Resumo semanal: 27/04/2026 a 30/04/2026

Por Matheus Gomes de Souza, CEA

1. Cenário global e geopolítica

O fracasso das negociações indiretas entre EUA e Irã reforçou a leitura de um conflito sem horizonte claro de resolução. O Estreito de Ormuz permaneceu praticamente fechado, limitando o fluxo global de petróleo, gás e insumos estratégicos, o que sustentou o Brent acima de US$ 100 ao longo da semana e o levou a tocar níveis próximos de US$ 120 após novas ameaças militares de Washington. A estratégia americana de manter o bloqueio aos portos iranianos, condicionando qualquer alívio a concessões nucleares, aprofundou o impasse e aumentou o risco de ruptura adicional na oferta global de energia.

Os efeitos colaterais começaram a se materializar fora do Oriente Médio, com relatos de racionamento de combustíveis em partes da Ásia e da África e aumento da volatilidade nos mercados globais. A saída anunciada dos Emirados Árabes Unidos da Opep+ trouxe algum debate sobre oferta futura, mas não foi suficiente para aliviar os preços no curto prazo. Ao final da semana, o mercado passou a tratar o conflito não mais como evento transitório, mas como um vetor estrutural de risco, com implicações duradouras para inflação, crescimento e política monetária global.

2. Política monetária e inflação

O Federal Reserve manteve a taxa entre 3,50% e 3,75%, mas adotou tom mais duro ao reconhecer explicitamente que o choque do petróleo ainda não atingiu seu pico e tende a pressionar inflação e cadeias produtivas. Powell reforçou a estratégia de “esperar para ver”, afastando qualquer sinalização de cortes no curto prazo. A reprecificação foi significativa: o mercado passou a empurrar o início da flexibilização para horizontes bem mais distantes, enquanto os Treasuries subiram e o dólar ganhou força ao longo da semana.

Na Europa, BCE e BoE também mantiveram juros, mas ambos destacaram a intensificação dos riscos inflacionários. A inflação da zona do euro subiu para 3,0% em abril, com energia avançando quase 11%, enquanto o núcleo mostrou apenas leve arrefecimento. O BCE deixou claro que a pausa é temporária, condicionada à duração do choque energético. No Reino Unido, o BoE reconheceu que a inflação já supera o previsto antes da guerra e alertou para efeitos de segunda ordem via salários e preços. O pano de fundo comum foi a consolidação do petróleo como choque inflacionário importado, limitando o espaço para políticas monetárias mais acomodatícias.

3. Brasil: Macro, fiscal e política

O Banco Central reduziu a Selic em 0,25 p.p., para 14,50%, mas adotou comunicação mais cautelosa. A projeção de inflação para o horizonte relevante subiu para 3,5%, acima do centro da meta, refletindo petróleo elevado e expectativas desancoradas. O Comitê evitou classificar o balanço de riscos como assimétrico, mas deslocou o foco do debate para a extensão total do ciclo de cortes, reduzindo a probabilidade de aceleração do ritmo. Dados reforçaram o dilema: o IPCA-15 acelerou, com piora qualitativa dos núcleos, enquanto o mercado de trabalho seguiu resiliente, com desemprego em 6,1%, o menor para um trimestre encerrado em março na série histórica.

No campo fiscal, o déficit do Governo Central em março foi recorde para o mês, pressionado por precatórios, enquanto o Caged surpreendeu positivamente, indicando atividade ainda firme. Politicamente, a rejeição inédita de Jorge Messias ao STF marcou uma derrota histórica para o governo Lula e escancarou fragilidade na articulação com o Senado. O episódio elevou a percepção de risco político e adicionou um vetor doméstico de incerteza em um momento já sensível do ciclo macroeconômico.

4. Mercados financeiros

No exterior, Wall Street conseguiu sustentar níveis elevados graças aos resultados robustos das big techs, embora com maior sensibilidade a guidance e capex. Alphabet surpreendeu positivamente, enquanto Meta foi penalizada pelo aumento expressivo de investimentos. Ainda assim, o avanço do petróleo e o tom hawkish do Fed limitaram o apetite por risco, elevando yields e interrompendo a sequência de recordes. O dólar se fortaleceu globalmente ao longo da semana, refletindo a reprecificação da política monetária americana.

