Resumo semanal: 09/03/2026 a 13/03/2026
A semana foi dominada pela escalada e posterior frustração de expectativas em torno da guerra no Oriente Médio, com o petróleo como principal canal de transmissão para inflação, política monetária e preços de ativos. O conflito entre EUA, Israel e Irã mostrou-se mais amplo, prolongado e com impacto direto sobre infraestrutura energética crítica.
Por Matheus Gomes de Souza, CEA
1. Cenário global e geopolítica
Ao longo da semana, o mercado oscilou entre a tese de guerra curta, defendida repetidamente por Donald Trump, e a leitura mais dura dos fatos no terreno. A sucessão de Ali Khamenei por Mojtaba Khamenei consolidou um regime ainda mais linha-dura no Irã, intensificando ataques a Israel e a países do Golfo, além de ameaças diretas ao Estreito de Ormuz. Relatos de minas marítimas, ataques a navios e à infraestrutura petrolífera (incluindo o porto de Basra, no Iraque) elevaram o risco de interrupção prolongada da oferta global de petróleo. Mesmo anúncios de escoltas navais e destruição de embarcações iranianas foram frequentemente desmentidos ou relativizados, aumentando a volatilidade e a incerteza.
Na tentativa de conter o choque de oferta, os países da AIE anunciaram a liberação coordenada de até 400 milhões de barris das reservas estratégicas, o maior volume já registrado. Ainda assim, o mercado passou a precificar que o choque atual é estruturalmente mais severo, levando os EUA a um movimento inédito: flexibilizar temporariamente sanções ao petróleo russo, permitindo compras por países terceiros. A medida evidenciou o grau de estresse do mercado energético global e reforçou a percepção de que o conflito não terá solução rápida, com impacto sistêmico persistente.
2. Política monetária e inflação
Nos EUA, os dados de inflação divulgados ao longo da semana (CPI e PCE) ainda não capturaram o impacto direto da disparada recente do petróleo. O CPI de fevereiro veio em linha, enquanto o núcleo do PCE subiu 0,4% em janeiro, com variação anual de 3,1%, confirmando uma inflação subjacente ainda resistente. Ao mesmo tempo, o crescimento econômico mostrou desaceleração relevante, com o PIB do 4º trimestre revisado para apenas 0,7%, bem abaixo da leitura anterior. O mercado de trabalho, por sua vez, seguiu resiliente, com alta das vagas abertas (JOLTS), reforçando o dilema do Fed entre atividade ainda firme e inflação pressionada.
A combinação de petróleo acima de US$ 100, inflação subjacente persistente e atividade desacelerando levou o mercado a empurrar para o fim do ano (ou até além) as expectativas de novos cortes de juros pelo Fed. Ao longo da semana, o pricing passou de cortes possíveis entre junho e julho para apostas concentradas em setembro ou dezembro, com crescente ceticismo sobre a extensão do ciclo. Na Europa, os dados mostraram inflação moderada na França (0,9%) e Espanha (2,3%), enquanto o PIB do Reino Unido ficou estagnado em janeiro, reforçando um cenário de crescimento fraco, mas ainda sem aliviar de forma decisiva o debate inflacionário.
3. Brasil: Macro, fiscal e política
A forte oscilação do petróleo fez o mercado revisitar, diversas vezes ao longo da semana, o cenário para a próxima reunião do Copom. Momentos de alívio da commodity resgataram apostas de corte de 0,50 pp, mas a retomada do rali para acima de US$ 100 e o IPCA de fevereiro em 0,70%, próximo ao teto das estimativas, consolidaram a leitura de maior cautela. Ao final da semana, a aposta majoritária passou a ser corte de apenas 0,25 pp, com parte do mercado questionando até a viabilidade de qualquer redução diante dos riscos inflacionários.
No campo fiscal, o governo anunciou um pacote para conter o preço do diesel, combinando desoneração de PIS/Cofins, subvenção direta e imposto sobre exportações de petróleo. Apesar do discurso oficial de neutralidade fiscal, o mercado avaliou que a arrecadação projetada é insuficiente para compensar as renúncias, reforçando a percepção de viés eleitoreiro e fragilidade fiscal. Politicamente, pesquisas confirmaram o empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro, enquanto a saída iminente de Fernando Haddad da Fazenda e tensões com o Congresso aumentaram o ruído institucional em um momento de maior sensibilidade dos ativos domésticos.
4. Mercados financeiros
No exterior, Wall Street alternou sessões de forte aversão ao risco com ralis táticos, reagindo às falas contraditórias de Trump e aos desdobramentos no Oriente Médio. O petróleo acumulou altas superiores a 30% na semana em alguns momentos, chegando a romper os US$ 100 por barril, pressionando ações sensíveis a custos e beneficiando petroleiras. O dólar global ganhou força ao final da semana, refletindo a reprecificação inflacionária e a redução do apetite por risco, enquanto as curvas de juros nos EUA embutiram um Fed mais restritivo por mais tempo.
No Brasil, o Ibovespa mostrou resiliência inicial, sustentado por Petrobras e demais produtoras de petróleo, mas terminou a semana em forte queda, apagando os ganhos acumulados. A deterioração do cenário externo somou-se a fatores domésticos, como balanços fracos, aumento de pedidos de recuperação extrajudicial e maior percepção de risco de crédito corporativo. Os juros futuros dispararam, com a curva incorporando petróleo elevado, inflação mais persistente e maior cautela do Copom. O real, que vinha se beneficiando do status de exportador líquido de petróleo, perdeu força diante do aumento do risco fiscal e da aversão global.
Síntese da Semana
▪️ O choque geopolítico no Oriente Médio se consolidou como um choque de oferta duradouro, com impacto direto sobre petróleo, inflação e política monetária global.
▪️ A narrativa de guerra curta perdeu credibilidade, levando governos a medidas excepcionais, como liberação recorde de reservas e flexibilização de sanções.
▪️ No Brasil, o petróleo elevado reprecificou o ciclo de cortes da Selic, enquanto respostas fiscais do governo aumentaram o prêmio de risco.
▪️ Os mercados encerraram a semana em regime de maior aversão ao risco, com volatilidade elevada, curvas de juros mais inclinadas e menor visibilidade macro.