Mercado compra a trégua no Oriente Médio
Por Rosa Riscala e Mariana Ciscato
… Com feriados nos Estados Unidos (Memorial Day), no Reino Unido, Alemanha e parte da Ásia, a liquidez é mais reduzida nesta segunda-feira, enquanto o mercado tende a sustentar a expectativa de um acordo próximo entre os Estados Unidos e o Irã, que seguiu em negociação no fim de semana. No início dos negócios, o Brent operava abaixo de US$ 100, antecipando a reabertura do Estreito de Ormuz. Ao mesmo tempo, investidores aguardam pela agenda de peso nos próximos dias, com IPCA-15, PIB brasileiro, dados de emprego e números fiscais por aqui, e, nos Estados Unidos, a segunda leitura do PIB/1TRI e, principalmente, o PCE de abril – a medida de inflação preferida do Fed.
TRÉGUA EM NEGOCIAÇÃO – O mercado inicia a semana comprando a tese de descompressão no Oriente Médio, após sequência de reportagens indicar avanço nas negociações entre Estados Unidos e Irã para reabrir o Estreito de Ormuz e ampliar o cessar-fogo por mais 60 dias.
… Segundo o NYT, Axios e agências internacionais, os dois lados já teriam chegado a um entendimento preliminar envolvendo a retomada gradual da navegação em Ormuz, autorização para o Irã voltar a exportar petróleo e abertura de negociações sobre o programa nuclear iraniano.
… O esboço do acordo também incluiria o compromisso de Teerã de discutir a redução do estoque de urânio altamente enriquecido, além da remoção de minas implantadas no estreito durante o conflito, embora pontos centrais ainda permaneçam sem definição.
… Entre esses pontos mais sensíveis, estariam o destino do material nuclear iraniano, o eventual desbloqueio de ativos congelados no exterior e a exigência americana de limitar o enriquecimento de urânio no longo prazo.
… O tom das autoridades, porém, continua longe de sugerir um acordo fechado.
… Donald Trump afirmou neste domingo que as negociações avançam de forma “profissional e produtiva”, mas ressaltou que o entendimento “ainda não foi totalmente negociado” e orientou seus representantes a “não se apressarem”.
… O presidente americano também reforçou que o bloqueio seguirá “em pleno vigor” até que um acordo seja alcançado, certificado e assinado, numa tentativa de conter a percepção de que a guerra estaria perto de um encerramento definitivo.
… Do lado iraniano, autoridades e veículos estatais da mídia mantiveram o discurso cauteloso, afirmando que ainda existem divergências importantes no texto e negando que exista um acordo finalizado.
… Já o governo de Israel elevou o tom.
… Benjamin Netanyahu voltou a afirmar que qualquer pacto definitivo precisará eliminar completamente o risco nuclear iraniano, incluindo o desmonte das instalações de enriquecimento e retirada do urânio enriquecido do território iraniano.
… Ainda assim, o noticiário do fim de semana foi suficiente para sustentar a percepção de que o mercado continua inclinado a trabalhar com um cenário de redução gradual das tensões, especialmente em um pregão de liquidez mais fraca no feriado do Memorial Day.
QUANTO CAI O PETRÓLEO? – Em meio às negociações, o diretor do Conselho Econômico Nacional da Casa Branca, Kevin Hassett, afirmou neste domingo que um eventual acordo com o Irã poderia provocar forte queda nos preços de energia.
… Com isso, ele completou, a inflação terá alívio, abrindo espaço para o Federal Reserve voltar a cortar juros.
… Segundo Hassett, o mercado já começou a operar essa possibilidade, diante da expectativa de reabertura do Estreito de Ormuz e do retorno de uma grande quantidade de petróleo represado ao mercado internacional.
… O assessor de Donald Trump afirmou que existe capacidade ociosa relevante de produção na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes e disse esperar que gasolina e petróleo “surpreendam para baixo” assim que o fluxo em Ormuz for normalizado.
… Na abertura do mercado asiático, o petróleo antecipava um desfecho e afundava, com o Brent negociado a US$ 99,06 (-4,33%).
FLÁVIO AINDA É COMPETITIVO – O primeiro Datafolha após o “Flávio Day 2.0” mostrou perda de fôlego do senador Flávio Bolsonaro, mas sem produzir, ao menos por enquanto, um colapso da candidatura que o mercado chegou a temer ao longo da semana.
