Resumo semanal: 11/05/2026 a 15/05/2026

A semana foi dominada pela persistência do conflito entre Estados Unidos e Irã, com o foco migrando da incerteza geopolítica para os seus efeitos econômicos diretos, sobretudo via petróleo, inflação e política monetária, antes de algum alívio pontual com a visita de Trump à China.

eua e china
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Por Matheus Gomes de Souza, CEA

1. Cenário global e geopolítica

A narrativa começou com o fracasso das negociações de cessar‑fogo e a rejeição americana às propostas iranianas, mantendo o Estreito de Ormuz parcialmente bloqueado e elevando o Brent para a faixa entre US$ 104 e US$ 108. A escalada verbal de Trump, somada a novos episódios militares na região, consolidou a percepção de que o choque energético não seria transitório. Relatórios de grandes bancos e de organismos internacionais apontaram consumo acelerado de estoques globais e risco operacional para países importadores, reforçando a vulnerabilidade estrutural do mercado de energia.

Na segunda metade da semana, a visita de Trump a Pequim ajudou a reduzir o risco de cauda mais extremo. Os encontros com Xi Jinping produziram sinais de cooperação pragmática em comércio, tecnologia e energia, além de acenos para a manutenção da abertura do Estreito de Ormuz. O petróleo perdeu impulso, mas permaneceu acima de US$ 100, refletindo a leitura de que, mesmo com diplomacia ativa, os efeitos logísticos e inflacionários do conflito devem se estender por meses.

2. Política monetária e inflação

Nos Estados Unidos, o CPI de abril confirmou aceleração da inflação cheia para 3,8% em 12 meses, com núcleo avançando 2,8% e alta mensal de 0,4%. O PPI surpreendeu ainda mais, com avanço mensal de 1,4% e aceleração anual para 6%, evidenciando repasse do choque de energia ao longo da cadeia produtiva. A combinação dos dados reforçou o discurso hawkish de dirigentes do Fed e elevou a probabilidade implícita de juros mais altos por mais tempo, com o mercado passando a precificar inclusive a possibilidade de aperto adicional em 2027.

Fora dos EUA, o ambiente também ficou mais restritivo. Autoridades do BCE, do BoJ e do BoE reforçaram preocupações com inflação persistente, enquanto dados da Ásia mostraram resiliência da atividade, como o crescimento de 5,4% do PIB da Malásia no primeiro trimestre, sustentado por consumo e pelo ciclo de investimentos em inteligência artificial. O pano de fundo global passou a ser de desaceleração assimétrica, com inflação ainda elevada e menor margem para respostas monetárias acomodatícias.

3. Brasil: Macro, fiscal e política

O IPCA de abril desacelerou na margem para 0,67%, mas com aceleração dos núcleos e inflação mais disseminada, levando o acumulado em 12 meses a 4,39%. A deterioração qualitativa reduziu o espaço para cortes adicionais da Selic e elevou a probabilidade de pausa já nas próximas reuniões. Esse quadro foi agravado pela sinalização da Petrobras de que os preços da gasolina estão fortemente defasados em relação à paridade internacional, aumentando o risco de novos repasses inflacionários.

No campo fiscal e político, o anúncio de subsídios diretos à gasolina e ao diesel, via crédito extraordinário fora do limite de gastos, elevou o prêmio de risco. As estimativas de custo variaram de bilhões por mês, reacendendo o debate sobre sustentabilidade fiscal. Em paralelo, o vazamento de mensagens envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro introduziu ruído eleitoral relevante, afetando a percepção de alternância de poder em 2027 e pressionando câmbio e juros. Mesmo com alguma acomodação no fim da semana, a eleição presidencial entrou definitivamente no radar dos mercados.

4. Mercados financeiros

Globalmente, as curvas de juros abriram com força após CPI e PPI nos EUA, levando os Treasuries de 10 e 30 anos a níveis próximos ou acima de patamares psicologicamente relevantes. Ainda assim, as bolsas americanas sustentaram novos recordes, impulsionadas por big techs e pelo alívio parcial trazido pela aproximação entre EUA e China. O petróleo encerrou a semana estabilizado acima de US$ 100, longe dos picos, mas ainda como principal vetor macro.

No Brasil, o Ibovespa devolveu parte dos ganhos recentes, pressionado por bancos, Petrobras e aumento do risco político, enquanto o fluxo estrangeiro seguiu negativo. O dólar oscilou fortemente, rompendo R$ 5,00 no auge do estresse e recuando depois para abaixo desse nível com acomodação parcial. A curva de juros futuros abriu de forma significativa, refletindo tanto o choque externo quanto a piora do fiscal e da incerteza eleitoral. Nos balanços, a temporada mostrou resultados mistos, com setores mais sensíveis a juros e energia sob maior pressão e empresas ligadas a commodities e infraestrutura exibindo maior resiliência.

Síntese da Semana

▪️ O conflito no Oriente Médio deixou de ser apenas geopolítico e passou a atuar como choque econômico persistente, via petróleo, inflação e política monetária.


▪️ Dados de inflação nos EUA e no Brasil confirmaram deterioração qualitativa, reduzindo o espaço para flexibilização monetária e elevando prêmios de risco globais.


▪️ No Brasil, a combinação de subsídios a combustíveis e ruído eleitoral alterou de forma relevante a percepção de risco fiscal e político, pressionando câmbio, juros e bolsa.

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