Resumo semanal: 02/03/2026 a 06/03/2026

Por Matheus Gomes de Souza, CEA

1. Cenário global e geopolítica

A ofensiva militar contra o Irã evoluiu rapidamente, com bombardeios contínuos, retaliações regionais e ameaças explícitas ao tráfego no Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de 20% do petróleo global. Apesar de declarações americanas de que a via permaneceria aberta, o risco operacional se materializou: seguradoras elevaram prêmios, navios evitaram a passagem e parte da oferta foi interrompida. O discurso de Washington oscilou entre contenção e endurecimento, incluindo a promessa de escolta naval e seguros subsidiados, o que trouxe alívio parcial, mas não dissipou a incerteza.

Ao longo da semana, o conflito deixou de ser tratado como evento pontual e passou a ser precificado como choque persistente, ainda que de duração incerta. O envolvimento indireto de outros produtores, a interrupção parcial no Iraque e a reorganização das rotas sauditas reforçaram a leitura de risco sistêmico. A retórica de mudança de regime no Irã, somada às tensões políticas internas nos EUA, aumentou a percepção de cauda negativa, mantendo os mercados em regime defensivo até o encerramento da semana.

2. Política monetária e inflação

Nos Estados Unidos, os dados de fevereiro mostraram destruição líquida de empregos não agrícolas (-92 mil) e alta da taxa de desemprego para 4,4%, além de queda das vendas no varejo em janeiro. Em condições normais, esse conjunto reforçaria o argumento pró-corte de juros. Contudo, a disparada do petróleo e o risco de repasse inflacionário deslocaram o foco do Fed novamente para a estabilidade de preços. Dirigentes reforçaram cautela, e o mercado passou a postergar a expectativa de cortes, migrando majoritariamente de julho para setembro.

Na Europa, o crescimento do PIB do 4º trimestre foi revisado para baixo (0,2%), confirmando uma recuperação lenta e frágil. Ainda assim, o BCE manteve postura vigilante, diante do risco de inflação importada via energia. No Brasil, apesar do alívio nos índices de preços no atacado, com o IGP-DI registrando deflação de 0,84% em fevereiro, o choque externo contaminou a curva de juros. A combinação entre IPCA-15 acima do esperado e petróleo mais caro tornou o Copom mais dependente do cenário internacional, elevando a probabilidade de um início de ciclo mais cauteloso.

3. Brasil: Macro, fiscal e política

Do lado macroeconômico, o PIB do 4º trimestre confirmou desaceleração, com alta marginal de 0,1%, enquanto a produção industrial surpreendeu positivamente em janeiro, com avanço de 1,8%, impulsionada por bens duráveis. O mercado de trabalho começou a mostrar inflexão, com a taxa de desemprego subindo para 5,4%. Esses dados reforçaram a leitura de esfriamento gradual da economia, mas sem ruptura, mantendo aberta a porta para cortes de juros, ainda que sob maior cautela.

No campo político e institucional, o caso envolvendo o Banco Master ganhou contornos mais graves, com prisões, denúncias de corrupção e questionamentos sobre a atuação de órgãos reguladores, elevando o prêmio de risco institucional. Paralelamente, decisões judiciais envolvendo quebras de sigilo e tensões entre os Poderes aumentaram a percepção de instabilidade política em ano eleitoral. No fiscal, não houve anúncios estruturais relevantes, mas propostas de expansão de programas sociais e debates eleitorais mantiveram o pano de fundo de cautela.

4. Mercados financeiros

No exterior, as bolsas americanas oscilaram intensamente, com setores sensíveis à energia e transporte penalizados, enquanto ações de defesa e petróleo se beneficiaram. O petróleo Brent acumulou alta expressiva ao longo da semana, testando níveis acima de US$ 85/barril, apesar de recuos pontuais com declarações de contenção. Os Treasuries voltaram a ser demandados como proteção, mas com prêmios pressionados pela inflação potencial.