… Na pesquisa divulgada na sexta-feira, Lula abriu nove pontos de vantagem sobre Flávio no primeiro turno, 40% a 31%, enquanto no segundo turno o petista aparece numericamente à frente, com 47% a 43%, ainda em cenário de empate técnico dentro da margem de erro.
… A leitura predominante no mercado foi menos negativa do que se imaginava, principalmente porque o desempenho no segundo turno preserva a percepção de competitividade da direita em 2026, mesmo após a crise envolvendo Daniel Vorcaro e o filme “Dark Horse”.
… Analistas políticos, porém, avaliam que o desgaste ainda pode continuar, já que cerca de um terço do eleitorado afirma não conhecer o caso, enquanto a rejeição de Flávio começou a subir e já se aproxima da rejeição de Lula.
… Outro ponto que chamou atenção foi a ausência de migração relevante de votos para nomes como Romeu Zema e Ronaldo Caiado, mantendo a oposição fragmentada e reforçando a percepção de que Flávio continua sendo o principal polo competitivo do campo conservador.
… Também na sexta-feira, a pesquisa Futura/Apex reforçou essa leitura ao mostrar Lula com 47,7% contra 42,2% de Flávio no segundo turno, em um cenário ainda apertado, apesar da deterioração recente da imagem do senador.
O APOIO DE TRUMP – Em meio à tentativa de reorganizar a narrativa da campanha, Flávio Bolsonaro deve embarcar nesta segunda-feira para os Estados Unidos, onde busca uma reunião com Donald Trump, ainda não confirmada pela Casa Branca.
ESCALA 6X1 – A Câmara entra em uma semana decisiva para a PEC que reduz a jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas e prevê o fim da escala 6×1, com expectativa de votação do parecer na comissão especial e avanço do texto ao plenário nos próximos dias.
… O presidente da Câmara, Hugo Motta, deve se reunir com Lula ainda hoje, antes da apresentação do relatório para tentar fechar os pontos ainda em aberto, especialmente as regras de transição para adaptação das empresas.
… O relator da proposta, deputado Leo Prates, pretende apresentar o parecer no final da tarde, às 17h, com previsão de votação na comissão até amanhã, terça-feira, e tentativa de levar a proposta ao plenário até quinta-feira.
… A tendência é que o texto da emenda seja mais enxuto, prevendo apenas a redução da jornada, dois dias de descanso e manutenção dos salários, enquanto detalhes setoriais e regras específicas ficariam para regulamentação posterior em projeto de lei.
… Lula voltou a defender uma implementação imediata da mudança, afirmando que a redução da jornada “não trará prejuízo” e que o trabalhador ficará “mais descansado”, embora tenha reconhecido que o governo precisará negociar o formato final com o Congresso.
CURTAS DA POLÍTICA – Enquanto a Câmara se dedica ao fim da escala 6 x 1, no Senado, a pauta desta semana é esvaziada.
… Entre os destaques nas comissões, a CAE analisa o projeto de renegociação das dívidas do agronegócio, enquanto a Comissão de Segurança Pública debate mudanças na legislação de combate à lavagem de dinheiro, ampliando o alcance das regras para incluir partidos políticos.
… Já a Comissão de Assuntos Sociais deve votar, em caráter terminativo, proposta que altera o salário mínimo de médicos e cirurgiões-dentistas.
… Na agenda do Executivo, Lula participa nesta segunda-feira da abertura do 1º Fórum de Reitores Brasil-África, em Brasília, ao lado do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e do ministro da Educação, Leonardo Barchini.
MAIS AGENDA – A semana será mais curta nos mercados internacionais por causa dos feriados, mas concentra indicadores importantes de inflação e atividade aqui e no exterior, num momento em que investidores seguem sensíveis ao comportamento dos juros americanos.
… No Brasil, o foco principal ficará sobre o IPCA-15 de maio, na quarta-feira, especialmente na dinâmica de serviços e dos núcleos de inflação, pontos que seguem no radar do Banco Central após o discurso mais cauteloso do Copom.
… A agenda doméstica também traz a Pnad Contínua na quinta-feira e o PIB do primeiro trimestre na sexta-feira, além da divulgação dos números do Caged de abril. A expectativa é de aceleração da atividade após a estabilidade observada no fim de 2025.
