Europa: Bolsas caem pela 3ª semana consecutiva com pressão da guerra no Irã
As principais bolsas europeias fecharam em baixa, com a guerra dos EUA e Israel contra o Irã completando hoje a terceira semana.
Pela manhã, os preços do petróleo tipo Brent ultrapassaram a faixa de US$ 111 o barril e, há pouco, o WTI negociava perto de US$ 98,00.
O movimento ocorre apesar de o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, ter afirmado que Washington pode suspender as sanções ao petróleo bruto iraniano armazenado em navios-tanque.
Trata-se de uma tentativa de conter os custos de energia.
As preocupações inflacionárias e incertezas quanto aos desdobramentos do conflito no Oriente Médio trouxeram cautela aos bancos centrais do continente ontem.
As autoridades monetárias mantiveram os juros e o Reino Unido deixou no ar um alerta de possível endurecimento da política monetária, se necessário.
O chefe da AIE, Fatih Birol, afirmou que a guerra “causou o mais grave choque energético de todos os tempos”.
Ele alertou que o restabelecimento total do fluxo de petróleo e gás no Golfo Pérsico “pode levar seis meses ou mais”.
Enquanto isso, Trump mobiliza mais tropas para a região e acusa os países da Otan, os quais chamou de “covardes” por falta de envolvimento.
No fechamento: Londres -1,44%, com perda de 3,56% na semana; Frankfurt -1,94%; Paris -1,82%.
Stoxx 600 -1,78%, aos 573,28 pontos, com as três últimas acumulando as seguintes variações semanais, respectivamente: -4,88%, -4,10% e -3,79%. Foi a terceira semana seguida de perdas.
Resumo semanal: 16/03/2026 a 20/03/2026
Por Matheus Gomes de Souza, CEA
1. Cenário global e geopolítica
O conflito no Oriente Médio entrou em fase mais intensa, com ataques diretos a infraestrutura energética do Irã e retaliações contra alvos estratégicos na região, elevando o risco de interrupção prolongada do fluxo pelo Estreito de Ormuz, responsável por cerca de 20% do petróleo global. Ao longo da semana, o Brent oscilou violentamente, chegando a testar níveis próximos de US$ 120, refletindo a percepção de escassez e a dificuldade de coordenação internacional para garantir a navegação. A hesitação de aliados dos EUA em prover escolta naval reforçou a leitura de que qualquer normalização logística seria lenta e parcial.
Na reta final, declarações de Benjamin Netanyahu e movimentos táticos dos EUA (como a liberação temporária de vendas de petróleo russo e a ampliação do uso de reservas estratégicas pela AIE) ajudaram a conter o estresse, mas sem restaurar confiança estrutural. O mercado terminou a semana precificando que a guerra ainda não está resolvida, com volatilidade elevada como regime dominante. A melhora pontual no humor foi interpretada mais como correção técnica após forte rali do petróleo do que como mudança efetiva de cenário geopolítico.
2. Política monetária e inflação
O Federal Reserve manteve os juros, mas Powell foi explícito ao descartar cortes enquanto durar o conflito e a desinflação não avançar, admitindo inclusive que a hipótese de aperto foi discutida. O mercado reagiu empurrando expectativas de flexibilização para horizontes muito mais longos, com redução do número de cortes precificados. BCE, BoE e BoJ também optaram pela manutenção das taxas, com comunicação mais cautelosa; no Reino Unido, o voto unânime reforçou a leitura de viés mais restritivo à frente. O choque do petróleo consolidou‑se como risco inflacionário relevante nas economias centrais.
No Brasil, o Copom cortou a Selic em 0,25 pp, contrariando parte do mercado que flertava com pausa. O ponto central foi a sinalização implícita de continuidade do ciclo, sustentada por projeção de inflação surpreendentemente benigna para o 3T27 (3,3%). A decisão foi lida como aposta do BC na transmissão do aperto monetário acumulado e na desaceleração da atividade, mesmo com o petróleo acima de US$ 100. A assimetria entre o conservadorismo global e a postura relativamente dovish do Copom marcou a semana e reabriu o debate sobre credibilidade e balanço de riscos.
