Resumo semanal: 06/04/2026 a 10/04/2026

Por Matheus Gomes de Souza, CEA

1. Cenário global e geopolítica

A retórica inicial de Donald Trump elevou significativamente o risco sistêmico ao ameaçar diretamente a infraestrutura energética iraniana e condicionar a paz à reabertura do Estreito de Ormuz. O bloqueio parcial da via, responsável por cerca de 20% do petróleo global, reduziu drasticamente o tráfego marítimo e levou os preços do Brent e do WTI a patamares acima de US$ 110. Ataques cruzados no Golfo, inclusive a instalações energéticas, reforçaram a leitura de que o choque de oferta poderia ser prolongado, enquanto China e Rússia atuaram diplomaticamente para conter a escalada no âmbito da ONU.

A mediação do Paquistão e a decisão dos EUA de suspender ataques por duas semanas mudaram a dinâmica do risco, ainda que sem estabilizá‑la. O Irã concordou formalmente com uma abertura temporária de Ormuz, mas divergências públicas sobre os termos do cessar‑fogo, ataques de Israel no Líbano e restrições operacionais mantidas por Teerã expuseram a fragilidade do acordo. Ao final da semana, o mercado passou a precificar um cenário menos extremo, porém com prêmio geopolítico ainda relevante, refletindo a percepção de que a resolução definitiva permanece incerta.

2. Política monetária e inflação

O conflito no Oriente Médio rapidamente se traduziu em pressão inflacionária global, reforçando o dilema dos bancos centrais em um momento de desancoragem parcial das expectativas. O canal de transmissão via energia dominou as leituras da semana.

Nos Estados Unidos, o CPI de março registrou alta mensal de 0,9% e anual de 3,3%, o maior avanço mensal desde 2022, impulsionado pela disparada da gasolina acima de US$ 4 por galão. Apesar de alguma moderação no núcleo, o dado confirmou que o choque do petróleo já contaminou a inflação cheia. O payroll forte reforçou a resiliência do mercado de trabalho, reduzindo a urgência por cortes de juros, enquanto a ata do Fed e falas de dirigentes evidenciaram desconforto com a persistência inflacionária, sobretudo diante de choques de oferta.

Na Europa e na Ásia, o padrão se repetiu. A Alemanha confirmou aceleração da inflação para 2,7%, com forte contribuição da energia, enquanto Japão e Coreia do Sul mostraram pressões relevantes nos preços ao produtor e optaram por manter políticas monetárias cautelosas. No Brasil, o IPCA de março acelerou para 0,88%, acima das expectativas, com combustíveis e alimentos respondendo pela maior parte do índice. A deterioração das expectativas inflacionárias até horizontes longos reforçou o debate sobre os limites do ciclo de flexibilização monetária.

3. Brasil: Macro, fiscal e política

Internamente, o choque externo encontrou um ambiente doméstico sensível, tanto do ponto de vista inflacionário quanto político. A resposta do governo buscou mitigar impactos imediatos, mas adicionou incerteza fiscal e regulatória.

O Executivo anunciou um pacote amplo de subvenções ao diesel, GLP e querosene de aviação, além de crédito direcionado a setores intensivos em energia. Embora o governo sustente neutralidade fiscal via aumento de arrecadação com o petróleo, o mercado questionou a efetividade dessa compensação, especialmente após decisões judiciais suspenderem o imposto de exportação. Persistiram dúvidas sobre operacionalização, prazos de ressarcimento e repasse ao consumidor, mantendo riscos de distorções na oferta e de desorganização logística.

No campo político, a estratégia do governo revelou forte viés eleitoral, com avanço simultâneo de pautas como renegociação de dívidas das famílias, subsídios energéticos e a proposta de fim da escala 6×1. A piora na popularidade, especialmente entre jovens, aumentou a pressão por medidas de curto prazo. Ao mesmo tempo, o debate sobre autonomia orçamentária do Banco Central voltou a travar no Congresso, enquanto mudanças na governança da Petrobras reacenderam receios de ingerência política, adicionando prêmio de risco institucional.

4. Mercados financeiros

Os mercados operaram sob extrema volatilidade, reagindo quase exclusivamente à evolução do conflito e à precificação do risco energético. O comportamento dos ativos refletiu mudanças rápidas no regime de risco ao longo da semana.

No auge da tensão, o petróleo disparou, os juros globais subiram e o dólar ganhou força, enquanto as bolsas operaram defensivas. A sinalização de cessar‑fogo temporário provocou uma reversão abrupta: o Brent caiu para a região de US$ 95, os Treasuries aliviaram e Wall Street renovou máximas. Apesar da fragilidade do acordo, os investidores optaram por reduzir posições defensivas, apostando em menor probabilidade de ruptura extrema no fornecimento de energia.

