Resumo semanal: 08/12 a 12/12
Panorama global com dados atualizados sobre EUA, Brasil, Europa, Ásia e Oriente Médio, abordando economia, política, tensões geopolíticas e impactos nos mercados.
Por Matheus Gomes, CEA.
Estados Unidos
A economia norte-americana apresentou sinais mistos em indicadores recentes, com o mercado de trabalho permanecendo enfraquecido e a política monetária ajustando-se em caráter cauteloso. Em outubro, as vagas de emprego abertas registraram pequena alta para 7,67 milhões, enquanto as contratações recuaram para 5,15 milhões, sustentando um quadro de estagnação. A desaceleração é atribuída a menor oferta de mão de obra, queda na imigração e substituição parcial por automação. O Federal Reserve reduziu a taxa dos Fed Funds em 0,25 p.p. para a banda de 3,50%–3,75%, em decisão dividida que sinaliza provável pausa nos cortes adicionais, diante de inflação ainda acima da meta (2,8%) e desemprego em elevação (4,4%). Pedidos semanais de auxílio-desemprego subiram para 236 mil, embora os pedidos continuados tenham recuado para 1,838 milhão. No setor energético, os estoques domésticos de petróleo bruto recuaram 1,8 milhão de barris, para 425,7 milhões, enquanto importações aumentaram, trazendo volatilidade às cotações.
A tímida recuperação nas vagas de emprego não altera a percepção de desaquecimento do mercado de trabalho, elemento que influencia a postura mais prudente do Fed frente a cortes futuros. A divisão interna no Comitê reflete o balanço delicado entre conter a inflação persistente e evitar pressões adicionais sobre a atividade. A queda nos estoques de petróleo reforça expectativas de alta de preços da commodity, potencializando impactos sobre custo de energia e inflação, embora o incremento nas importações atenue parte dessa pressão no curto prazo. Em paralelo, o cenário geopolítico ganhou relevância com a apreensão inédita, por forças dos EUA, de um petroleiro venezuelano no mar do Caribe, em meio a operações militares de combate ao tráfico de drogas. A movimentação, que atinge diretamente o principal ativo econômico da Venezuela, elevou tensões diplomáticas e gerou especulações sobre possível escalada para ações em terra, alimentando a percepção de risco em rotas marítimas estratégicas e ampliando incertezas na frente externa.
Brasil
Os indicadores econômicos de novembro mostraram inflação controlada, expansão moderada no consumo e resiliência no setor de serviços. O IPCA avançou 0,18% no mês, menor variação para o período desde 2018, acumulando alta de 3,92% no ano e 4,46% em 12 meses, levemente abaixo das projeções de mercado. O movimento foi sustentado por reajustes em passagens aéreas (+11,9%), energia elétrica (+1,27%) e hospedagem (+4,09%), enquanto itens de alimentação, como tomate (-10,38%) e arroz (-2,86%), continaram em trajetória de queda. O INPC registrou alta residual de 0,03%, refletindo estabilidade nos preços não alimentícios e recuo nos alimentos. No plano monetário, o Banco Central manteve pela quarta vez consecutiva a Selic em 15% a.a., reforçando que a taxa permanecerá elevada por período prolongado para garantir a convergência da inflação à meta. No varejo, as vendas cresceram 0,5% sobre setembro e 1,1% em relação a um ano antes, com alta disseminada em sete dos oito segmentos pesquisados. O setor de serviços registrou nona alta consecutiva (+0,3%), atingindo patamar 20,1% acima do pré-pandemia e renovando máxima histórica.
A inflação abaixo do esperado reforça a percepção de estabilidade de preços no curto prazo, mas a decisão do Copom indica que o afrouxamento monetário será adiado, considerando expectativas ainda desancoradas para 2025 e 2026 e cenário externo incerto. O avanço do varejo e a expansão contínua dos serviços mostram resiliência da demanda interna, impulsionada por segmentos como transporte, TI e bens duráveis, embora com sinais de desaceleração em setores ligados à moda e construção. A permanência da Selic em nível restritivo tende a moderar crédito e consumo em 2026, condicionando o ritmo de crescimento. No campo institucional, o presidente do STF, Edson Fachin, iniciou movimento para criar um código de ética específico para ministros de tribunais superiores, através do CNJ, em resposta a críticas sobre proximidade indevida entre magistrados e grupos econômicos. A proposta, inspirada em modelos internacionais, busca fortalecer a credibilidade das decisões judiciais e prevenir conflitos de interesse, mas enfrenta resistência interna e pode gerar impacto relevante na percepção pública sobre governança e integridade no Judiciário.
