Irão volta a fechar Ormuz e mercado volta ao risco
… O mercado inicia a semana diante de uma reviravolta no cenário geopolítico, após o fim de semana desmontar o rali de alívio provocado pela abertura do Estreito de Ormuz. A reversão da decisão pelo Irã, em resposta à manutenção do bloqueio americano, recoloca a incerteza sobre o fluxo global de petróleo e reacende o prêmio de risco nos ativos. Nesse ambiente, a agenda econômica fica em segundo plano, embora traga eventos relevantes, como as vendas no varejo nos Estados Unidos e a sabatina de Kevin Warsh para o Fed. Em Wall Street, balanços das big techs movimentam os negócios. Aqui, a ponte com o feriado de amanhã – 21 de Abril – deve reduzir liquidez e manter a cautela.
DO ALÍVIO AO COLAPSO DA NARRATIVA – Depois de encerrar a sexta-feira embalado por um rali de alívio com a guerra no Oriente Médio, o mercado volta a enfrentar hoje a fragilidade de um acordo que, olhando em retrospecto, já nascia frágil.
… O anúncio do Irã de reabrir o Estreito de Ormuz foi interpretado como um passo concreto rumo à normalização da oferta global de petróleo, derrubando os preços, reduzindo as expectativas inflacionárias e destravando o apetite por risco.
… Mas o que se viu nas horas seguintes — e, sobretudo, ao longo do sábado e domingo — foi menos um avanço diplomático e mais um jogo de pressões cruzadas, com sinais claros de que o “acordo” celebrado pelo mercado estava longe de se sustentar.
… A primeira fissura já estava presente na própria sexta-feira: a abertura de Ormuz veio condicionada pelo Irã e, mais importante, acompanhada da decisão dos Estados Unidos de manter o bloqueio naval aos portos iranianos.
… Ou seja, o fluxo que o mercado tratou como “normalizado” nunca foi, de fato, livre. Ainda assim, prevaleceu a leitura de que a distensão avançaria rapidamente — uma aposta que ignorava a assimetria do risco geopolítico naquele momento.
… O fim de semana desmontou essa narrativa.
… No sábado, o Irã voltou atrás e anunciou novo fechamento do Estreito, deixando claro que não aceitaria manter a rota aberta enquanto o bloqueio americano continuasse em vigor.
… A resposta dos aiatolás foi direta: “é impossível que outros passem pelo Estreito enquanto nós não podemos”.
… A partir daí, o que se viu foi uma rápida deterioração do ambiente — com relatos de disparos contra embarcações, interrupção do tráfego e retorno ao status de restrição na principal rota energética do mundo.
… No domingo, a escalada ganhou um novo patamar.
… Donald Trump acusou o Irã de violar o cessar-fogo de duas semanas, que se encerra amanhã (21), anunciou a apreensão de um navio iraniano em operação militar e voltou a ameaçar ataques diretos à infraestrutura do país caso Teerã não aceite os termos americanos.
… Do outro lado, o governo iraniano respondeu classificando o bloqueio dos Estados Unidos como ilegal e uma violação da trégua, enquanto negava oficialmente uma nova rodada de negociações, apesar de sinais desencontrados sobre encontros no Paquistão nos próximos dias.
… Em paralelo, Israel voltou a bombardear o sul do Líbano, quebrando a trégua de 10 dias.
… O pano de fundo é um impasse estrutural: os Estados Unidos usam o bloqueio naval como instrumento de pressão para forçar concessões no programa nuclear iraniano, enquanto o Irã utiliza o controle sobre o Estreito de Ormuz como principal alavanca de negociação.
… Esse equilíbrio instável torna qualquer trégua extremamente vulnerável, com ambos os lados sinalizando prontidão para retomar o conflito a qualquer momento.
… Mais do que a escalada em si, o que muda para o mercado é a quebra da narrativa construída na sexta-feira.
… O rali global foi sustentado pela expectativa de um acordo rápido e pela reabertura de Ormuz — e a renovada percepção de risco geopolítico tende agora a ser reprecificada, com impacto direto sobre petróleo, inflação implícita, juros e ativos de risco.
… Em suma, o mercado comprou um cenário que não se confirmou — e deve iniciar a semana devolvendo parte relevante desse movimento.
… Já na abertura do pregão asiático, o petróleo voltava a subir forte, com o WTI em alta de 5,40% (US$ 88,38) e o Brent, de +4,88% (US$ 94,79), enquanto os futuros de Nova York operavam em queda.
