Petróleo sobe forte com dúvidas sobre acordo de paz em meio a novos ataques de Israel ao Irã

Os contratos futuros de petróleo tiveram mais um dia de forte alta, reagindo às preocupações com os desdobramentos da guerra no Irã, que hoje completa um mês.

Enquanto os EUA esperam uma resposta do regime à proposta de cessar-fogo, dois navios porta-contêineres chineses foram barrados ao tentar atravessar o Estreito de Ormuz, segundo a empresa de rastreamento MarineTraffic.

A avaliação do mercado é de que a decisão de Trump de conceder ao Irã uma prorrogação de dez dias para aceitar um acordo e reabrir Ormuz, de importância vital para o fluxo da commodity, não conseguiu acalmar as preocupações com o abastecimento.

A tensão se agravou hoje após o ministro das relações exteriores do Irã, Abbas Araghchi, dizer que os ataques recentes de Israel a usinas de energia, entre outras, ferem o prazo estendido por Trump para a diplomacia.

No fechamento, o contrato do Brent para maio subiu 4,22%, a US$ 112,57 por barril na ICE, enquanto o WTI para o mesmo mês avançou 5,46%, a US$ 99,64 por barril na Nymex – valor mais alto desde julho de 2022. No acumulado da semana, as variações são positivas em 0,40% e 1,44%, respectivamente.

Resumo semanal: 23/03 a 27/03

Por Matheus Gomes de Souza, CEA

1. Cenário global e geopolítica

A semana foi dominada pela escalada e posterior oscilação das narrativas em torno da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, com impacto direto sobre os mercados globais. O conflito entrou na quarta semana sem resolução clara, alternando ameaças de ofensiva terrestre, riscos de fechamento do Estreito de Ormuz e tentativas diplomáticas frágeis lideradas por Washington. O adiamento sucessivo dos prazos impostos por Trump ao Irã reforçou a percepção de impasse, aumentando a volatilidade e reduzindo a credibilidade das sinalizações políticas.

O preço do petróleo refletiu essa instabilidade, com movimentos extremos ao longo da semana. O Brent chegou a superar US$ 112, recuou abaixo de US$ 100 com rumores de cessar-fogo e voltou a subir acima desse patamar diante da falta de avanços concretos. A incerteza sobre fluxos energéticos no Golfo Pérsico manteve elevado o prêmio de risco geopolítico, com alertas de organismos internacionais sobre impactos persistentes na inflação global e no crescimento econômico caso o conflito se prolongue.

2. Política monetária e inflação

O choque do petróleo recolocou a inflação no centro das preocupações dos principais bancos centrais. Nos EUA, a guerra elevou o viés hawkish implícito, com o mercado voltando a precificar a possibilidade de alta de juros ainda em 2026, apesar de discursos pontuais mais dovish. Na Europa, dados como a inflação espanhola de 3,3% em março evidenciaram a reversão do processo desinflacionário, reforçando a cautela do BCE e aumentando as apostas de aperto monetário.

No Brasil, a ata do Copom confirmou a leitura de que o comitê iniciou o ciclo de afrouxamento com extremo conservadorismo, tratando o petróleo elevado como um choque ainda incerto. O ajuste marginal da projeção do IPCA no horizonte relevante (3,2% para 3,3%) foi visto como otimista por parte do mercado, especialmente diante da alta dos combustíveis. A comunicação de Galípolo reforçou a dependência total do cenário externo, mantendo todas as opções abertas para abril e ancorando as expectativas de cortes adicionais apenas se houver alívio consistente no front geopolítico.

3. Brasil: Macro, fiscal e política

No campo macroeconômico, os dados de emprego mostraram sinais iniciais de acomodação. A taxa de desemprego subiu para 5,8% no trimestre encerrado em fevereiro, ainda em mínima histórica para o período, enquanto o rendimento real médio atingiu novo recorde. O BC destacou que o mercado de trabalho segue apertado, com riscos inflacionários associados, mas reconheceu possíveis efeitos defasados da política monetária restritiva sobre a atividade.

No fiscal, o governo revisou significativamente para baixo a projeção de superávit primário, aproximando o resultado do piso da meta. Medidas emergenciais para mitigar o impacto da alta do diesel (como subvenções diretas e desonerações) ampliaram as preocupações com a trajetória das contas públicas. No plano político, o ambiente seguiu carregado, com ruídos institucionais, avanço de investigações sensíveis e pesquisas eleitorais indicando deterioração da popularidade do governo, adicionando prêmio de risco doméstico aos ativos.

4. Mercados financeiros

Os mercados globais operaram em regime de alta volatilidade, com rotações abruptas entre ativos de risco e proteção conforme as manchetes da guerra. Em Wall Street, os principais índices alternaram fortes altas e quedas, com o Nasdaq entrando em território de correção técnica. O dólar se fortaleceu globalmente em momentos de aversão ao risco, enquanto os Treasuries registraram alta relevante nos yields, refletindo preocupações inflacionárias persistentes.

No Brasil, o Ibovespa acompanhou o humor externo, com movimentos intensos ao longo da semana e forte sensibilidade às oscilações do petróleo. Petrobras voltou a exercer papel central na dinâmica do índice, enquanto bancos e empresas cíclicas sofreram nos momentos de estresse. O câmbio refletiu tanto o ambiente externo quanto riscos locais, e a curva de juros permaneceu altamente volátil, ajustando rapidamente as expectativas para o ritmo e a magnitude do ciclo de cortes da Selic.

Síntese da Semana

Ouro fecha em alta, mas engata quarta semana consecutiva de perdas diante da guerra no Irã

O ouro subiu nesta 6ªF, pelo segundo dia consecutivo, mas a recuperação não foi capaz de reverter a quarta perda semanal – período correspondente à duração da guerra no Irã até agora.

Segundo especialistas, a valorização vista hoje ocorreu com investidores aproveitando as quedas recentes, mas os ganhos ainda seguem limitados em função das expectativas de manutenção ou até aumento dos juros nos EUA.

Tal cenário se dá por conta das preocupações com a inflação, visto que o petróleo segue em escalada frente às incertezas com o conflito no Oriente Médio.

Entre os temores do mercado está uma possível invasão dos americanos por terra no Irã, agravando ainda mais a disputa militar.

No fechamento, o contrato do ouro para abril subiu 2,66% na Comex, cotado a US$ 4.492,50 por onça-troy, acumulando perda de 1,80% na semana.