Resumo semanal: 04/05/2026 a 08/05/2026
A semana foi dominada pela guerra entre Estados Unidos e Irã, marcada por alternância entre escalada militar e tentativas frágeis de distensão, mantendo o risco sistêmico elevado e o petróleo como principal canal de transmissão para mercados e inflação.
Por Matheus Gomes de Souza, CEA
1. Cenário global e geopolítica
O conflito entrou na semana com sinais diplomáticos iniciais, mas rapidamente voltou a se intensificar, especialmente no Estreito de Ormuz. Ataques a embarcações, uso de drones e mísseis, além de ações classificadas como “defensivas” pelos EUA, reforçaram a percepção de que o bloqueio marítimo pode se prolongar. Mesmo quando Washington sinalizou pausas táticas ou avanços diplomáticos, os episódios de violência seguiram ocorrendo, minando a credibilidade de um cessar‑fogo sustentável. O mercado passou a operar em regime claramente “headline‑driven”, com oscilações bruscas a cada nova declaração de Trump ou resposta iraniana.
Na quinta‑feira, a expectativa de um memorando preliminar para reabrir Ormuz derrubou o petróleo e impulsionou ativos de risco, mas a leitura se mostrou prematura. Na sexta‑feira, novos confrontos desmontaram a narrativa de acordo iminente. A Agência Internacional de Energia reagiu anunciando a liberação de reservas estratégicas, reconhecendo que a guerra já retira volumes relevantes da oferta global. Em paralelo, Trump voltou a endurecer o discurso comercial contra a União Europeia, reforçando que tarifas seguem sendo instrumento ativo de pressão geopolítica, adicionando ruído a um ambiente global já tensionado.
2. Política monetária e inflação
Nos Estados Unidos, a disparada do petróleo reacendeu preocupações com inflação persistente, levando dirigentes do Fed a reforçarem discursos hawkish. Mesmo com dados mistos de atividade, incluindo um payroll mais fraco em abril (115 mil vagas) e desaceleração salarial para 3,6% ao ano, o banco central sinalizou desconforto em assumir que o próximo movimento será corte de juros. Parte do mercado voltou a precificar inclusive risco de aperto adicional, diante da possibilidade de o choque energético contaminar preços de forma mais duradoura.
Na Europa, o impacto também foi relevante. Autoridades do BCE alertaram que a alta de energia pode exigir postura mais restritiva, enquanto dados da Alemanha mostraram queda da produção industrial em março (-0,7% m/m) e retração anual de 2,8%, sinalizando estagflação latente. Ainda assim, o risco inflacionário prevaleceu sobre a fraqueza da atividade. No Brasil, o IGP‑DI acelerou para 2,41% em abril, com pressão disseminada ao longo da cadeia produtiva, reforçando a leitura de que o choque do petróleo deixou de ser pontual e passou a contaminar núcleos e custos estruturais.
3. Brasil: Macro, fiscal e política
A ata do Copom confirmou um Banco Central mais cauteloso e dependente de dados, enfatizando a desancoragem das expectativas e os riscos de segunda ordem do choque de energia. Embora o cenário‑base ainda contemple cortes graduais de 0,25 p.p., o mercado passou a atribuir probabilidade relevante a uma pausa no ciclo, sobretudo após a alta do IGP‑DI e a persistência das tensões externas. A curva de juros refletiu essa ambiguidade, com maior fechamento no miolo e resistência na ponta longa, sugerindo juro terminal mais elevado.
No campo político, a viagem de Lula a Washington ajudou a recompor capital simbólico após derrotas recentes no Congresso. O encontro com Trump resultou na prorrogação por 30 dias das negociações comerciais, sem avanços estruturais imediatos, mas reduziu o risco de deterioração abrupta da relação bilateral. Internamente, porém, o ambiente seguiu ruidoso, com pressão sobre o governo em temas fiscais, autonomia do BC e investigações envolvendo figuras centrais do Congresso. O pano de fundo segue sendo de fragilidade institucional em um contexto pré‑eleitoral.
4. Mercados financeiros
Globalmente, o petróleo foi o ativo‑chave da semana: o Brent flertou com US$ 115 nos momentos de maior tensão e chegou a cair abaixo de US$ 101 com rumores de acordo, apenas para voltar a subir com novos confrontos. Essa dinâmica se traduziu em forte volatilidade dos Treasuries, com o T‑bond de 30 anos rompendo 5% em um momento e recuando nos dias seguintes. Apesar disso, as bolsas americanas renovaram máximas históricas, sustentadas por balanços robustos de tecnologia, especialmente no segmento ligado à inteligência artificial.
No Brasil, o real mostrou resiliência relativa, apoiado pelo diferencial de juros e pelo fato de o país ser exportador de petróleo, mas o Ibovespa sofreu com rotação setorial e realização após o pico do rali. Bancos oscilaram fortemente ao longo da semana, enquanto Petrobras e Vale refletiram diretamente as oscilações das commodities. A temporada de balanços trouxe resultados majoritariamente sólidos, mas insuficientes para neutralizar o aumento do prêmio de risco macro ao final da semana.
Síntese da Semana
▪️ A guerra no Oriente Médio mostrou‑se mais longa e errática do que o mercado antecipava, mantendo o petróleo como principal vetor de risco sistêmico.
▪️ O choque de energia reancorou a discussão inflacionária global e reduziu o espaço para discursos dovish dos bancos centrais, mesmo com sinais de desaceleração da atividade.
▪️ No Brasil, o Copom reforçou cautela, a inflação de custos ganhou tração e o mercado passou a conviver com a possibilidade concreta de pausa no ciclo de cortes da Selic.
▪️ Os mercados terminaram a semana mais defensivos, com maior sensibilidade a manchetes e menor disposição para carregar risco direcional.