AGENDA DA SEMANA – China manteve as taxas de referência (LPR) de 1 e 5 anos em 3% e 3,5%, respectivamente, neste domingo à noite, como esperado. Os juros permanecem nesses níveis desde maio do ano passado.
… Decisões de juros também entram no radar em economias emergentes, com reunião na Turquia na quarta-feira e na Rússia na sexta-feira, em um ambiente global ainda marcado por incertezas inflacionárias e pela volatilidade recente nos preços de energia.
… Nos Estados Unidos, a semana ganha tração na terça-feira, com a audiência de nomeação de Kevin Warsh no Congresso, evento que pode oferecer pistas importantes sobre a condução futura do Federal Reserve.
… No mesmo dia, a divulgação das vendas no varejo de março é um dado-chave para calibrar a leitura sobre a resiliência do consumo — e, portanto, sobre o espaço para ajustes na política monetária.
… Ao longo da semana, as prévias dos PMIs de abril ganham relevância, com divulgações na Europa, Estados Unidos e Ásia, ajudando a capturar os primeiros sinais do impacto recente do choque geopolítico sobre a atividade global.
… Na quarta, o CPI do Reino Unido traz atualização sobre a trajetória inflacionária numa das economias mais sensíveis ao choque energético.
… Ainda no meio da semana, os dados de estoques de petróleo nos Estados Unidos devem ser acompanhados de perto, em meio à volatilidade recente da commodity e à incerteza sobre o fluxo global de oferta.
… Na sexta-feira, as vendas no varejo do Reino Unido e o índice de sentimento do consumidor americano da Universidade de Michigan encerram a agenda, com potencial de impacto sobre as expectativas de consumo e inflação.
… Discursos de dirigentes do Fed e do BCE completam a agenda e podem calibrar as apostas do mercado para juros.
TARIFAS – O governo Trump inicia hoje o processamento de pedidos de reembolso de tarifas consideradas inconstitucionais pela Suprema Corte, com potencial de devolver até US$ 127 bilhões a importadores, em um processo que deve ocorrer de forma gradual.
BIG TECHS NO RADAR – A temporada de balanços do primeiro trimestre nos Estados Unidos ganha ritmo ao longo da semana, com destaque na quarta-feira para os resultados de Tesla e da IBM. Na quinta, o foco se estende para Intel.
NO BRASIL – Aqui, a semana é mais leve em indicadores, mas traz pontos relevantes no radar do Banco Central, especialmente na preparação para a próxima decisão de juros. O período de silêncio do Copom começa na quarta-feira, antecedendo a reunião do dia 29.
… Entre os dados, o destaque fica com as estatísticas do setor externo de março, na sexta-feira, que inclui informações sobre o balanço de pagamentos e o Investimento Direto no País (IDP), ajudando a calibrar a leitura sobre o fluxo de capitais.
… Na quinta, tem CMN. Na quarta, os números semanais do fluxo cambial. E hoje, a pesquisa Focus (8h25).
ENDIVIDAMENTO – A equipe econômica deve anunciar nesta semana o pacote de medidas para conter o endividamento de famílias e empresas, com foco em pequenos e médios negócios, além de iniciativas de crédito para o setor produtivo.
… A expectativa é que o anúncio ocorra a partir de quarta-feira, com o retorno do presidente Lula a Brasília, após agendas no exterior.
ESCALA 6X1 – A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara pode votar na quarta-feira a admissibilidade da PEC que trata do fim da escala 6×1, em um tema que ganha tração política e expõe divergências entre Legislativo e Executivo.
… O governo é contrário à tramitação via emenda constitucional e defende o projeto de lei enviado pelo Executivo, enquanto o presidente da Câmara, Hugo Motta, sinaliza apoio ao avanço da PEC, na disputa pelo protagonismo do tema.
… Caso a admissibilidade seja aprovada na CCJ, o texto segue para comissão especial, onde o mérito será discutido, em um processo que deve se estender pelas próximas semanas como prioridade na agenda política.
ELEIÇÃO – No Globo, pesquisas recentes indicam desgaste do governo Lula em redutos importantes, com queda de aprovação no Nordeste e fragmentação da base aliada em disputas locais, o que acende alerta para a estratégia eleitoral do PT.
… Em SP, levantamento do Paraná Pesquisas, divulgado no fim de semana, mostra Flávio Bolsonaro à frente em um eventual 2º turno, com 48,1% contra 40,3% de Lula, além de empate técnico no 1º turno, reforçando a perda de vantagem do petista fora de seus principais redutos.