… Na agenda do BC, o boletim Focus (8h25) e o Relatório de Estabilidade Financeira (8h) abrem a semana hoje, com entrevista coletiva de Gabriel Galípolo e diretores da autoridade monetária (Ailton de Aquino e Paulo Picchetti), às 11h.
… Amanhã, terça-feira, saem os dados do setor externo; na quarta, estatísticas de crédito; e, na quinta-feira, números fiscais de abril e a taxa de desemprego do trimestre até abril, com expectativa de recuo para 5,9%.
… Ainda hoje, o ministro da Economia, Dario Durigan, participa em São Paulo do lançamento do 5º leilão do Eco Invest Brasil.
BALANÇO – No finalzinho da temporada, o destaque da segunda-feira fica para os números da São Martinho, após o fechamento do mercado.
NOS ESTADOS UNIDOS – O grande destaque será a quinta-feira, quando saem a segunda leitura do PIB americano do primeiro trimestre, os números de renda e gastos pessoais e, principalmente, o índice de preços PCE de abril, medida de inflação preferida do Fed.
… Os dados ganham peso adicional após as últimas leituras mais fortes de inflação ao consumidor e ao produtor nos Estados Unidos, que reforçaram o discurso mais duro de dirigentes do BC e aumentaram as apostas de juros elevados por mais tempo.
… A semana ainda traz ata do BCE, CPI preliminar da Alemanha, decisão de juros na Coreia do Sul e novos discursos de Fed boys.
NÃO CAIU DO CAVALO – Com o “efeito Dark Horse” provando-se menos impactante do que se imaginava na Datafolha para Flávio, em empate técnico com Lula no 2º turno, os juros futuros domésticos moderaram a pressão.
… A ponta longa do DI esvaziou os ganhos e zerou o estresse, com a melhora atribuída à redução do risco eleitoral e fiscal, na medida em que o mercado financeiro tem uma percepção mais expansionista em relação ao governo Lula.
… Apesar de na sexta o bloqueio de R$ 23,7 bilhões no Orçamento no relatório bimestral de receitas e despesas ter superado o esperado, o número foi apenas monitorado pelos investidores, sem influência direta sobre a curva.
… Perto dos ajustes, o contrato de juro para Janeiro de 2031 passou de 14,012% para 14,000% e o Jan/33 caiu a 14,085% (contra 14,120% no pregão da véspera). Os demais vencimentos subiram, mas se afastaram das máximas.
… O trecho curto ainda avançou, porque foi surpreendido pelo comentário de Christopher Waller, que mesmo sendo um dos dirigentes mais dovish do Fed, admitiu na sexta que não há a menor chance de os juros caírem este ano.
… Mas ele enfatizou que é uma “loucura” falar em alta de juros num futuro próximo, enquanto o mercado não para de antecipar as apostas de aperto monetário, agora concentradas em outubro, contra dezembro um dia antes.
… Além da surpresa com a mudança de postura de Waller, descartando um corte este ano, outra novidade do noticiário na sexta-feira foi o passe livre de Trump para o novo presidente do Fed agir com independência.
… “Não olhe para mim; faça o que quiser”, disse Trump, durante a posse de Kevin Warsh.
… Aqui, causou curiosidade o fato de, na reunião periódica com economistas, os diretores do BC Paulo Picchetti e Nilton David terem feito perguntas aos profissionais presentes, o que é bastante incomum neste tipo de encontro.
… Fontes do Valor relataram que o BC deu atenção especial às estimativas de inflação para 2028. “Perguntaram sobre como a projeção para os preços do petróleo estaria afetando a projeção para o IPCA neste prazo.”
… A percepção que ficou é que, se a projeção de 2028 no relatório Focus não piorar mais, o BC pode continuar seu ciclo de corte de juros. Já se houver deterioração nesse prazo mais longo, a autoridade limitaria a flexibilização.
… Também o petróleo em alta contribuiu para manter os juros futuros de curto prazo ainda sustentados na sexta-feira: Jan/27 marcou 14,115% (de 14,043% na véspera); Jan/28, 13,885% (de 13,802%); e Jan/29, 13,895% (13,844%).
… Sem segurança sobre se haveria progressos diplomáticos entre os Estados Unidos e o Irã durante o fim de semana, o contrato do Brent para julho subiu 0,93%, a US$ 103,54, mas caiu 5% na semana, na torcida por um acordo.
MUITO ESPUMA – Na dúvida se uma proposta de paz avançaria nas próximas horas, o câmbio doméstico preferiu não ficar desprotegido. Além disso, o conservadorismo inusitado de Waller levou o dólar a fazer o hedge.
