Giro das 15h: Bolsas avançam aqui e em NY após IPCA e payroll

As bolsas americanas consolidam o sinal positivo na tarde desta sexta-feira (Dow Jones +0,52%; S&P500 +0,67%; Nasdaq +0,83%), conforme os investidores e analistas avaliam os detalhes do payroll de dezembro, que mostrou criação de 50 mil vagas em dezembro, abaixo dos 60 mil esperados, enquanto a taxa de desemprego diminuiu de 4,5% para 4,4%.

Os números reforçaram a aposta de manutenção dos juros pelo Fed neste mês, enquanto o mercado ainda especula sobre quantos cortes o BC americano poderá fazer neste ano.

Por aqui, o Ibovespa (+0,66%, aos 164.015 pontos) pega carona no bom humor externo, com o mercado doméstico repercutindo também o IPCA de 2025 (+4,26%) dentro do teto da meta do BC.

O dólar cai 0,44%, para R$ 5,3654, na contramão do exterior, onde a moeda americana se fortalece frente aos pares (DXY +0,24%, aos 99,167 pontos). E os juros futuros operam mistos, com os curtos (Jan/27 a 13,760%) em leve alta e longos (Jan/33 a 13,510%) estáveis.

Resumo semanal: 05/01 a 09/01

Por Matheus Gomes de Souza, CEA

Estados Unidos

A conjuntura macroeconômica dos Estados Unidos na semana foi marcada por sinais combinados de aperto financeiro, desaceleração da atividade e resiliência parcial do mercado de trabalho. O balanço patrimonial do Federal Reserve recuou de US$ 6,641 trilhões para US$ 6,574 trilhões, indicando continuidade do processo de redução de liquidez no sistema financeiro. No setor industrial, o PMI do ISM caiu de 48,2 para 47,9 pontos em dezembro, permanecendo em território contracionista e abaixo das expectativas de mercado. Apesar de avanços marginais em novos pedidos e emprego, houve recuo nos índices de produção e estoques, enquanto o índice de preços permaneceu elevado em 58,5 pontos, sugerindo pressões inflacionárias persistentes mesmo com atividade enfraquecida.

No mercado de trabalho, os dados reforçaram uma dinâmica de arrefecimento gradual, porém sem deterioração abrupta. Os pedidos iniciais de seguro-desemprego subiram para 208.000, acima da semana anterior, enquanto a média móvel de quatro semanas recuou para 211.750, apontando estabilidade em horizonte mais amplo. O payroll de dezembro mostrou criação de 50.000 vagas, abaixo do esperado, com desaceleração acumulada ao longo de 2025, ano em que foram criados 584.000 empregos, o menor avanço fora de períodos recessivos desde 2003. Ainda assim, a taxa de desemprego caiu para 4,4% e os salários avançaram 0,3% no mês e 3,8% em 12 meses, sustentando a expectativa de manutenção da taxa de juros pelo Fed. No campo geopolítico, as declarações do presidente Donald Trump sobre a Groenlândia elevaram tensões diplomáticas com a Europa, ao trazer à tona disputas estratégicas no Ártico, com potenciais implicações para a segurança regional e a coesão da Otan.

Brasil

O cenário brasileiro foi marcado por desdobramentos institucionais, inflação comportada e sinais de desaceleração da atividade. No campo político-regulatório, a indicação de Otto Eduardo Fonseca de Albuquerque Lobo para a presidência da CVM representou uma ruptura com a tradição técnica do órgão, ao consolidar uma escolha de forte articulação política. A decisão expôs tensões internas no governo e no Congresso, sendo interpretada como parte de negociações mais amplas envolvendo nomeações ao Supremo Tribunal Federal, o que gerou questionamentos sobre a autonomia institucional do regulador do mercado de capitais. Em paralelo, o presidente Lula vetou integralmente o PL da Dosimetria, que previa redução de penas relacionadas aos atos de 8 de Janeiro, reacendendo o embate entre Executivo e Legislativo em torno da agenda democrática e do sistema penal.