UM DIA DE CADA VEZ – Calejado contra as reviravoltas da guerra no Irã, o mercado sabia muito bem que sinais de resolução do conflito eram garantia de pouca coisa. Ainda assim, na sexta-feira, o petróleo resolveu apostar alto.
… A reabertura do Estreito de Ormuz foi vista como um passo importante, ainda que em um cenário bastante instável, e levou o Brent a derreter para o patamar dos US$ 90 por barril e o WTI mergulhar para a faixa de US$ 83.
… Desde que a guerra começou, todas as vezes em que o petróleo registrou uma queda mais expressiva, surgiram fontes nas agências internacionais denunciando negociações atípicas que sugerem o uso de informação privilegiada.
… O Investinglive informou na sexta-feira que, cerca de 20 minutos antes de o governo de Teerã ter anunciado a reabertura do Estreito de Ormuz, foi registrada a venda de 7.990 lotes de contratos futuros de Brent.
… A exposição vendida foi realizada com “timing impecável”, segundo a plataforma de notícias. Pouco depois, o petróleo embarcou na espiral firme de queda.
… O contrato do barril do Brent para junho despencou 9,06% em Londres, para US$ 90,38, enquanto o vencimento do WTI para maio afundou com intensidade ainda maior (-11,45%) em Nova York e fechou cotado a US$ 83,85.
… A derrocada do petróleo atingiu em cheio as ações da Petrobras e adiou por mais um dia o sonho da conquista dos 200 mil pontos pelo Ibovespa, que engatou a terceira queda consecutiva, depois da sequência de onze altas.
… Descolado do entusiasmo das bolsas americanas, o Ibovespa terminou em baixa de 0,55%, aos 195.733,51 pontos, com volume turbinado de R$ 44,7 bilhões, em dia de exercício de opções sobre ações.
… Sob uma forte onda vendedora, os papéis ON da Petrobras devolveram 5,31%, a R$ 50,81, e os PN perderam 4,86%, a R$ 46,22, figurando entre as piores perdas do Ibovespa, na terceira e quarta posições, respectivamente.
… A bolsa ampliou o movimento recente de realização de lucro, apesar de a Vale ter emplacado alta firme de 2,64% e fechado na máxima do dia, a R$ 89,75, de olho no Irã e no day after do seu relatório trimestral de produção e vendas.
… Entre os principais bancos, Itaú PN caiu de forma moderada (-0,38%, para R$ 46,80), Bradesco PN registrou valorização de 1,97%, a R$ 21,26, BB ON subiu 0,49%, para R$ 24,40, e Santander unit ganhou 0,45% (R$ 31,59).
… Embaladas pelos progressos diplomáticos no Oriente Médio, as bolsas americanas ignoraram o tombo de quase 10% da Netflix, que repercutiu o guidance fraco para o segundo trimestre, apesar do balanço melhor que o esperado.
… De novo, o S&P 500, em alta de 1,20%, aos 7.126,06 pontos, e o Nasdaq, que avançou 1,52%, para 24.468,48 pontos, renovaram os picos históricos de fechamento. O índice Dow Jones subiu 1,79%, aos 49.447,43 pontos.
PREÇO JUSTO? – Para um dia em que o mercado apostou no fim da guerra, dá para dizer que o dólar à vista relaxou muito pouco, só 0,19%, a R$ 4,9833, reforçando as desconfianças de que não vai conseguir cair muito abaixo de R$ 5.
… Na mínima intraday (R$ 4,9508), quis furar R$ 4,95, mas não conseguiu, sugerindo que pode estar perto de um patamar de equilíbrio, em meio à percepção de que o movimento de rotação global de ativos está se esgotando.
… Não houve maior apetite pelo real, apesar da mudança importante na precificação para o Fed.
… Diante das esperanças de um acordo de paz entre os Estados Unidos e o Irã, o mercado voltou a cogitar um corte de juro ainda este ano, em dezembro, muito mais cedo do que o cronograma anterior das apostas (metade de 2027).
… Aqui, apesar de os juros futuros terem queimado prêmio junto com o petróleo, o mercado não se animou a projetar que o Copom vai acelerar o ritmo de corte da Selic para 0,5 pp semana que vem. A cautela prevalece.
… A aposta principal (75%) é de que o BC tem que ir com calma e derrubar o juro em só 0,25 ponto, diante das expectativas inflacionárias, que apontam para rompimento da meta este ano, no cenário agravado pelas eleições.
