Economista-chefe do PicPay particpa de entrevista ao vivo na CNN Money.
Por Ariane Benedito, Economista-chefe do PicPay
Segue resumo da entrevista:
“O Boletim Focus desta segunda trouxe poucas mudanças nas projeções de inflação, mas o câmbio segue chamando atenção, com revisões sucessivas para baixo nas últimas semanas.
Cerca de 80% desse movimento de valorização do real vem de fatores globais, especialmente da queda do dólar frente a outras moedas fortes, diante das incertezas fiscais e políticas nos Estados Unidos.
Mesmo com o cenário externo favorável, os vetores domésticos seguem estáveis, o que limita uma apreciação mais consistente do real. Ainda assim, o câmbio atual contribui para uma inflação mais baixa, ao reduzir a pressão de preços importados, embora a inflação de serviços continue sendo o principal ponto de atenção.
No Focus, a projeção de crescimento para 2025 está próxima de 1,8%, o que considero um bom resultado diante do nível atual de juros, que deve seguir restritivo até o fim do próximo ano.
O ritmo de desaceleração da economia brasileira é compatível com uma política monetária ainda contracionista, sem indicar queda brusca da atividade.”
Resumo semanal: 29/09 a 03/10
Por Matheus Gomes de Souza, CEA
Ásia
Na China, a atividade econômica manteve expansão moderada em setembro, segundo o índice PMI composto do Escritório Nacional de Estatísticas (NBS), que inclui manufaturas, construção e serviços. O indicador avançou 0,1 ponto para 50,6, sustentado pela recuperação gradual da indústria (49,8) e estabilidade nos serviços (50,1). O lucro da indústria cresceu 0,9% entre janeiro e agosto, impulsionado pelo forte desempenho em agosto e pela “política anti-involução”, que visa conter a capacidade produtiva excessiva. Segmentos como eletrônicos, máquinas e bens de consumo avançados se beneficiaram de estímulos públicos. Esse cenário reforça a visão de recuperação gradual, embora desigual entre setores.
Paralelamente, a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (NDRC) anunciou um novo instrumento financeiro de 500 bilhões de yuans (cerca de 0,4% do PIB), destinado a infraestrutura tecnológica avançada e estímulo ao consumo interno. Essas medidas visam apoiar o crescimento em direção à meta anual de aproximadamente 5%, que permanece factível segundo autoridades chinesas. Embora os sinais de recuperação sejam consistentes, o ambiente econômico continua desafiador, com necessidade de equilibrar expansão produtiva e estabilidade macroeconômica. As intervenções gradativas indicam que Pequim aposta em fortalecer o setor sofisticado e reativar a demanda doméstica para sustentar o ritmo de crescimento.
Europa
Apesar do cenário adverso de guerra na Ucrânia, o índice de confiança na economia da Zona do Euro registrou leve alta em setembro, segundo a Comissão Europeia, ainda abaixo do nível pré-pandemia. O mercado de trabalho segue robusto, com a taxa de desemprego recuando para 6,3% em agosto, próxima da mínima histórica. Entre os países, a Alemanha apresentou queda para 3,4%, enquanto a Espanha manteve patamar elevado em 11,3%. Esses indicadores refletem resiliência, embora o ambiente continue sujeito a choques externos e incertezas.
No campo da inflação, o índice de preços ao consumidor da Zona do Euro registrou alta anual de 2,9% em setembro, em linha com as projeções e após dois meses de avanço de 2,2%. O movimento foi impulsionado por energia, alimentos, álcool e tabaco, enquanto bens industriais permaneceram estáveis. Apesar de estar próxima da meta de 2% definida pelo Banco Central Europeu (BCE), a inflação continua sendo acompanhada de perto diante de riscos de repique. A política monetária tende a se manter cautelosa, equilibrando a necessidade de controle inflacionário com preservação da atividade econômica, em um contexto marcado pela lenta recuperação do crescimento.
Oriente Médio
Na Faixa de Gaza, o presidente dos EUA, Donald Trump, deu prazo até domingo para que o Hamas aceite seu plano de paz, que prevê cessar-fogo imediato, troca de reféns por prisioneiros, retirada gradual de Israel, desarmamento do grupo e formação de governo de transição internacional. Considerada a “última chance”, a proposta foi endossada por Benjamin Netanyahu e mediada por Catar e Egito, mas ainda não recebeu resposta formal do Hamas. A ONU classificou o plano como “janela de oportunidade” para envio urgente de ajuda, com previsão de 170 mil toneladas de suprimentos. Paralelamente, Israel mantém bloqueios e ofensivas, que já causaram mais de 66 mil mortes em Gaza, majoritariamente civis, segundo autoridades locais.
No contexto regional, a Síria realiza eleições indiretas para seu primeiro parlamento pós-Assad, sob críticas de baixa representatividade e exclusão de minorias, mulheres e áreas controladas por curdos e drusos. Na Arábia Saudita, a Fitch alertou para riscos fiscais diante de petróleo mais barato e altos gastos do Visão 2030, com déficit projetado em 5,3% do PIB em 2025. Os Emirados Árabes registraram a maior expansão do setor não petrolífero em sete meses, com PMI em 54,2 e expectativa de crescimento robusto até 2026. Já a Turquia viu a inflação disparar para 33,29% em setembro, pressionando o banco central a moderar cortes de juros. No campo geopolítico, aumentaram as tensões após Israel interceptar a flotilha humanitária Global Sumud, detendo cerca de 450 ativistas — incluindo brasileiros — e provocando protestos e reações diplomáticas internacionais.