No Brasil, o Ibovespa acumulou fortes perdas, pressionado por saída gradual de capital estrangeiro, queda acentuada de Vale após frustração com o balanço e desempenho negativo dos bancos, afetados por cenário macro mais duro e ruídos regulatórios. Petrobras foi exceção, beneficiada diretamente pelo rali do petróleo. A curva de juros abriu de forma relevante, incorporando prêmio de risco externo e doméstico, enquanto o câmbio voltou a testar R$ 5, refletindo o ambiente global mais defensivo.

Síntese da Semana

▪️ O conflito entre EUA e Irã deixou de ser ruído geopolítico e se consolidou como choque estrutural de energia, elevando inflação global e prêmios de risco.


▪️ Bancos centrais mantiveram juros, mas a comunicação ficou mais hawkish, reforçando a tese de juros elevados por mais tempo.


▪️ No Brasil, o Copom calibrou o corte, mas reconheceu piora do cenário, enquanto dados de atividade e trabalho seguem resilientes e a inflação pressiona.


▪️ A derrota política do governo no Senado adicionou risco doméstico em um ambiente já adverso.


▪️ Nos mercados, energia e dólar se fortaleceram, enquanto bolsas (sobretudo a brasileira) passaram por ajuste relevante diante do novo regime de risco.

Resumo semanal: 20/04/2026 a 26/04/2026

Por Matheus Gomes de Souza, CEA

1. Cenário global e geopolítica

O conflito entre Estados Unidos e Irã evoluiu de uma narrativa inicial de distensão para um quadro de bloqueio persistente e negociações esvaziadas. A reversão da reabertura do Estreito de Ormuz, a manutenção do bloqueio naval americano e a recusa iraniana em avançar em novas rodadas diplomáticas consolidaram a leitura de que a trégua não representava um acordo funcional. Ao longo da semana, disparos contra embarcações, apreensões de navios e tráfego severamente reduzido reforçaram a percepção de restrição efetiva na principal rota energética do mundo.

No desfecho, o conflito passou a ser precificado como prolongado, com risco recorrente de escalada. A retórica americana manteve ambiguidade (sinalizando disposição para negociar, mas sem retirar instrumentos de pressão) enquanto Teerã reforçou uma postura de resistência, utilizando Ormuz como alavanca estratégica. Em paralelo, tensões secundárias entre Israel e Líbano permaneceram latentes, adicionando risco de cauda. O resultado foi a consolidação de um ambiente “headline‑driven”, com volatilidade elevada e sensibilidade extrema dos ativos globais a qualquer novo desdobramento político‑militar.

2. Política monetária e inflação

A alta persistente do petróleo (com o Brent superando novamente a marca de US$ 100 e encerrando a semana acima de US$ 105) reacendeu preocupações inflacionárias nas principais economias. Esse movimento contaminou expectativas de juros, interrompeu o alívio recente nas curvas soberanas e reforçou a leitura de que qualquer corte de juros dependerá não apenas de dados de atividade, mas também da evolução do conflito geopolítico. Nos Estados Unidos, os Treasuries refletiram esse ambiente com abertura marginal das taxas, enquanto o dólar voltou a ganhar tração defensiva.

No campo institucional, a sabatina de Kevin Warsh reforçou a incerteza sobre a condução futura do Federal Reserve. O indicado evitou compromissos claros com trajetórias de juros, minimizou impactos inflacionários permanentes das tarifas e enfatizou limitações do forward guidance, sinalizando um Fed ainda mais data‑dependent. Em outras regiões, o Banco Central da Rússia surpreendeu ao cortar juros em 50 pb, para 14,5% ao ano, mas destacou riscos externos relevantes. Na Europa, dados fracos (como a queda acentuada do índice Ifo na Alemanha) reforçaram o diagnóstico de atividade pressionada pelo choque energético.

3. Brasil: Macro, fiscal e política

No front macro, os dados do setor externo mostraram déficit em transações correntes de US$ 6,0 bilhões em março e saldo negativo de 2,71% do PIB em 12 meses, com saída líquida relevante de capitais em renda fixa, parcialmente compensada por entradas modestas em ações. Apesar disso, o real mostrou resiliência ao longo da semana, sustentado pelo diferencial de juros e pelo status do país como produtor de petróleo, embora tenha encerrado o período novamente acima de R$ 5 com o aumento do estresse global.