… Em reportagem do Broadcast, economistas e profissionais de renda fixa disseram que a curva de juros não deve voltar ao nível pré-guerra e enxergam poucos vetores que possam ajudar a aliviar as taxas futuras daqui em diante.
… Mesmo com a normalização do choque do petróleo na sexta-feira, as taxas longas persistem acima dos 13% e a perspectiva de um “pacote de bondades” em ano eleitoral projeta um quadro mais desafiador à política monetária.
… As vitrines populistas do fim da escala de trabalho 6×1, da possível reversão da taxa das blusinhas, do uso do FGTS para quitar dívidas e de outras medidas para reduzir o endividamento das famílias entram no radar de atenção.
… No fechamento da sexta-feira, o DI para Jan/27 caiu a 13,910% (de 14,051% no ajuste anterior); Jan/28, a 13,265% (de 13,485% na véspera); Jan/29, a 13,160% (13,336%); Jan/31, a 13,310% (13,428%); e Jan/33, a 13,420% (13,528%).
ACREDITA DESACREDITANDO – A iniciativa do Irã de reabertura do Estreito de Ormuz enquanto durasse a trégua entre Israel e o Líbano levou o índice DXY do dólar para bem perto do patamar em que estava antes da guerra.
… Mas antes que o dia acabasse, a moeda americana reduziu as perdas, porque não sentiu firmeza em um acordo permanente. O DXY limitou a queda a 0,11%, para 98,098 pontos, com perdas acumuladas de 0,55% na semana.
… O euro recuou 0,11%, a US$ 1,1775, a libra teve baixa de 0,07%, a US$ 1,3526, e o iene subiu a 158,56 por dólar.
… Embora o presidente do BC japonês, Kazuo Ueda, não tenha descartado explicitamente uma elevação dos juros já este mês, a Mizuho Securities avalia que a taxa pode ficar estável até pelo menos junho, em meio às incertezas.
… Na Europa, dois dirigentes do BCE sinalizaram que também não vem alta agora em abril.
… Para Martins Kazaks (presidente do BC Letônia), não é certo que o próximo movimento será de aperto. De seu lado, Martin Kocher (Áustria) recomendou que o BCE não reaja precipitadamente ao conflito no Oriente Médio.
… Em sua avaliação, o BCE não vai tolerar uma trajetória de inflação que fuja à meta de 2%, mas, ao mesmo tempo, não é adequado antecipar medidas preventivas, diante de cenários (de guerra) que podem nem se concretizar.
… Nos Estados Unidos, as taxas dos Treasuries compraram na sexta-feira o alívio das tensões no Oriente Médio. O rendimento da Note de 2 anos recuou a 3,698%, contra 3,777% na véspera, e o de 10 anos, a 4,242% (de 4,310%).
CIAS ABERTAS NO AFTER – Os credores bancários da RAÍZEN apresentaram à empresa uma nova proposta de reestruturação, segundo fontes da Bloomberg…
… Como parte do plano, os credores propõem que 30% dos recursos obtidos com a venda de ativos na Argentina sejam usados para amortizar dívidas e pedem que Ometto (Cosan) seja substituído como presidente do conselho…
… O pedido ecoa uma proposta anterior dos detentores de títulos.
MINERVA fará oferta de debêntures de R$ 1,5 bilhão.
ALLOS flexibilizou acordo de acionistas e liberou venda de ações após diluição do controle.
CAIXA negou compra de carteiras do BRB e disse que já prestou esclarecimentos ao TCU…
… O posicionamento ocorre após o presidente da CAE do Senado, Renan Calheiros (MDB), apresentar dois requerimentos com foco em operações envolvendo o BRB e possíveis conexões com a crise do Banco Master.
ALPARGATAS pagará JCP de R$ 106 milhões (R$ 0,148942/ON e R$ 0,163836/PN) em 15/5.
CEEE-D fará emissão de debêntures de R$ 750 milhões.
CYRELA teve participação da gestora Absolute elevada para 5,31% das ações preferenciais.
GAFISA fará aumento de capital entre R$ 100 milhões e R$ 250 milhões para reduzir endividamento.
BANCO DA AMAZÔNIA lucrou R$ 1,11 bilhão em 2025 (-2,4% a/a).
FICTOR teve recuperação judicial aceita pela Justiça de São Paulo, com proteção contra credores por 180 dias.
AMERICAN AIRLINES negou interesse em fusão com a United Airlines.
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