Europa
A Europa registrou uma semana marcada por tensões políticas, protestos sociais e indicadores econômicos mistos. Na Grécia, agricultores bloquearam portos e fronteiras exigindo o pagamento de € 600 milhões em auxílios atrasados, em meio a investigações de fraude e impacto de surtos sanitários no setor pecuário. A Ucrânia enfrenta dificuldades para preencher cargos-chave após um escândalo de corrupção de US$ 100 milhões no setor energético, intensificando a percepção de centralização política sob Zelensky, que também avalia eleições em 60 a 90 dias caso haja garantias de segurança aliadas. Na França, a aprovação apertada do orçamento da previdência social garantiu recursos essenciais, mas com déficit próximo de € 20 bilhões, enquanto o Banco da França projeta crescimento modesto de 0,2% no quarto trimestre. A República Tcheca confirmou Andrej Babis como primeiro-ministro, sinalizando realinhamento mais crítico perante a UE e apoio reduzido à Ucrânia. Nos Países Baixos, três partidos de centro-direita avançam em negociações para formar governo, ao passo que a Eslováquia aprovou mudanças controversas na proteção a denunciantes, gerando confrontos parlamentares e críticas da oposição. A UE discutiu congelamento indefinido de € 210 bilhões do banco central russo para financiar um empréstimo de até € 165 bilhões à Ucrânia.
Os protestos agrícolas na Grécia pressionam Bruxelas e podem atrasar repasses da PAC, afetando a logística regional. A ausência de liderança energética na Ucrânia compromete a resiliência frente aos ataques russos e reforça incertezas nas negociações de paz. A tensão política francesa, somada ao déficit elevado, poderá limitar espaço para estímulos fiscais em 2026, mesmo com resiliência industrial. A chegada de Babis ao poder na Tchéquia sinaliza possível enfraquecimento de políticas pró-Ucrânia no bloco, enquanto o impasse político nos Países Baixos e a instabilidade jurídica na Eslováquia aumentam a percepção de risco institucional no leste europeu. O plano de congelar ativos russos de forma indefinida busca evitar a influência de países simpáticos a Moscou e viabilizar apoio financeiro prolongado a Kiev, mas levanta questões legais e resistência interna. Em Portugal, a primeira greve geral desde 2013 contra reformas trabalhistas expôs tensão entre crescimento econômico e preservação de direitos, enquanto na Alemanha a inflação avançou para 2,6%, reduzindo espaço para política monetária acomodatícia. No Reino Unido, a contração de 0,1% no trimestre reforçou expectativas de corte de juros pelo Banco da Inglaterra, evidenciando fragilidade nos serviços e construção, e elevando o foco em medidas orçamentárias de estímulo no curto prazo.
Ásia
A região asiática registrou uma semana marcada por intensas movimentações políticas e diplomáticas, aumento de tensões militares e indicadores econômicos relevantes. Na Tailândia, o primeiro-ministro Anutin Charnvirakul dissolveu o parlamento antecipadamente em meio a impasses legislativos e conflitos fronteiriços com o Camboja, desencadeando eleições que devem ocorrer entre 45 e 60 dias, com provável data no início de fevereiro. O Camboja enfrenta deslocamentos internos em larga escala, alcançando 130 mil pessoas, agravados pelo retorno de trabalhadores da Tailândia e pela escassez de recursos básicos. No Nepal, os protestos anticorrupção de setembro, que resultaram na saída do premiê KP Sharma Oli, geraram prejuízos estimados em US$ 586 milhões e exigirão US$ 252 milhões para reconstrução de infraestruturas. Em Bangladesh, o presidente Mohammed Shahabuddin anunciou intenção de renunciar após as eleições de fevereiro, citando marginalização por parte do governo interino. No campo diplomático, Taiwan intensificou relações com Israel, buscando cooperação em defesa e tecnologia, enquanto Rússia e Indonésia avançaram em projetos conjuntos, incluindo energia nuclear. As Filipinas garantiram empréstimo de US$ 400 milhões do Banco Asiático de Desenvolvimento para estimular investimentos privados e enfrentar gargalos estruturais.