No campo macroeconômico, a inflação oficial encerrou 2025 em 4,26%, com alta de 0,33% em dezembro, permanecendo dentro do intervalo da meta e registrando o menor resultado anual desde 2018. Apesar do alívio inflacionário, o Índice de Difusão avançou para 60,5%, indicando maior disseminação de reajustes de preços. A atividade industrial mostrou perda de fôlego ao longo do ano, com produção estável em novembro frente a outubro e queda de 1,2% na comparação anual, acumulando crescimento modesto de 0,7% em 12 meses. O desempenho mais fraco no segundo semestre refletiu juros elevados e menor dinamismo dos principais segmentos industriais. No setor externo, a balança comercial registrou superávit de US$ 68,3 bilhões em 2025, o terceiro maior da série histórica, sustentado por exportações robustas e resultado de dezembro acima das expectativas, reforçando a contribuição do comércio exterior para o crescimento em um contexto doméstico de atividade moderada.

Europa

A agenda europeia foi dominada por avanços e resistências em torno do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul, após mais de 25 anos de negociações. Embaixadores do bloco sinalizaram apoio suficiente para autorizar a assinatura do tratado, com ao menos 15 países representando 65% da população da UE, abrindo caminho para a formalização do acordo nas próximas semanas. A Comissão Europeia e países como Alemanha e Espanha defenderam o pacto como instrumento estratégico para ampliar acesso a mercados, compensar perdas decorrentes de tarifas dos Estados Unidos e reduzir a dependência da China, especialmente no acesso a insumos estratégicos. Em contrapartida, França, Polônia e Hungria mantiveram oposição, refletida em protestos de agricultores em diversos países, com destaque para bloqueios de estradas e manifestações em Paris, impulsionadas pelo temor de concorrência externa e impactos sobre o setor agrícola europeu.

No campo macroeconômico, os dados indicaram desaceleração inflacionária e crescimento moderado, sustentados sobretudo pelo setor de serviços. A inflação recuou mais do que o esperado nas principais economias da zona do euro, com destaque para a Alemanha, onde o índice caiu para 2,0%, enquanto França e Espanha também registraram leituras mais baixas. O PMI composto do bloco permaneceu acima de 50 pontos, sinalizando expansão ao longo de todo o ano de 2025, apesar da contração persistente da indústria. O mercado de trabalho alemão, contudo, mostrou deterioração gradual, com média de 2,95 milhões de desempregados em 2025 e taxa de desemprego de 6,3%, refletindo a estagnação econômica prolongada. No plano geopolítico, as declarações do governo dos Estados Unidos sobre a Groenlândia provocaram reação coordenada de países europeus e do Canadá, reforçando o compromisso da UE com a soberania territorial e adicionando ruído às relações transatlânticas em um contexto já marcado por tensões comerciais e estratégicas.

Ásia

O noticiário asiático foi marcado por eventos políticos relevantes na Coreia do Sul e por movimentos estruturais em política econômica e financeira na região. Em Seul, avançou o julgamento do ex-presidente Yoon Suk Yeol, acusado de insurreição após a tentativa fracassada de imposição da lei marcial em dezembro de 2024. O processo entrou na fase final da primeira instância, com possibilidade de condenação à prisão perpétua ou pena capital, ainda que exista moratória informal para execuções no país. O episódio encerra um período prolongado de instabilidade institucional, iniciado com o impeachment de Yoon e a eleição antecipada que levou Lee Jae Myung ao poder. No campo diplomático, o novo presidente sul-coreano sinalizou reaproximação com a China, classificando a cúpula bilateral com Xi Jinping como oportunidade para normalizar e aprofundar a parceria estratégica entre os dois países.