3. Brasil: Macro, fiscal e política
A alta do petróleo pressionou expectativas de inflação doméstica, elevando projeções do IPCA e reduzindo o espaço para cortes mais agressivos da Selic ao longo do ano. O reajuste do diesel pela Petrobras e a ameaça de greve dos caminhoneiros adicionaram risco inflacionário e logístico, forçando o governo a reagir com medidas paliativas, como reforço do piso do frete e discussões sobre ICMS. A suspensão temporária da paralisação trouxe alívio tático, mas não eliminou a fragilidade do equilíbrio entre preços administrados e política fiscal.
No campo político, a confirmação da saída de Fernando Haddad da Fazenda para disputar o governo de São Paulo e a nomeação de Dario Durigan elevaram a sensibilidade do mercado ao tema fiscal em ano eleitoral. Paralelamente, o caso Banco Master seguiu reverberando, travando o avanço do PL de resolução bancária e reacendendo debates sobre autonomia do BC. O pano de fundo foi de aumento da incerteza institucional justamente no momento em que o país testa o início de um ciclo de flexibilização monetária em ambiente externo adverso.
4. Mercados financeiros
No exterior, Wall Street mostrou resiliência relativa no início da semana, mas perdeu fôlego após o tom hawkish de Powell e novas altas do petróleo. Setores sensíveis a juros e custos de energia sofreram, enquanto o dólar global alternou força e fraqueza conforme variavam as apostas sobre política monetária e guerra. A curva de Treasuries refletiu maior prêmio de risco inflacionário, consolidando a leitura de juros altos por mais tempo.
No Brasil, a curva de juros teve movimentos bruscos, com forte atuação do Tesouro para conter estresse e inclinação dos vértices longos diante do cenário global. O câmbio oscilou em linha com o DXY e com o noticiário geopolítico, mantendo‑se relativamente comportado graças ao fluxo estrangeiro positivo. A bolsa alternou quedas e recuperações, com desempenho setorial muito disperso: Petrobras acompanhou o petróleo, bancos reagiram ao Copom e empresas mais alavancadas sofreram com o ambiente de incerteza. O saldo final foi de mercado defensivo, seletivo e altamente dependente de manchetes.
Síntese da Semana
▪️ O conflito no Irã consolidou o petróleo como principal vetor de risco macro global, impondo volatilidade extrema e deteriorando o balanço inflacionário.
▪️ Bancos centrais globais reforçaram postura cautelosa, enquanto o Copom destoou ao iniciar o ciclo de cortes, apostando na desaceleração doméstica.
▪️ No Brasil, combustíveis, risco fiscal e transição política ampliaram a sensibilidade dos ativos, exigindo intervenções para estabilizar mercados.
▪️ O regime predominante ao final da semana foi de incerteza elevada, com alívios pontuais vistos mais como correções técnicas do que como mudança estrutural de cenário.
Bolsas asiáticas fecham mistas em meio à volatilidade do petróleo
As bolsas asiáticas fecharam sem direção única, com os investidores lidando com a forte volatilidade do petróleo, impulsionada pela escalada das tensões no Oriente Médio, enquanto a China manteve inalteradas suas taxas de juros.
O KOSPI da Coreia do Sul subiu 0,31%, pelos ganhos do setor de tecnologia e, no Japão, feriado nacional fechou os mercados. Na China, Xangai caiu -1,24% e o Shenzhen, -0,25%. O Hang Seng de Hong Kong caiu 0,88%.
O BC chinês manteve suas taxas inalteradas, com a taxa de empréstimo de um ano mantida em 3% e a de cinco anos, que influencia o preço das hipotecas, em 3,50%, em linha com as expectativas do mercado.
Em Taiwan, o Taiex caiu -0,43%.