No Brasil, o movimento foi amplificado por forte fluxo estrangeiro. O Ibovespa renovou máximas históricas acima de 195 mil pontos, com destaque para bancos e setores domésticos sensíveis ao câmbio. O dólar recuou para a faixa de R$ 5,05–5,10, enquanto a curva de juros fechou, apesar de ainda refletir prêmio inflacionário. Petrobras exibiu elevada volatilidade, acompanhando o petróleo, mas o regime de mercado encerrou a semana em tom construtivo, ainda que dependente da estabilidade geopolítica.

Síntese da Semana

Resumo semanal: 30/03/2026 a 02/04/2026

Por Matheus Gomes de Souza, CEA

1. Cenário global e geopolítica

Ao longo dos dias, o conflito alternou sinais de possível desescalada com retórica agressiva, especialmente por parte de Donald Trump. Declarações sobre encerramento da ofensiva em “duas a três semanas” sustentaram breves episódios de alívio nos mercados, mas foram rapidamente revertidas por discursos prometendo ataques “com extrema força” e expansão das ações militares. O fechamento quase total do Estreito de Ormuz permaneceu como principal risco estrutural, mantendo o choque de oferta de petróleo como vetor central da semana.

Apesar dos esforços diplomáticos envolvendo China, Paquistão, Turquia e países do Golfo, não houve avanço concreto para cessar-fogo. A ausência de consenso entre aliados ocidentais, somada à ambiguidade estratégica de Washington, consolidou a percepção de que o conflito tende a se prolongar. Ao final da semana, o mercado precificou um cenário de guerra mais longa do que o inicialmente prometido, com elevado custo econômico global.

2. Política monetária e inflação

O petróleo acumulou altas expressivas no mês, mantendo-se acima de US$ 100 por barril mesmo nos momentos de alívio geopolítico. Estimativas passaram a indicar impacto inflacionário global entre 0,8 p.p. no cenário-base e até 2 p.p. em cenários adversos, reacendendo temores de estagflação. Nos EUA, dirigentes do Fed adotaram discurso mais cauteloso, reforçando a estratégia de “wait and see” diante da incerteza sobre a persistência do choque energético.

Os mercados passaram a descartar completamente a hipótese de alta de juros nos EUA em 2026, mas também empurraram para mais longe qualquer início de ciclo de cortes. Os Treasuries oscilaram conforme a narrativa da guerra, enquanto o dólar se fortaleceu em momentos de maior aversão ao risco. A leitura predominante ao final da semana foi de política monetária global mais restritiva por mais tempo, não por excesso de crescimento, mas por choques de custo e risco geopolítico.

3. Brasil: Macro, fiscal e política

O governo avançou com a proposta de subvenção ao diesel importado, de R$ 1,20 por litro, com adesão da maioria dos Estados, buscando evitar desabastecimento e suavizar o repasse do petróleo à inflação. Medidas adicionais foram discutidas para conter tarifas de energia e mitigar impactos sobre famílias e empresas, em um contexto de endividamento recorde das famílias e juros ainda elevados. No campo fiscal, o bloqueio de R$ 1,6 bilhão no Orçamento foi detalhado, enquanto se manteve oficialmente a meta fiscal de médio prazo.

Na política monetária, falas de Galípolo e Picchetti reforçaram a leitura de cautela e gradualismo. O Caged mostrou mercado de trabalho ainda robusto, porém em acomodação, e a inflação corrente acelerou com combustíveis. O consenso ao final da semana apontava para um corte de 0,25 p.p. da Selic como cenário-base, com redução significativa da probabilidade de movimentos mais agressivos. No plano político, pesquisas eleitorais mostraram deterioração da popularidade de Lula e maior incerteza para 2026, adicionando ruído ao ambiente macro.

4. Mercados financeiros

Globalmente, bolsas alternaram entre correção e forte recuperação intraday conforme surgiam rumores de cessar-fogo ou novas ameaças militares. Em Nova York, índices chegaram a entrar em território de correção, mas reagiram nos momentos de maior otimismo, ainda encerrando o mês com perdas relevantes. O dólar global (DXY) oscilou, refletindo tanto aversão ao risco quanto ajustes na curva de juros americana.

No Brasil, o Ibovespa mostrou resiliência relativa, beneficiado pelo fluxo estrangeiro e pelo peso de Petrobras, que capturou diretamente a alta do petróleo. O real se manteve apreciado frente ao dólar, apoiado pelo status do Brasil como exportador líquido de petróleo e pela entrada consistente de capital externo. A curva de juros doméstica queimou prêmio nos vencimentos longos nos momentos de alívio geopolítico, mas permaneceu elevada nos curtos, refletindo a leitura de Selic mais alta por mais tempo.