No plano macroeconômico e financeiro, destacaram-se iniciativas de liberalização e sinais mistos de atividade. A Coreia do Sul anunciou a abertura do mercado cambial para negociações 24 horas a partir de julho, como parte da estratégia para alcançar o status de mercado desenvolvido nos índices internacionais, ao mesmo tempo em que projeta crescimento de 2,0% em 2026 e inflação de 2,1%. No Sudeste Asiático, as Filipinas indicaram manutenção dos juros após inflação média de 1,7% em 2025 e desaceleração do crescimento para 4,6%, enquanto a Indonésia registrou superávit comercial de US$ 2,66 bilhões em novembro, abaixo do esperado, em meio à queda das exportações e aceleração inflacionária para 2,92% em dezembro. Já o Vietnã apresentou forte desempenho, com crescimento de 8,0% em 2025, exportações em alta de 17% e superávit recorde com os Estados Unidos. Na China, a inflação ao consumidor subiu para 0,8% em dezembro, a maior desde fevereiro de 2023, sinalizando recuperação gradual da demanda interna, enquanto as reservas internacionais avançaram para US$ 3,3579 trilhões no fim de 2025, reforçando a estabilidade externa do país.

Oriente Médio

O cenário do Oriente Médio combinou sinais de normalização financeira em Israel com forte deterioração geopolítica em outros polos da região. Israel voltou a acessar os mercados internacionais de capitais com uma emissão de US$ 6 bilhões em títulos soberanos, distribuídos em três tranches, atraindo demanda de US$ 36 bilhões e com spreads retornando a níveis próximos ao período pré-guerra. O movimento foi sustentado pela melhora do quadro fiscal após o cessar-fogo em Gaza, pela valorização do shekel ao maior nível em quatro anos e pela revisão da perspectiva de crédito para “estável”. Em paralelo, o Banco de Israel surpreendeu ao cortar a taxa básica em 25 pontos-base, para 4,00%, citando desaceleração inflacionária, normalização das restrições de oferta e fortalecimento cambial, além de projetar crescimento de 5,2% em 2026. O sistema financeiro também se beneficiou do maior apetite externo, com o banco Hapoalim captando US$ 2 bilhões em sua maior emissão internacional já realizada.

Em contraste, a região seguiu marcada por elevada instabilidade política e militar. No Irã, protestos antigovernamentais se espalharam pelas 31 províncias, impulsionados pela desvalorização do rial e por uma crise de legitimidade do regime, com ao menos 34 manifestantes mortos e mais de 2.200 presos, além de apagões de internet e crescente pressão internacional. No Levante, Israel intensificou ataques contra alvos do Hezbollah no Líbano, apesar do exército libanês declarar controle operacional no sul do país, evidenciando fragilidade do cessar-fogo mediado pelos EUA. Na Síria, confrontos entre forças governamentais e combatentes curdos em Aleppo deslocaram mais de 140 mil pessoas, levando à declaração de cessar-fogo pontual e ao envolvimento diplomático de potências regionais, incluindo Turquia e Estados Unidos. Já no Golfo e entorno, a Arábia Saudita anunciou a abertura total de seus mercados financeiros a investidores estrangeiros a partir de fevereiro, enquanto o Iraque decidiu nacionalizar temporariamente as operações do campo de West Qurna 2 para mitigar riscos associados a sanções internacionais, ilustrando como decisões econômicas seguem fortemente condicionadas ao ambiente geopolítico regional.

Europa: Bolsas sobem e renovam recordes, puxadas por defesa e possível acordo Rio Tinto-Glencore

As principais bolsas europeias avançaram nesta 6ªF, atingindo novas marcas históricas de fechamento.

Os índices foram puxados pelo desempenho de ações de defesa e tecnologia, reagindo ao noticiário geopolítico e o foco em chips de IA, respectivamente.

Outro destaque do dia foi a notícia de que a Rio Tinto estaria em negociações preliminares para comprar a Glencore.

Isso fez os papéis da primeira caírem 2,94% e os da segunda, dispararem 8,62%. O negócio, caso se concretize, criará a maior mineradora do mundo.

No fechamento: Londres 0,81%; Frankfurt +0,55%; Paris +1,44%; e Stoxx 600 +0,95%, aos 609,60 pontos.

No acumulado da semana, os ganhos ficaram em 1,76%, 2,95%, 2,04% e 2,26%, respectivamente.