A política econômica adicionou volatilidade. A resposta do governo à alta dos combustíveis gerou ruído ao sinalizar inicialmente uma desoneração imediata que não se confirmou. A proposta enviada ao Congresso, condicionando cortes de impostos a receitas extraordinárias do petróleo, foi percebida como lenta, temporária e com eficácia limitada no curto prazo, além de levantar dúvidas sobre neutralidade fiscal. Paralelamente, avançaram pautas sensíveis no Congresso, como a PEC do fim da escala 6×1, reforçando incertezas sobre custos econômicos em um ambiente de expectativas inflacionárias já deterioradas.

4. Mercados financeiros

Globalmente, Wall Street iniciou a semana renovando máximas históricas, mas perdeu fôlego à medida que o impasse no Oriente Médio se consolidou e a temporada de balanços das big techs mostrou um padrão mais exigente. Resultados acima do esperado deixaram de ser suficientes sem aceleração de guidance, levando a correções relevantes em nomes como Tesla, IBM e ServiceNow. O S&P 500 e o Nasdaq encerraram a semana em movimento de ajuste, refletindo a combinação de petróleo caro, juros pressionados e maior aversão ao risco.

No Brasil, o Ibovespa passou por forte realização, devolvendo ganhos recentes e encerrando abaixo dos 192 mil pontos, com queda concentrada em bancos e ações sensíveis a juros. Petrobras voltou a atuar como amortecedor parcial, beneficiada pela escalada do petróleo, enquanto Vale e setores domésticos sofreram com o aumento do prêmio de risco. A curva de juros futuros abriu de forma consistente, precificando quase integralmente apenas um corte de 25 pb na próxima reunião do Copom. O dólar retomou força defensiva, refletindo o ambiente externo mais adverso e o ruído fiscal doméstico.

Síntese da Semana

▪️ O conflito no Oriente Médio deixou de ser tratado como choque transitório e passou a ser precificado como impasse estrutural, com o Estreito de Ormuz incorporado como variável permanente de risco sistêmico.

▪️ O petróleo reassumiu papel central como principal canal de transmissão macro, sustentando prêmio geopolítico persistente, reacendendo pressões inflacionárias e reduzindo o espaço para flexibilização monetária nas principais economias.

▪️ A política monetária global voltou a operar sob maior assimetria de riscos, com bancos centrais mais dependentes de dados e menos confortáveis em sinalizar cortes, diante da combinação de energia cara, atividade enfraquecida e incerteza geopolítica.

▪️ Os mercados migraram para um regime de maior volatilidade e seletividade, com correções em ativos de risco, abertura das curvas de juros e fortalecimento defensivo do dólar, enquanto o Brasil sentiu a combinação de estresse externo, ruído fiscal e reprecificação doméstica.

Resumo semanal: 13/04/2026 a 17/04/2026

Por Matheus Gomes de Souza, CEA

1. Cenário global e geopolítica

O bloqueio total dos portos iranianos pelos Estados Unidos marcou o início da semana com um choque geopolítico relevante, elevando o risco de disrupção no fluxo global de energia e pressionando fortemente o petróleo. A decisão ocorreu após o fracasso das negociações em Islamabad e manteve sob tensão o Estreito de Ormuz, rota crítica por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial. A reação do Irã foi dura, com reforço militar e retórica de confronto, enquanto Washington intensificou sua presença na região, elevando o risco de um evento sistêmico no mercado de energia.

Ao longo dos dias, sinais de reabertura diplomática (com discussões sobre um novo encontro entre EUA e Irã e a mediação do Paquistão) reduziram o estresse inicial. Houve também avanço tático em outro front, com a trégua temporária entre Israel e Líbano. Ainda assim, o mercado passou a diferenciar discurso de fato: sem datas confirmadas ou concessões concretas sobre o programa nuclear iraniano e o controle de Ormuz, o conflito saiu da fase de choque e entrou em um impasse negociado, mantendo prêmio de risco geopolítico elevado, porém mais estável.