… A moeda norte-americana negociada no mercado à vista fechou em alta de 0,55%, cotada a R$ 5,0282.
… Lá fora, faltou fôlego para o índice DXY do dólar (-0,02%, a 99,239 pontos), porque o euro caiu com Lagarde evitando sinalizar uma alta do juro na reunião de junho do BCE, apesar de a guerra ainda não ter tido um desfecho.
… Segundo ela, na véspera da próxima decisão de política monetária, que acontece dia 11, serão divulgadas projeções de inflação e só então é que serão decididas as medidas necessárias para manter os preços na meta de 2%.
… A estimativa atual no mercado aponta inflação de 2,6% este ano, com retorno ao alvo apenas em 2027.
… O euro, que contava antecipadamente com um aperto do juro, recuou 0,13%, para US$ 1,1610. A libra esterlina fechou praticamente estável, em leve alta de 0,08%, valendo US$ 1,3441, e o iene caiu para 159,16 por dólar.
… A sinalização de Waller de juros mais altos por mais tempo pelo Fed sustentou as taxas da Note-2 anos (a 4,122%, contra 4,059% na véspera) e 10 anos (4,559%, de 4,555%). Só a do T-Bond de 30 anos caiu, a 5,066% (de 5,082%).
… O sinal verde de Trump para Kevin Warsh fazer “o que quiser” no comando do Fed foi lido pelas bolsas norte-americanas pela ótica de credibilidade da política monetária e ajudou o Dow Jones a renovar o recorde histórico.
… O índice subiu 0,58%, para 50.579,70 pontos, o S&P 500 ganhou 0,37%, aos 7.473,47 pontos, e o Nasdaq teve leve alta de 0,19%, aos 26.343,97 pontos, saindo para o feriado do Memorial Day em otimismo cauteloso com a guerra.
… Na contramão de Nova York, o Ibovespa fechou em baixa de 0,81%, aos 176.209,61 pontos. Petrobras terminou em queda (PN, -1,05%, a R$ 44,48; e ON, -0,30%, máxima de R$ 50,15), apesar da alta moderada do petróleo.
… Os papéis dos principais bancos também caíram, com exceção do BB (+0,58%; R$ 20,94). Itaú PN recuou 1,72% (R$ 39,43); Santander unit, -1,78% (R$ 27,10); Bradesco PN, -1,56% (R$ 17,62); e BTG unit, -0,81% (R$ 53,93).
… Já a ação da Vale subiu 0,57% (R$ 83,10), apesar de o minério de ferro ter operado em leve queda de 0,13%.
CIAS ABERTAS NO AFTER – PETROBRAS decidiu suspender um novo leilão de GLP para reduzir a pressão sobre o preço do gás de cozinha e sinalizar normalização após críticas do presidente Lula, segundo O Globo…
… Separadamente, a Reuters informou que o BNDES vendeu cerca de R$ 3 bilhões em ações da companhia em maio.
SABESP. O Cade aprovou a aquisição de 90% da Sanessol pela companhia, por R$ 125 milhões.
COPASA. As empresas interessadas em fazer uma oferta por uma fatia minoritária têm até hoje para apresentarem a proposta, conforme previsto no prospecto da operação. O nome do vencedor será divulgado ao mercado na quarta.
JBS. As ações registraram alta firme de 1,82% na sexta-feira na Nyse, depois de a companhia ter sido incluída na lista preliminar do índice Russell 3000, em meio ao processo anual de rebalanceamento dos índices americanos.
AXIA ENERGIA. Reuters informou que o BNDES vendeu mais de R$ 500 milhões em ações da companhia em maio.
COPEL. Reuters informou que o BNDES vendeu R$ 280 milhões em ações da companhia em maio.
QUALICORP. A companhia anunciou processo de sucessão no comando. Maurício Lopes assumirá a presidência do conselho em 31 de agosto, enquanto Eduardo Oliveira ocupará o cargo de diretor-presidente.
RD SAÚDE. Conselho aprovou compra da fatia do GPA na STIX por R$ 23 milhões.
ONCOCLÍNICAS. A companhia contratou o BTG Pactual para atuar como formador de mercado das ações na B3.
DIMED. Acionistas aprovaram aumento de capital de R$ 1,227 bilhão para R$ 1,294 bi, sem emissão de novas ações.
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