Síntese da Semana

▪️ A guerra no Oriente Médio consolidou-se como choque sistêmico, com fechamento do Estreito de Ormuz sustentando petróleo estruturalmente mais caro.
▪️ O risco de estagflação global ganhou tração, reduzindo o espaço para cortes de juros nos principais bancos centrais.
▪️ No Brasil, o petróleo alto protegeu câmbio e bolsa, mas pressionou inflação e limitou o ritmo de flexibilização da Selic.
▪️ A narrativa errática de Trump manteve os mercados em estado de alerta, elevando volatilidade e encurtando horizontes de risco.

Resumo semanal: 23/03 a 27/03

Por Matheus Gomes de Souza, CEA

1. Cenário global e geopolítica

A semana foi dominada pela escalada e posterior oscilação das narrativas em torno da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, com impacto direto sobre os mercados globais. O conflito entrou na quarta semana sem resolução clara, alternando ameaças de ofensiva terrestre, riscos de fechamento do Estreito de Ormuz e tentativas diplomáticas frágeis lideradas por Washington. O adiamento sucessivo dos prazos impostos por Trump ao Irã reforçou a percepção de impasse, aumentando a volatilidade e reduzindo a credibilidade das sinalizações políticas.

O preço do petróleo refletiu essa instabilidade, com movimentos extremos ao longo da semana. O Brent chegou a superar US$ 112, recuou abaixo de US$ 100 com rumores de cessar-fogo e voltou a subir acima desse patamar diante da falta de avanços concretos. A incerteza sobre fluxos energéticos no Golfo Pérsico manteve elevado o prêmio de risco geopolítico, com alertas de organismos internacionais sobre impactos persistentes na inflação global e no crescimento econômico caso o conflito se prolongue.

2. Política monetária e inflação

O choque do petróleo recolocou a inflação no centro das preocupações dos principais bancos centrais. Nos EUA, a guerra elevou o viés hawkish implícito, com o mercado voltando a precificar a possibilidade de alta de juros ainda em 2026, apesar de discursos pontuais mais dovish. Na Europa, dados como a inflação espanhola de 3,3% em março evidenciaram a reversão do processo desinflacionário, reforçando a cautela do BCE e aumentando as apostas de aperto monetário.

No Brasil, a ata do Copom confirmou a leitura de que o comitê iniciou o ciclo de afrouxamento com extremo conservadorismo, tratando o petróleo elevado como um choque ainda incerto. O ajuste marginal da projeção do IPCA no horizonte relevante (3,2% para 3,3%) foi visto como otimista por parte do mercado, especialmente diante da alta dos combustíveis. A comunicação de Galípolo reforçou a dependência total do cenário externo, mantendo todas as opções abertas para abril e ancorando as expectativas de cortes adicionais apenas se houver alívio consistente no front geopolítico.

3. Brasil: Macro, fiscal e política

No campo macroeconômico, os dados de emprego mostraram sinais iniciais de acomodação. A taxa de desemprego subiu para 5,8% no trimestre encerrado em fevereiro, ainda em mínima histórica para o período, enquanto o rendimento real médio atingiu novo recorde. O BC destacou que o mercado de trabalho segue apertado, com riscos inflacionários associados, mas reconheceu possíveis efeitos defasados da política monetária restritiva sobre a atividade.

No fiscal, o governo revisou significativamente para baixo a projeção de superávit primário, aproximando o resultado do piso da meta. Medidas emergenciais para mitigar o impacto da alta do diesel (como subvenções diretas e desonerações) ampliaram as preocupações com a trajetória das contas públicas. No plano político, o ambiente seguiu carregado, com ruídos institucionais, avanço de investigações sensíveis e pesquisas eleitorais indicando deterioração da popularidade do governo, adicionando prêmio de risco doméstico aos ativos.

4. Mercados financeiros

Os mercados globais operaram em regime de alta volatilidade, com rotações abruptas entre ativos de risco e proteção conforme as manchetes da guerra. Em Wall Street, os principais índices alternaram fortes altas e quedas, com o Nasdaq entrando em território de correção técnica. O dólar se fortaleceu globalmente em momentos de aversão ao risco, enquanto os Treasuries registraram alta relevante nos yields, refletindo preocupações inflacionárias persistentes.

No Brasil, o Ibovespa acompanhou o humor externo, com movimentos intensos ao longo da semana e forte sensibilidade às oscilações do petróleo. Petrobras voltou a exercer papel central na dinâmica do índice, enquanto bancos e empresas cíclicas sofreram nos momentos de estresse. O câmbio refletiu tanto o ambiente externo quanto riscos locais, e a curva de juros permaneceu altamente volátil, ajustando rapidamente as expectativas para o ritmo e a magnitude do ciclo de cortes da Selic.

Síntese da Semana