Ata do Copom – janeiro | Análise PicPay

Ariane Benedito – Economista-Chefe do PicPay

A Ata da 276ª reunião do Copom reforça e aprofunda a sinalização apresentada no comunicado de janeiro, marcando uma inflexão relevante na comunicação ao explicitar que o Comitê julgou adequado sinalizar o início de um ciclo de flexibilização na próxima reunião, condicionado à confirmação do cenário esperado, ao mesmo tempo em que preserva a necessidade de cautela quanto ao ritmo e à magnitude dos ajustes.

No diagnóstico da conjuntura, o Copom reconhece a moderação da atividade econômica em linha com o previsto, mas enfatiza que o mercado de trabalho permanece aquecido, com taxa de desemprego em níveis historicamente baixos e crescimento dos salários reais acima da produtividade. Esse quadro sustenta a leitura de que a inflação de serviços segue resiliente, configurando o principal vetor de atenção na condução prospectiva da política monetária. A Ata reforça que, embora o processo de desinflação esteja em curso, ele ainda é incompleto e requer a manutenção de condições financeiras restritivas.

No campo inflacionário, o Comitê avalia que o IPCA cheio e as medidas subjacentes apresentaram arrefecimento recente, beneficiados por câmbio mais apreciado e por um ambiente de commodities mais benigno. Ainda assim, as expectativas de inflação permanecem desancoradas: a pesquisa Focus aponta 4,0% para 2026 e 3,8% para 2027, acima da meta. No cenário de referência, a projeção do Copom para o IPCA no horizonte relevante (3º trimestre de 2027) é de 3,2%, indicando convergência apenas gradual e reforçando a necessidade de uma postura cautelosa.

O balanço de riscos segue descrito como mais elevado do que o usual. Entre os riscos de alta, o Copom destaca a possibilidade de desancoragem prolongada das expectativas, maior persistência da inflação de serviços e uma combinação de políticas econômicas – domésticas e externas – que gere impactos inflacionários acima do esperado, inclusive via taxa de câmbio. Entre os riscos de baixa, o Comitê menciona uma desaceleração doméstica mais intensa, uma desaceleração global mais pronunciada e quedas adicionais nos preços das commodities. A Ata reconhece alguma redução das incertezas no curto prazo, mas ressalta que o horizonte mais longo segue cercado de elevada incerteza.

A leitura técnica da Ata indica um tom dovish condicional, ao formalizar a intenção de iniciar o ciclo de cortes, combinado com uma âncora de prudência. O Banco Central reforça que a calibragem do ciclo dependerá da evolução da inflação prospectiva, especialmente de serviços, do comportamento do mercado de trabalho, das expectativas e do câmbio. Mantemos nossa avaliação de que o Copom deverá iniciar o ciclo de flexibilização na próxima reunião, com um corte inicial de 0,50 p.p., seguido por um processo gradual e cuidadosamente calibrado.

Giro das 15h: Ibovespa avança com Vale e fluxo gringo; NY recua com big techs

O Ibovespa (+1,35%, aos 185.263 pontos) se afastou da nova máxima histórica (187.333 pontos) registrada mais cedo, mas segue em alta nesta tarde.

O índice é embalado principalmente pelas ações da Vale ON (+3,63%).

Operadores relatam a continuidade da entrada de fluxo estrangeiro, após a Ata do Copom divulgada pela manhã confirmar que o BC deve mesmo iniciar os cortes de juros em março.

O dólar à vista recua 0,52%, para R$ 5,2319, e os juros futuros devolvem prêmios, especialmente na ponta longa (DI Jan/27 a 13,420%; Jan/33 a 13,275%).

Em NY, as bolsas operam no vermelho (Dow Jones -0,74%; S&P500 -1,11%; Nasdaq -1,76%), com investidores cautelosos com a votação do shutdown na Câmara

Eles também liquidam posições principalmente em big techs (Nvidia -3,37%; Microsoft -3,3%).

Europa: Bolsas fecham majoritariamente em baixa, em linha com NY, de olho na geopolítica

As principais bolsas europeias fecharam majoritariamente em baixa nesta 3ªF, seguindo o movimento visto em NY.

Isso aconteceu por conta do mau humor com as empresas de tecnologia, após os ganhos na sessão de ontem.

No campo geopolítico, Zelensky acusa a Rússia de “esperar os dias mais frios” para realizar o ataque “mais potente do ano” nesta madrugada.

A ação envolveu 71 mísseis e 450 drones e foi realizada poucas horas antes da chegada à Ucrânia do secretário-geral da Otan, Mark Rutte.

Na esfera comercial, a UE anunciou que oferecerá aos EUA uma parceria em minerais críticos para contrabalançar a China.

Entre os setores, destaque para as gigantes da mineração listadas em Londres, com a Rio Tinto que subiu 2,3%; Anglo American teve alta de 4,1% e Antofagasta avançou 3,4%, em meio a negociações.

Os mercados também se ajustam à recuperação dos metais preciosos. Há pouco, o ouro para abril tinha alta de 7,85%.

No fechamento: Londres -0,26%; Frankfurt -0,07%; Paris -0,02%; e Stoxx 600 estável, aos 617,31 pontos.