PIB – 4T/25 – Análise PicPay
PIB do 4º tri/25 avança 0,1% (1,8% YoY) e fecha 2025 com alta de 2,3%, com indústria fraca, consumo contido e setor externo sustentando o crescimento.
Matheus Pizzani – Economista PicPay
O PIB do quarto trimestre de 2025 registrou crescimento de 0,1% em sua base de comparação trimestral (+1,8% YoY), encerrando o ano com crescimento de 2,3%. Analisando o resultado sob suas duas principais óticas, oferta e demanda agregada, destaque para o impacto exercida pela desaceleração dos componentes ligados à economia doméstica e com maior exposição ao ciclo econômico, principais responsáveis pelo arrefecimento observado ao longo do ano e consolidado na divulgação de hoje. A principal justificativa para este movimento se dá em função do elevado nível de endividamento de famílias e empresas, responsável pela retração tanto da formação bruta de capital fixo quanto pela estagnação do consumo das famílias, que praticamente inibiram os efeitos positivos oriundos do mercado de trabalho dinâmico e nível de renda em expansão, este último ainda beneficiado pela queda da inflação ao longo do ano, especialmente em componentes com maior participação relativa na cesta de consumo das famílias, como os alimentos. O resultado positivo na margem ainda foi possível graças ao melhor comportamento da parcela da economia doméstica ligada ao mercado internacional, com a balança comercial contribuindo positivamente para o crescimento do período.
Pelo lado da oferta, conforme já era esperado, o setor industrial apresentou o pior resultado para o período, com queda de 0,7% QoQ, encerrando o ano com alta de apenas 0,6%, a menor entre os componentes desta ótica. Em linha com a análise apresentada acima, o setor industrial apresentou uma composição mais negativa dos setores voltados à economia local, com retrações de 2,3% e 0,6% dos segmentos de construção e indústria de transformação, tendo como contrapartida a alta de 1,1% da indústria extrativa, que é, por natureza, voltada para a economia internacional.
O setor de serviços, por sua vez, fechou o período com alta de 0,8% QoQ, resultado em grande medida obtido graças à alta de 3,3% do segmento de informação e comunicação, pouco sensível à fatores conjunturais e cuja expansão se dá em função da sua ligação com segmentos de fronteira tecnológica. Variáveis mais sensíveis ao nível de ociosidade da economia, como o comércio (-0,3% QoQ) e os transportes (-1,4% QoQ) acompanharam o ritmo da estagnação do consumo das famílias, evidenciando a perda de dinamismo intersetorial da economia.
Por fim, destaque positiva para o setor externo, que superou os temores relacionados ao impacto negativo que se aventava com a imposição de tarifas às exportações brasileiras por parte dos Estados Unidos e registrou saldo líquido positivo no período, com alta de 3,7% das exportações e queda de 1,8% das importações. Este último fator é visto como positivo apenas do ponto de vista contábil para a composição do PIB, embora, qualitativamente, reforce o cerne da análise aqui apresentada.
A composição do PIB do quarto trimestre reforça os pilares do cenário adotado por nós para o nível de atividade em 2026. A despeito da queda já esperada da Selic no decorrer do ano, o grau demasiadamente elevado de alavancagem de empresas e famílias deve seguir como freio ao nível de consumo privado, que tende a ficar concentrado em itens de caráter essencial, em especial os alimentos. Este quadro ganha importância adicional com os desdobramentos recentes envolvendo o cenário geopolítico internacional, que tem tornado os riscos de cauda assimétricos e com viés de alta para variáveis como câmbio e inflação, o que pode reforçar o cenário de consumo restrito no decorrer do ano, prejudicando a recuperação do setor industrial e mantendo contido o crescimento do setor de serviços.
Ademais, importante notar que o ano deve ser marcado pela retomada de um padrão mais alinhado à característica histórica de crescimento do Brasil, com a maior parte do impulso dinâmico vindo do setor externo, beneficiado pela ótima safra das principais commodities agropecuárias exportadas pelo país e, no limite, a melhora em termos de preço das commodities minerais e energéticas, com destaque para o petróleo, que, mantido tudo mais constante, pode ter seu preço de fato alavancado em função dos eventos recentes.