia, ao passo que os indicadores de expectativas econômicas mostraram melhora relevante em janeiro, ainda que as condições atuais sigam em patamar negativo.
Ásia
Na Ásia, a semana foi marcada por decisões de política monetária cautelosas em meio a pressões cambiais e desaceleração do crescimento. O Bank Indonesia manteve a taxa básica em 4,75% pela quarta reunião consecutiva, diante da forte depreciação da rupia, negociada próxima a 17.000 por dólar, priorizando a estabilidade da moeda mesmo com comunicação ainda acomodatícia. Na China, o PIB cresceu 5% em 2025, em linha com a meta oficial, impulsionado principalmente pelas exportações, que responderam por cerca de um terço da expansão, apesar das tarifas impostas pelos Estados Unidos. Já o Banco Popular da China manteve as LPRs de um e cinco anos em 3% e 3,5%, respectivamente, sinalizando continuidade de uma política monetária moderadamente flexível em 2026.
Os dados recentes, contudo, evidenciaram desafios estruturais relevantes na região. A economia chinesa desacelerou no quarto trimestre, com crescimento de 4,5%, refletindo consumo interno fraco, crise no setor imobiliário e queda histórica da taxa de natalidade, enquanto as vendas no varejo avançaram apenas 0,9% em dezembro. Na Coreia do Sul, o PIB recuou 0,3% no quarto trimestre de 2025, a maior contração em três anos, pressionado pela queda nos investimentos e nas exportações, embora as perspectivas para 2026 sejam mais favoráveis com a expansão do setor de semicondutores e da inteligência artificial. No Japão, o Banco do Japão manteve os juros em 0,75%, adotando tom hawkish ao reforçar preocupações com um iene fraco e revisando para cima as projeções de crescimento e inflação, enquanto em Cingapura a inflação anual ficou em 1,2% em dezembro, com expectativa de aceleração gradual ao longo de 2026.
Oriente Médio
O cenário no Oriente Médio permaneceu marcado por elevada instabilidade geopolítica, com destaque para a Síria e o conflito em Gaza. No território sírio, confrontos entre forças do governo e as Forças Democráticas da Síria colocaram em risco um cessar-fogo de quatro dias recém-anunciado, após acusações mútuas sobre ataques que resultaram na morte de 11 soldados sírios. O avanço das tropas governamentais sobre áreas controladas pelos curdos, próximas a Hasakah e Qamishli, reacendeu preocupações sobre a autonomia no nordeste do país e sobre o destino de milhares de prisioneiros ligados ao Estado Islâmico, em um contexto de reposicionamento das relações da Síria com Estados Unidos e Turquia.
Em Gaza, houve sinalizações pontuais de avanço humanitário, com o anúncio da reabertura da passagem de Rafah na próxima semana, após meses de bloqueio, elemento central do cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos. Paralelamente, países-chave da região — como Arábia Saudita, Turquia, Egito, Catar e Emirados Árabes Unidos — confirmaram adesão ao Conselho da Paz proposto por Washington, iniciativa que também contou com a aceitação formal de Israel. No plano energético, dados indicaram que Israel manteve níveis elevados de importação de petróleo do Azerbaijão em 2025, atingindo cerca de 94 mil barris por dia, apesar de restrições comerciais impostas por governos regionais, evidenciando a resiliência das cadeias de suprimento em meio às tensões políticas e diplomáticas persistentes.