2. Política monetária e inflação

Nos Estados Unidos, a alta recente do petróleo contaminou os dados de inflação, com o CPI de março acelerando para 3,3% em 12 meses, impulsionado principalmente pelos combustíveis. Apesar disso, o núcleo veio levemente abaixo do esperado, e o PPI divulgado ao longo da semana surpreendeu para baixo, ajudando a aliviar temores de efeitos secundários mais persistentes. O mercado manteve a leitura de que cortes de juros pelo Fed seguem distantes, concentrados apenas a partir da segunda metade de 2027, com Treasuries oscilando conforme o noticiário geopolítico.

Na Europa, o choque de energia foi tratado como potencialmente temporário. Dirigentes do BCE reforçaram que a inflação já havia retornado a níveis próximos de 2% antes do conflito, dando espaço para avaliar os impactos sem reação imediata. Ainda assim, dados de comércio evidenciaram fragilidade adicional: o superávit comercial da União Europeia caiu 60% em fevereiro, com forte retração das exportações para os EUA após a imposição de tarifas, adicionando um vetor de desaceleração ao cenário macro do bloco.

3. Brasil: Macro, fiscal e política

O IPCA de março confirmou a deterioração do quadro inflacionário, com alta de 0,88% no mês e aceleração para 4,14% em 12 meses, acima do teto implícito das projeções. O choque veio majoritariamente dos combustíveis, em linha com a disparada do petróleo, mas também houve pressão relevante em alimentação. Em resposta, o Banco Central reforçou o tom de cautela: diretores indicaram que o ciclo de cortes da Selic será calibrado e lento, com ampla precificação de redução de apenas 0,25 pp na próxima reunião, diante da desancoragem das expectativas.

No campo fiscal, o governo enviou o PLDO de 2027 mantendo a meta de superávit primário de 0,5% do PIB. Embora o desenho sinalize compromisso com consolidação gradual e acione gatilhos do arcabouço, analistas destacaram que o cumprimento depende de exclusões relevantes de gastos, como precatórios, o que reduz o esforço fiscal efetivo. Politicamente, avançaram pautas sensíveis (como o fim da escala 6×1 e programas de crédito para famílias endividadas) reforçando o viés social da agenda, mas também ampliando a percepção de risco fiscal em um horizonte pré-eleitoral.

4. Mercados financeiros

O petróleo foi o principal vetor da semana: disparou acima de US$ 100 com o bloqueio ao Irã, recuou com sinais de negociação e voltou a se aproximar desse patamar diante da ausência de desfecho concreto. Essa volatilidade se refletiu nos mercados globais, com bolsas americanas renovando máximas históricas à medida que o choque inicial era absorvido, enquanto Treasuries e o dólar global (DXY) oscilaram sem direção clara, refletindo ceticismo crescente quanto às declarações políticas.

No Brasil, o destaque foi o fluxo externo extraordinariamente forte. O Ibovespa acumulou novas máximas históricas ao longo da semana, aproximando-se da marca simbólica dos 200 mil pontos, impulsionado por entradas relevantes de capital estrangeiro e pelo diferencial de juros elevado. O dólar rompeu o nível de R$ 5,00, mas mostrou sinais de esgotamento, sugerindo que o real pode estar próximo de um limite de valorização no curto prazo. Nos juros, a curva curta permaneceu pressionada pelo IPCA e pelo choque de energia, enquanto os vértices longos refletiram alívio parcial com a atividade mais fraca e a percepção de que o conflito, embora persistente, tende a ser negociado.

Síntese da Semana

▪️ O conflito no Oriente Médio saiu da fase de choque e entrou em um impasse negociado, mantendo prêmio de risco elevado, mas sem ruptura sistêmica imediata.


▪️ O choque do petróleo reacendeu preocupações inflacionárias, limitando o espaço para cortes de juros e reforçando discursos de cautela dos bancos centrais.


▪️ No Brasil, inflação pressionada, atividade em desaceleração marginal e um fiscal formalmente ambicioso, porém dependente de exceções, moldaram a leitura macro.


▪️ Os mercados foram sustentados por fluxo e liquidez, especialmente no Brasil, mas terminaram a semana mais céticos, exigindo fatos (não apenas sinalizações) para novas reprecificações.