Resumo semanal: 23/02/2026 a 27/02/2026

O ambiente global seguiu marcado por inflação mais comportada nas economias desenvolvidas, atividade ainda resiliente nos EUA e crescimento fraco na Europa, reforçando expectativas de maior flexibilidade monetária em 2026. No Brasil, houve melhora gradual das contas externas, enquanto o fiscal permanece como principal foco de risco. Na Ásia, o cenário foi desigual, com políticas monetárias distintas e impactos de tensões geopolíticas. No Oriente Médio, avanços limitados nas negociações entre EUA e Irã contrastaram com o aumento das tensões militares, mantendo elevado o grau de incerteza.

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Por Matheus Gomes de Souza, CEA

Estados Unidos

Os indicadores econômicos recentes dos Estados Unidos apontaram sinais mistos, com pressões inflacionárias persistentes nos serviços e alguma acomodação nos bens. O Índice de Preços ao Produtor (PPI) avançou 0,5% em janeiro, mantendo ritmo elevado em relação aos meses anteriores, com alta acumulada de 2,9% em 12 meses. O movimento foi liderado pelos serviços de demanda final, que subiram 0,8%, impulsionados principalmente pela expansão de 2,5% nas margens de comércio e pelo avanço de 1,0% em transporte e armazenagem. Em contraste, os bens recuaram 0,3%, refletindo quedas concentradas em energia e alimentos, embora o núcleo de bens sem esses componentes tenha registrado alta de 0,7%. O núcleo mais restrito do PPI, que exclui alimentos, energia e serviços comerciais, subiu 0,3%, acumulando crescimento de 3,4% em 12 meses, o nono aumento consecutivo.

No mercado de trabalho e na confiança, os dados seguiram indicando resiliência com cautela. Os pedidos iniciais de seguro-desemprego ficaram em 212 mil, abaixo das expectativas, enquanto os pedidos continuados recuaram para 1,833 milhão, sugerindo manutenção de um mercado relativamente apertado. A confiança do consumidor subiu para 91,2 pontos em fevereiro, sustentada pela melhora nas expectativas, embora esse subíndice permaneça abaixo de 80 pontos, nível historicamente associado a risco de recessão. No campo político e geopolítico, o discurso do Estado da União reforçou o foco do governo na agenda econômica, em meio à queda de aprovação presidencial e à contestação judicial de parte das tarifas comerciais, que mantém incertezas no comércio exterior. Paralelamente, as negociações indiretas com o Irã sobre o programa nuclear avançaram de forma limitada, em um contexto de intensificação da pressão diplomática e militar, adicionando um vetor de risco geopolítico ao cenário macroeconômico global.

Brasil

Os dados recentes das contas externas indicaram melhora gradual do quadro externo brasileiro, apesar da manutenção de déficits relevantes. Em janeiro, o déficit em transações correntes somou US$ 8,36 bilhões, inferior ao registrado no mesmo mês de 2025, com o resultado em 12 meses recuando para 2,92% do PIB, ante 3,35% um ano antes. O desempenho foi favorecido pelo superávit comercial de US$ 3,52 bilhões e por ingressos robustos de capitais, especialmente em investimentos diretos, que alcançaram US$ 8,17 bilhões no mês, acima das expectativas do mercado. No acumulado de 12 meses, o IDP totalizou US$ 79,1 bilhões, equivalentes a 3,42% do PIB, enquanto os investimentos em carteira registraram ingressos líquidos de US$ 24,9 bilhões, refletindo maior apetite por ativos domésticos. Em contrapartida, o déficit em renda primária avançou 18,7% na comparação anual, puxado por maiores remessas de juros, lucros e dividendos.

No ambiente doméstico, os indicadores fiscais e de preços trouxeram sinais mistos. A arrecadação federal atingiu R$ 325,8 bilhões em janeiro, a maior já registrada para o mês, com crescimento real de 3,56%, impulsionado principalmente por aumentos de tributação sobre aplicações financeiras e pelo IOF. A inflação apresentou aceleração na prévia de fevereiro, com o IPCA-15 avançando 0,84%, pressionado por reajustes concentrados em educação e transportes, elevando a taxa acumulada em 12 meses para 4,10%. Em contraste, o IGP-M recuou 0,73% no mês, acumulando queda de 2,67% em 12 meses, refletindo alívio nos preços ao produtor. No campo fiscal, a Dívida Pública Federal encerrou janeiro em R$ 8,64 trilhões, com leve alta mensal, aumento do custo médio para 12,07% ao ano e redução do colchão de liquidez para 6,77 meses de vencimentos. Paralelamente, avançaram discussões institucionais sobre a limitação de remunerações acima do teto constitucional, com a proposta de uma regra de transição para mitigar impactos fiscais e reduzir tensões entre os Poderes.

Europa

O início de 2026 foi marcado por desaceleração inflacionária e atividade econômica ainda frágil na Europa, em um contexto de elevada heterogeneidade entre países. Na zona do euro, a inflação anual recuou para 1,7% em janeiro, abaixo dos 2% de dezembro, enquanto, na comparação mensal, os preços caíram 0,6%, sinalizando perda de fôlego no curto prazo. A inflação subjacente ficou em 2,1%, também em desaceleração, refletindo principalmente a contribuição menor da energia e a persistência moderada dos preços de serviços. O movimento foi acompanhado por leituras mais baixas em grandes economias, como a Alemanha, onde a inflação caiu abaixo de 2% em diversos estados. No mercado de trabalho alemão, embora o desemprego tenha recuado marginalmente no mês, o total permaneceu acima de 3 milhões de pessoas, com taxa estável em 6,3%, evidenciando os efeitos prolongados de anos de estagnação econômica, apesar do crescimento trimestral de 0,3% no quarto trimestre de 2025.

