Resumo semanal: 23/03 a 27/03

Por Matheus Gomes de Souza, CEA

1. Cenário global e geopolítica

A semana foi dominada pela escalada e posterior oscilação das narrativas em torno da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, com impacto direto sobre os mercados globais. O conflito entrou na quarta semana sem resolução clara, alternando ameaças de ofensiva terrestre, riscos de fechamento do Estreito de Ormuz e tentativas diplomáticas frágeis lideradas por Washington. O adiamento sucessivo dos prazos impostos por Trump ao Irã reforçou a percepção de impasse, aumentando a volatilidade e reduzindo a credibilidade das sinalizações políticas.

O preço do petróleo refletiu essa instabilidade, com movimentos extremos ao longo da semana. O Brent chegou a superar US$ 112, recuou abaixo de US$ 100 com rumores de cessar-fogo e voltou a subir acima desse patamar diante da falta de avanços concretos. A incerteza sobre fluxos energéticos no Golfo Pérsico manteve elevado o prêmio de risco geopolítico, com alertas de organismos internacionais sobre impactos persistentes na inflação global e no crescimento econômico caso o conflito se prolongue.

2. Política monetária e inflação

O choque do petróleo recolocou a inflação no centro das preocupações dos principais bancos centrais. Nos EUA, a guerra elevou o viés hawkish implícito, com o mercado voltando a precificar a possibilidade de alta de juros ainda em 2026, apesar de discursos pontuais mais dovish. Na Europa, dados como a inflação espanhola de 3,3% em março evidenciaram a reversão do processo desinflacionário, reforçando a cautela do BCE e aumentando as apostas de aperto monetário.

No Brasil, a ata do Copom confirmou a leitura de que o comitê iniciou o ciclo de afrouxamento com extremo conservadorismo, tratando o petróleo elevado como um choque ainda incerto. O ajuste marginal da projeção do IPCA no horizonte relevante (3,2% para 3,3%) foi visto como otimista por parte do mercado, especialmente diante da alta dos combustíveis. A comunicação de Galípolo reforçou a dependência total do cenário externo, mantendo todas as opções abertas para abril e ancorando as expectativas de cortes adicionais apenas se houver alívio consistente no front geopolítico.

3. Brasil: Macro, fiscal e política

No campo macroeconômico, os dados de emprego mostraram sinais iniciais de acomodação. A taxa de desemprego subiu para 5,8% no trimestre encerrado em fevereiro, ainda em mínima histórica para o período, enquanto o rendimento real médio atingiu novo recorde. O BC destacou que o mercado de trabalho segue apertado, com riscos inflacionários associados, mas reconheceu possíveis efeitos defasados da política monetária restritiva sobre a atividade.

No fiscal, o governo revisou significativamente para baixo a projeção de superávit primário, aproximando o resultado do piso da meta. Medidas emergenciais para mitigar o impacto da alta do diesel (como subvenções diretas e desonerações) ampliaram as preocupações com a trajetória das contas públicas. No plano político, o ambiente seguiu carregado, com ruídos institucionais, avanço de investigações sensíveis e pesquisas eleitorais indicando deterioração da popularidade do governo, adicionando prêmio de risco doméstico aos ativos.

4. Mercados financeiros

Os mercados globais operaram em regime de alta volatilidade, com rotações abruptas entre ativos de risco e proteção conforme as manchetes da guerra. Em Wall Street, os principais índices alternaram fortes altas e quedas, com o Nasdaq entrando em território de correção técnica. O dólar se fortaleceu globalmente em momentos de aversão ao risco, enquanto os Treasuries registraram alta relevante nos yields, refletindo preocupações inflacionárias persistentes.

No Brasil, o Ibovespa acompanhou o humor externo, com movimentos intensos ao longo da semana e forte sensibilidade às oscilações do petróleo. Petrobras voltou a exercer papel central na dinâmica do índice, enquanto bancos e empresas cíclicas sofreram nos momentos de estresse. O câmbio refletiu tanto o ambiente externo quanto riscos locais, e a curva de juros permaneceu altamente volátil, ajustando rapidamente as expectativas para o ritmo e a magnitude do ciclo de cortes da Selic.

Síntese da Semana

Ouro fecha em alta, mas engata quarta semana consecutiva de perdas diante da guerra no Irã

O ouro subiu nesta 6ªF, pelo segundo dia consecutivo, mas a recuperação não foi capaz de reverter a quarta perda semanal – período correspondente à duração da guerra no Irã até agora.

Segundo especialistas, a valorização vista hoje ocorreu com investidores aproveitando as quedas recentes, mas os ganhos ainda seguem limitados em função das expectativas de manutenção ou até aumento dos juros nos EUA.

Tal cenário se dá por conta das preocupações com a inflação, visto que o petróleo segue em escalada frente às incertezas com o conflito no Oriente Médio.

Entre os temores do mercado está uma possível invasão dos americanos por terra no Irã, agravando ainda mais a disputa militar.

No fechamento, o contrato do ouro para abril subiu 2,66% na Comex, cotado a US$ 4.492,50 por onça-troy, acumulando perda de 1,80% na semana.

Giro das 15h: Bolsas afundam em NY e petróleo sobe com falta de avanço em negociações de paz

As bolsas norte-americanas acentuaram as perdas na última hora (Dow Jones -1,35%; S&P500 -1,35%; Nasdaq -1,92%).

Os investidores reduzem posições de risco antes do fim de semana, conforme vai ficando claro que não houve avanço nas negociações entre EUA e Irã.

Marco Rubio disse, há pouco, que o governo dos EUA ainda espera uma resposta do Irã hoje ou amanhã.

“Aguardamos mais esclarecimentos sobre com quem conversaremos nas negociações com o Irã”, afirmou ele.

Havia expectativa de uma reunião entre representantes dos dois países hoje à noite, mas até agora não há nada concreto.

O petróleo também amplia a alta: Brent/maio +3,54%, a US$ 111,83; WTI/maio +4,30%, a US$ 98,54.

Por aqui, o Ibovespa também acentua perdas (-0,59%, aos 181.650 pontos), mas não na mesma magnitude de Wall Street.

Na B3, as ações do setor de petróleo sobem forte: Petrobras ON +2,19% e PN +2,54%; Prio ON +3,27%.

O dólar à vista cai diante do real (-0,22%, a R$ 5,2447), na contramão do exterior (DXY +0,30%, aos 100,195 pontos).

Os juros futuros operam em alta moderada (Jan/27 a 14,345%; Jan/29 a 14,060%; Jan/33 a 14,150%).