No Brasil, o Ibovespa sofreu realização relevante após forte entrada de capital estrangeiro nos meses anteriores, com saídas pontuais de fluxo e quedas concentradas em bancos e commodities metálicas. O câmbio refletiu a aversão ao risco global, com o dólar se valorizando de forma consistente ao longo da semana. A curva de juros inclinou, precificando Selic terminal mais alta e maior incerteza quanto ao ritmo do afrouxamento. No mercado corporativo, balanços relevantes não foram suficientes para mudar o tom macro, com exceção de movimentos específicos em petróleo, varejo e empresas em reestruturação.

Síntese da Semana

▪️ A guerra entre EUA, Israel e Irã tornou-se o principal vetor macro, com o petróleo assumindo papel central na reprecificação de risco global.
▪️ O choque inflacionário potencial via energia reduziu o espaço para discursos dovish, mesmo diante de sinais de desaceleração da atividade e enfraquecimento do emprego.
▪️ No Brasil, dados mistos de atividade e inflação perderam protagonismo frente ao cenário externo e ao aumento do ruído político-institucional.
▪️ Os mercados encerraram a semana em regime defensivo, com maior volatilidade, prêmios elevados e dependência crítica da evolução geopolítica no Oriente Médio.

Giro das 12h: Ibovespa oscila com tensões geopolíticas e nova escalada do petróleo

Petroleiras estão entre as maiores altas e as mais negociadas do pregão

O Ibovespa oscilou muito pela manhã, fazendo mínima de 178.607,05 e máxima de 181.091,01, mas há pouco cedia 0,62% (179.353,95).

Este é mais um dia de liderança das petrolíferas (Brava +3,82%, Petrobras ON +3,64%; Petrobras PN +3,27%; PetroRecôncavo +0,54% e Prio +4,76%).

Essas ações são apoiadas pela nova escalada nos preços do petróleo (entre 7% e 9%), que sobem com os conflitos no Oriente Médio e elevam as perspectivas para a inflação global.

Apesar da leitura do mercado de trabalho norte-americano ter agitado as apostas de flexibilização do Fed, a incerteza da guerra falou mais alto.

A insegurança se agravou com as previsões do Catar de preços do petróleo em US$ 150 o barril “em duas ou três semanas”, além da paralisação do Estreito de Ormuz da atitude de Trump descartando acordo. 

O dólar oscilou contra o real, há pouco se estabilizando a R$ 5,2869, assim como o DXY, que se mantém acima dos 99,306 pontos (-0,01%). 

Os rendimentos dos Treasuries passaram a cair logo após dados inesperadamente fracos sobre emprego e vendas no varejo aumentarem as preocupações sobre a força da economia americana.

Há pouco voltavam a subir na ponta mais longa. Em NY, as bolsas aprofundam a baixa. Dow Jones cai -1,75%; S&P 500 -1,47% e Nasdaq -1,70%.

Abertura: Dólar vira e juros sobem com crescente tensão no Oriente Médio

O dólar inverteu o sinal ante o real há pouco, a R$ 5,2760 (-0,21%), após máxima de R$ 5,3195, e os juros futuros reduziram alta, agora sobem entre 10 e 15 pontos.

O mercado está sob o estresse de mais um aumento nos preços do petróleo (entre 4% e 6%) por temor de que o conflito no Oriente Médio esteja impulsionando a inflação.

O DXY se estabiliza (+0,05%) em nível alto (99,363) e os rendimentos dos Treasuries sobem, com o de 10 anos a 4,16%, a caminho de registrar seu maior aumento semanal desde abril (quase 20pb).

Os ataques continuam de um lado e de outro e o tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz está praticamente paralisado.

O ministro da Energia do Catar declarou ao FT que o conflito pode levar os preços do petróleo a se aproximarem de US$ 150 por barril.

Os investidores aguardam o payroll logo mais para obter mais sinais sobre o mercado de trabalho norte-americano.

Aqui, a produção industrial brasileira cresceu 1,8% em janeiro, com a queda mais intensa de dezembro de 2025 (-1,9%, revisado de -1,2%).