Resumo semanal: 13/04/2026 a 17/04/2026

A semana foi dominada pela escalada inicial da guerra no Oriente Médio, seguida por tentativas diplomáticas incompletas que reduziram o choque, mas não entregaram resolução. O mercado terminou o período mais cético, precificando um conflito prolongado e negociado, sem ruptura imediata.

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Por Matheus Gomes de Souza, CEA

1. Cenário global e geopolítica

O bloqueio total dos portos iranianos pelos Estados Unidos marcou o início da semana com um choque geopolítico relevante, elevando o risco de disrupção no fluxo global de energia e pressionando fortemente o petróleo. A decisão ocorreu após o fracasso das negociações em Islamabad e manteve sob tensão o Estreito de Ormuz, rota crítica por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial. A reação do Irã foi dura, com reforço militar e retórica de confronto, enquanto Washington intensificou sua presença na região, elevando o risco de um evento sistêmico no mercado de energia.

Ao longo dos dias, sinais de reabertura diplomática (com discussões sobre um novo encontro entre EUA e Irã e a mediação do Paquistão) reduziram o estresse inicial. Houve também avanço tático em outro front, com a trégua temporária entre Israel e Líbano. Ainda assim, o mercado passou a diferenciar discurso de fato: sem datas confirmadas ou concessões concretas sobre o programa nuclear iraniano e o controle de Ormuz, o conflito saiu da fase de choque e entrou em um impasse negociado, mantendo prêmio de risco geopolítico elevado, porém mais estável.

2. Política monetária e inflação

Nos Estados Unidos, a alta recente do petróleo contaminou os dados de inflação, com o CPI de março acelerando para 3,3% em 12 meses, impulsionado principalmente pelos combustíveis. Apesar disso, o núcleo veio levemente abaixo do esperado, e o PPI divulgado ao longo da semana surpreendeu para baixo, ajudando a aliviar temores de efeitos secundários mais persistentes. O mercado manteve a leitura de que cortes de juros pelo Fed seguem distantes, concentrados apenas a partir da segunda metade de 2027, com Treasuries oscilando conforme o noticiário geopolítico.

Na Europa, o choque de energia foi tratado como potencialmente temporário. Dirigentes do BCE reforçaram que a inflação já havia retornado a níveis próximos de 2% antes do conflito, dando espaço para avaliar os impactos sem reação imediata. Ainda assim, dados de comércio evidenciaram fragilidade adicional: o superávit comercial da União Europeia caiu 60% em fevereiro, com forte retração das exportações para os EUA após a imposição de tarifas, adicionando um vetor de desaceleração ao cenário macro do bloco.

3. Brasil: Macro, fiscal e política

O IPCA de março confirmou a deterioração do quadro inflacionário, com alta de 0,88% no mês e aceleração para 4,14% em 12 meses, acima do teto implícito das projeções. O choque veio majoritariamente dos combustíveis, em linha com a disparada do petróleo, mas também houve pressão relevante em alimentação. Em resposta, o Banco Central reforçou o tom de cautela: diretores indicaram que o ciclo de cortes da Selic será calibrado e lento, com ampla precificação de redução de apenas 0,25 pp na próxima reunião, diante da desancoragem das expectativas.

No campo fiscal, o governo enviou o PLDO de 2027 mantendo a meta de superávit primário de 0,5% do PIB. Embora o desenho sinalize compromisso com consolidação gradual e acione gatilhos do arcabouço, analistas destacaram que o cumprimento depende de exclusões relevantes de gastos, como precatórios, o que reduz o esforço fiscal efetivo. Politicamente, avançaram pautas sensíveis (como o fim da escala 6×1 e programas de crédito para famílias endividadas) reforçando o viés social da agenda, mas também ampliando a percepção de risco fiscal em um horizonte pré-eleitoral.

4. Mercados financeiros

O petróleo foi o principal vetor da semana: disparou acima de US$ 100 com o bloqueio ao Irã, recuou com sinais de negociação e voltou a se aproximar desse patamar diante da ausência de desfecho concreto. Essa volatilidade se refletiu nos mercados globais, com bolsas americanas renovando máximas históricas à medida que o choque inicial era absorvido, enquanto Treasuries e o dólar global (DXY) oscilaram sem direção clara, refletindo ceticismo crescente quanto às declarações políticas.

No Brasil, o destaque foi o fluxo externo extraordinariamente forte. O Ibovespa acumulou novas máximas históricas ao longo da semana, aproximando-se da marca simbólica dos 200 mil pontos, impulsionado por entradas relevantes de capital estrangeiro e pelo diferencial de juros elevado. O dólar rompeu o nível de R$ 5,00, mas mostrou sinais de esgotamento, sugerindo que o real pode estar próximo de um limite de valorização no curto prazo. Nos juros, a curva curta permaneceu pressionada pelo IPCA e pelo choque de energia, enquanto os vértices longos refletiram alívio parcial com a atividade mais fraca e a percepção de que o conflito, embora persistente, tende a ser negociado.

Síntese da Semana

▪️ O conflito no Oriente Médio saiu da fase de choque e entrou em um impasse negociado, mantendo prêmio de risco elevado, mas sem ruptura sistêmica imediata.


▪️ O choque do petróleo reacendeu preocupações inflacionárias, limitando o espaço para cortes de juros e reforçando discursos de cautela dos bancos centrais.


▪️ No Brasil, inflação pressionada, atividade em desaceleração marginal e um fiscal formalmente ambicioso, porém dependente de exceções, moldaram a leitura macro.


▪️ Os mercados foram sustentados por fluxo e liquidez, especialmente no Brasil, mas terminaram a semana mais céticos, exigindo fatos (não apenas sinalizações) para novas reprecificações.

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