A instabilidade política tailandesa pode impactar acordos comerciais e a confiança de investidores regionais, enquanto a crise humanitária no Camboja pressiona a capacidade institucional e a disponibilidade de recursos, exigindo apoio externo. Os danos econômicos no Nepal implicam retração temporária da atividade e atraso na recuperação fiscal, reforçando vulnerabilidades estruturais. Em Bangladesh, a transição política e o distanciamento entre presidência e governo interino geram incertezas sobre estabilidade institucional. As iniciativas diplomáticas de Taiwan e Indonésia indicam reposicionamento estratégico no cenário asiático, com foco em segurança e infraestrutura crítica, ao passo que a proximidade de Moscou com Jacarta reforça a diversificação geopolítica da Rússia diante de sanções ocidentais. Nas Filipinas, o aporte do ADB busca remover barreiras regulatórias que restringem investimentos externos, fator crucial para competir com vizinhos em expansão acelerada. No setor monetário, Hong Kong reduziu pela terceira vez a taxa básica para 4%, mas sem repasse pelos principais bancos, adicionando incerteza ao efeito sobre crédito e consumo. Por sua vez, a China atingiu superávit comercial acima de US$ 1 trilhão no acumulado do ano, evidenciando capacidade de compensar quedas para os EUA com expansão em outros mercados, mesmo diante de demanda interna frágil e contínua contração industrial.
Oriente Médio
A semana na região foi marcada por intensos movimentos políticos, avanços territoriais e tensões diplomáticas. No Líbano, o chanceler Youssef Raji recusou visita oficial a Teerã, mas convidou o ministro iraniano Abbas Araqchi para negociações em Beirute, reforçando o discurso de soberania e sinalizando preocupações internas sobre o Hezbollah. Em Gaza, grupos palestinos anti-Hamas ampliaram suas atividades em setores sob controle israelense após o cessar-fogo de outubro, elevando a pressão sobre o grupo islâmico e criando risco de fragmentação interna. Israel autorizou a construção de 764 novas unidades residenciais em assentamentos na Cisjordânia, medida fortemente criticada pela Autoridade Palestina e pela ONU por minar perspectivas de paz. No Iêmen, o Conselho de Transição do Sul (STC) consolidou controle sobre grande parte do sul, incluindo áreas estratégicas como Aden, Hadramout e Mahra, alterando o equilíbrio de poder e ameaçando reacender uma guerra civil de longa duração. Na Síria, o presidente Ahmed al-Sharaa celebrou um ano no poder após a queda de Assad, com promessas de reformas, retomada de relações internacionais e levantamento de sanções, enquanto ainda enfrenta focos de violência sectária e resistência de autonomistas curdos.
As iniciativas diplomáticas no Líbano evidenciam tentativa de reequilibrar relações externas em meio a pressões internas pelo desarmamento do Hezbollah, fator central para estabilidade estatal. Em Gaza, a presença e expansão de grupos armados rivais ao Hamas em áreas controladas por Israel elevam o risco de instabilidade prolongada e dificultam qualquer coordenação futura sobre governança local. A expansão de assentamentos israelenses, combinada ao aumento de ataques de colonos, reforça tensões com a comunidade internacional e ameaça negociações mediadas por Washington. No Iêmen, o avanço rápido do STC sobre zonas com reservas de petróleo e rotas marítimas estratégicas altera dinâmicas econômicas e militares, com potencial de redefinir alianças regionais, inclusive entre Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. A transição síria, embora apoiada por recuperação econômica parcial e retorno de refugiados, ainda convive com vulnerabilidades institucionais e sectárias que podem atrasar estabilização política. Paralelamente, a disputa entre Israel e a ONU sobre a atuação da UNRWA intensifica o desgaste diplomático, enquanto no Iraque a retomada de operações em West Qurna 2 reverte impacto temporário no fornecimento global de petróleo, preservando capacidade exportadora em meio a sanções que afetam operadoras russas.