Estados Unidos
Desde 1º de outubro, o governo americano enfrenta um shutdown devido à falta de aprovação do orçamento no Congresso, reflexo do impasse entre democratas — que pressionam por mais investimentos em saúde pública — e opositores. A paralisação suspendeu a divulgação de estatísticas econômicas, incluindo dados cruciais do mercado de trabalho, como criação de empregos (payroll), taxa de desemprego, ganhos por hora e pedidos de seguro-desemprego. Historicamente, shutdowns têm impacto econômico limitado por serem temporários, mas podem gerar ruídos no curto prazo. Em agosto, o número de vagas abertas subiu levemente frente a julho, ainda abaixo do patamar pré-pandemia, sinalizando um desaquecimento gradual.
No setor produtivo, a indústria manufatureira permaneceu em contração, embora de forma mais moderada, com o PMI do ISM em 49,1 pontos (+0,4 p.p.), destacando a recuperação do subíndice de produção, ainda que emprego e demanda sigam enfraquecidos. Já o setor de serviços registrou estabilidade, com PMI em 50 pontos, refletindo desaceleração da demanda e fraqueza no emprego. A confiança do consumidor recuou para 103 pontos, influenciada por temores de recessão e mercado de trabalho mais incerto. No mercado imobiliário, as vendas de novas residências caíram 4%, maior baixa desde fevereiro, em meio a juros hipotecários próximos de 7,5% ao ano — patamar mais alto em décadas, que mantém o setor abaixo dos níveis pré-pandemia.
Brasil
Em setembro, o IGP-M apresentou alta de 0,42%, superando a mediana das projeções de mercado (0,32%), puxado especialmente pelo avanço de 3,6% no IPA agrícola. O núcleo do IPA industrial recuou 0,4%, com queda nos segmentos ex-alimentos, combustíveis e minério de ferro, mas ainda acumula crescimento de 3,1% no período de 12 meses. No acumulado anual, o IGP-M registra elevação de 2,8%, abaixo dos 3% do mês anterior. O recente movimento de valorização das commodities, somado a um mercado de trabalho aquecido, tende a manter pressão inflacionária sobre o IPCA, especialmente nos serviços. Esse cenário reforça a necessidade de atenção para fatores domésticos de custo.
A taxa de desemprego medida pela PNAD Contínua atingiu 5,6% no trimestre encerrado em agosto, levemente inferior aos 5,7% do mês anterior, marcando o menor nível histórico. Apesar da leve retração da ocupação frente ao mesmo período do ano anterior, observa-se estabilidade geral no mercado de trabalho. Houve aumento no número de empregados com carteira assinada (+2,8%) e trabalhadores por conta própria (+2,5%), enquanto a informalidade recuou 2,5%. A persistência de um mercado aquecido, porém, dificulta o controle da inflação, em especial no setor de serviços, aumentando o desafio para a política monetária no curto prazo.
Indústria em agosto
Por Igor Cadilhac
Praticamente em linha com as nossas projeções, que indicavam alta de 0,9%, a produção industrial nacional cresceu 0,8% entre julho e agosto, recuperando parte das perdas acumuladas nos quatro meses anteriores. Apesar do resultado positivo na margem, na comparação interanual o setor registrou queda de 0,7%. De forma geral, seguimos observando sinais de desaceleração gradual da atividade econômica, com segmentos menos sensíveis ao ciclo, como a indústria extrativa, compensando ao longo do ano os desafios estruturais enfrentados pela indústria de transformação. Já em agosto, a dinâmica foi distinta: enquanto a indústria de transformação avançou 0,6%, a extrativa recuou 0,3%.
Das 25 atividades industriais pesquisadas, 16 registraram expansão em relação ao mês anterior. Entre os destaques positivos, sobressaíram farmoquímicos e farmacêuticos (13,4%), coque, derivados do petróleo e biocombustíveis (1,8%) e produtos alimentícios (1,3%). Em contrapartida, os principais impactos negativos vieram de produtos químicos (-1,6%), máquinas e equipamentos (-2,2%), produtos de madeira (-8,6%), artefatos de couro, artigos para viagem e calçados (-3,6%) e indústrias extrativas (-0,3%).
Entre as grandes categorias econômicas, três das quatro registraram avanço no mês: bens intermediários (1,0%), bens de consumo semi e não duráveis (0,9%) e bens de consumo duráveis (0,6%). Já as quedas em bens de capital (-1,4%) e insumos típicos da construção civil (-1,1%) sugerem deterioração na proxy do PIB de investimentos em agosto.
Para 2025, projetamos crescimento de 1,9% na produção industrial brasileira. Apesar dos desafios impostos pela desaceleração da economia global e pelo prolongado período de juros elevados, acreditamos que a retração será moderada. Fatores como uma balança comercial sólida e políticas governamentais de estímulo à atividade devem contribuir para mitigar os impactos negativos sobre o setor.