No campo político e geopolítico, a região seguiu lidando com desafios relevantes. Na Dinamarca, pesquisas indicaram avanço do bloco de esquerda às vésperas das eleições parlamentares, sugerindo possível reconfiguração do governo após quase quatro anos de coalizão ampla. Na Itália, propostas de reforma do sistema eleitoral, com bônus de cadeiras para a coligação mais votada, aumentaram as chances de manutenção do centro-direita no poder, elevando o debate sobre governabilidade e representatividade. Na Hungria, sondagens apontaram crescimento da oposição ao primeiro-ministro Viktor Orbán, tornando a eleição de abril mais competitiva do que em ciclos anteriores. No front externo, a guerra na Ucrânia seguiu como fator central de risco, com o FMI aprovando um novo programa de US$ 8,1 bilhões para sustentar a estabilidade macroeconômica do país e negociações de paz previstas para o início de março. Paralelamente, a Alemanha buscou redefinir sua relação econômica com a China, diante de um déficit comercial próximo de 90 bilhões de euros em 2025, reforçando preocupações europeias com dependência externa, competitividade industrial e tensões comerciais globais.

Ásia

Os mercados asiáticos atravessaram a semana sob sinais mistos de atividade econômica e ajustes de política monetária. Na China, as autoridades mantiveram as taxas referenciais de empréstimo inalteradas pelo nono mês consecutivo, com a LPR de um ano em 3,0% e a de cinco anos em 3,5%, indicando cautela após estímulos direcionados recentes. As projeções apontam desaceleração do crescimento para cerca de 4,5% em 2026, apesar do desempenho mais forte das exportações em 2025. No Japão, a inflação ao consumidor, excluindo alimentos voláteis, desacelerou para 2,0% em janeiro, abrindo espaço para o Banco do Japão calibrar o momento do próximo ajuste de juros, em um contexto de moderação dos custos de energia e alimentos. Na Coreia do Sul, o banco central manteve a taxa básica em 2,50% e sinalizou estabilidade por pelo menos seis meses, elevando a projeção de crescimento para 2,0% em 2026, sustentada pela expansão das exportações de semicondutores, com reflexos positivos sobre o câmbio e o mercado de títulos. Na Tailândia, em contraste, o banco central surpreendeu ao cortar a taxa para 1,00%, o menor nível em mais de três anos, diante de crescimento abaixo do potencial e incertezas externas.

No Sudeste Asiático, a Indonésia avançou em reformas do mercado de capitais para elevar o free float mínimo das empresas listadas para 15%, em resposta a preocupações de governança e ao risco de rebaixamento de classificação de mercado, enquanto o superávit comercial de janeiro foi estimado em US$ 2,76 bilhões, com exportações e importações crescendo em ritmo de dois dígitos e inflação projetada acima da meta do banco central. Em Hong Kong, o governo projetou crescimento entre 2,5% e 3,5% em 2026 e retorno ao superávit fiscal, apoiado por mercados financeiros aquecidos, aumento de IPOs e retomada parcial do setor imobiliário, apesar das incertezas globais. No campo geopolítico, as tensões se intensificaram no Mar da China Meridional, com exercícios militares conjuntos envolvendo Filipinas, EUA e Japão, e na Ásia Meridional, onde confrontos diretos entre Paquistão e Afeganistão elevaram o risco de escalada regional. Na península coreana, a Coreia do Norte reforçou sua retórica nuclear e planos de expansão do arsenal, mantendo elevado o grau de incerteza geopolítica em uma região já sensível às mudanças no ambiente de segurança e comércio internacional.

Oriente Médio

As negociações entre Estados Unidos e Irã avançaram de forma limitada, mantendo elevado o risco geopolítico na região. A rodada mais recente em Genebra indicou disposição ao diálogo, mas revelou divergências estruturais difíceis de conciliar, especialmente sobre o enriquecimento de urânio, o programa de mísseis e o apoio iraniano a grupos armados regionais. Enquanto Washington exige restrições profundas e permanentes, Teerã sustenta que o enriquecimento é um direito soberano previsto no Tratado de Não Proliferação Nuclear. Em paralelo, os EUA intensificaram sua presença militar no Oriente Médio, incluindo o envio de caças F‑22, e ampliaram sanções contra indivíduos, entidades e redes logísticas ligadas ao Irã, reforçando a estratégia de pressão econômica e dissuasão militar em meio à percepção crescente de risco de conflito.

O aumento das tensões gerou efeitos regionais relevantes, com evacuação de pessoal diplomático e alertas de viagem emitidos por diversos países, além da retirada de funcionários não essenciais da embaixada americana em Beirute. Israel sinalizou que reagirá de forma contundente caso o Hezbollah se envolva em um eventual confronto entre EUA e Irã, enquanto o governo libanês busca evitar nova escalada militar após perdas significativas em conflitos recentes. A Turquia, por sua vez, passou a avaliar cenários de contingência, reiterando oposição a qualquer violação da soberania iraniana. No plano econômico, as reservas internacionais da Turquia apresentaram recuo recente, refletindo operações financeiras e intervenções cambiais. Em conjunto, o cenário reforça a elevada incerteza política e de segurança no Oriente Médio, com potenciais impactos sobre fluxos financeiros, estabilidade regional e o apetite global por risco.

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