Resumo semanal: 18/05/2026 a 22/05/2026

Por Matheus Gomes de Souza, CEA

1. Cenário global e geopolítica

Ao longo da semana, o mercado migrou da precificação de um ataque imediato dos EUA ao Irã para a incorporação do custo econômico de uma guerra longa. As ameaças e recuos sucessivos de Donald Trump perderam poder de choque, substituídos por uma leitura mais estrutural: o Estreito de Ormuz segue operando com restrições, sob controle iraniano parcial, e sem perspectiva concreta de normalização rápida. Mesmo sem bloqueio total, o uso de rotas designadas, autorizações seletivas e cobranças adicionais manteve a percepção de risco elevado para a oferta global de petróleo. Tentativas de mediação envolvendo Paquistão, países do Golfo e contatos indiretos com Washington reduziram o risco de escalada imediata, mas não resolveram os impasses centrais ligados ao urânio enriquecido iraniano e às sanções.

Esse pano de fundo geopolítico foi agravado por sinais de reorganização estratégica global. A visita de Vladimir Putin à China, o alinhamento tático sino-russo e o papel ambíguo de Pequim (interessada em manter o fluxo energético, mas sem pressionar Teerã) reforçaram a fragmentação do sistema internacional. O mercado passou a operar com maior convicção a ideia de que o conflito não será resolvido no curto prazo, elevando o prêmio de risco global, pressionando commodities energéticas e criando um ambiente estruturalmente mais hostil para ativos de risco.

2. Política monetária e inflação

Com o Brent operando grande parte da semana acima de US$ 100 (e chegando a ultrapassar US$ 110) os investidores passaram a incorporar inflação mais resistente nos principais blocos econômicos. Nos Estados Unidos, a ata do Fed confirmou um tom mais hawkish, com dirigentes discutindo explicitamente a possibilidade de novas altas e a retirada de qualquer viés pró-corte da comunicação oficial. O mercado reagiu ampliando significativamente as apostas de aperto monetário já no fim de 2026, com forte abertura dos yields longos. O rendimento do Treasury de 30 anos atingiu o maior nível em quase duas décadas, refletindo não apenas inflação, mas também prêmio fiscal e incerteza geopolítica.

Na Europa e no Japão, o movimento foi semelhante. Autoridades do BCE passaram a admitir que um novo aumento de juros se tornaria inevitável caso o choque energético persistisse, enquanto no Japão os rendimentos dos títulos soberanos atingiram máximas históricas, pressionados por inflação importada e atividade mais resiliente. A posse de Kevin Warsh na presidência do Fed adicionou um vetor adicional de incerteza: apesar de seu perfil percebido como mais favorável a juros mais baixos, o contexto macro limita qualquer flexibilização prematura. O resultado foi um ambiente global marcado por menor previsibilidade da política monetária, maior volatilidade nos mercados de juros e fortalecimento estrutural do dólar.

3. Brasil: Macro, fiscal e política

O principal vetor doméstico foi o agravamento da crise envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Ao longo da semana, novas revelações, investigações e pesquisas eleitorais passaram a enfraquecer de forma mais clara a percepção de viabilidade eleitoral do senador. Levantamentos captaram aumento de rejeição e perda de competitividade frente a Lula, levando o mercado a reavaliar a probabilidade de alternância de poder em 2026. Essa mudança de narrativa reacendeu preocupações com risco fiscal, diante da leitura de maior chance de continuidade do atual governo e menor espaço para uma agenda fiscal mais ortodoxa.

No campo macroeconômico, os dados de atividade vieram mais fracos (com destaque para o IBC-Br e o tombo do volume de serviços) mas foram amplamente ignorados pelos mercados, dominados pela inflação importada via petróleo e pelo cenário político. O debate sobre o espaço para cortes adicionais da Selic perdeu força, com migração parcial das apostas para uma pausa no ciclo. No fiscal, o Relatório Bimestral confirmou pressões crescentes nas despesas obrigatórias, especialmente previdenciárias, reforçando dúvidas sobre a sustentabilidade do arcabouço. A combinação de ruído eleitoral, choque externo e fragilidade fiscal elevou o prêmio exigido nos vértices longos da curva de juros.

4. Mercados financeiros

No exterior, a disparada dos yields dos Treasuries foi o principal canal de transmissão do estresse. O T-Bond de 30 anos superou 5%, pressionando bolsas globais e desencadeando realização nas ações de tecnologia. O balanço da Nvidia, embora forte em termos absolutos, falhou em sustentar o entusiasmo: guidance abaixo das expectativas mais agressivas e valuations esticados levaram a uma reação negativa, marcando um ponto de inflexão no otimismo irrestrito com inteligência artificial. O movimento reforçou a percepção de que o mercado passou a exigir resultados cada vez mais extraordinários para justificar prêmios elevados, em um ambiente de juros estruturalmente mais altos.

No Brasil, o Ibovespa refletiu a soma de choques. A bolsa chegou a perder mais de 25 mil pontos em relação às máximas recentes, pressionada pela saída de capital estrangeiro, pelo aumento do risco político e pela abertura da curva de juros. O câmbio voltou a operar acima de R$ 5,00, mesmo com petróleo elevado, sinalizando que o canal eleitoral se sobrepôs ao tradicional suporte via termos de troca. Os juros futuros longos embutiram prêmio adicional relevante, enquanto o fluxo estrangeiro na B3 tornou-se negativo no mês. Os momentos de alívio (associados a quedas pontuais do petróleo) mostraram-se frágeis e dependentes de manchetes diplomáticas ainda pouco críveis.

Síntese da Semana

▪️ O mercado deixou de operar o risco de um choque geopolítico pontual e passou a precificar o custo econômico de uma guerra prolongada no Oriente Médio, com petróleo estruturalmente caro.


▪️ A persistência do choque energético reancorou expectativas de inflação mais alta e forçou uma reprecificação global de juros elevados por mais tempo, pressionando especialmente os yields longos.

▪️ O balanço da Nvidia marcou um teste importante para o rali das big techs, revelando um mercado mais exigente e menos tolerante a decepções, em meio a valuations esticados.


▪️ No Brasil, a deterioração da candidatura de Flávio Bolsonaro alterou a leitura eleitoral, reacendeu o risco fiscal e ampliou o prêmio de risco doméstico, sobrepondo-se aos dados fracos de atividade.


▪️ O resultado foi um regime de maior volatilidade, com dólar resiliente, curva de juros pressionada e ativos de risco operando sem convicção, à espera de definições que ainda não vieram.

Resumo semanal: 11/05/2026 a 15/05/2026

Por Matheus Gomes de Souza, CEA

1. Cenário global e geopolítica

A narrativa começou com o fracasso das negociações de cessar‑fogo e a rejeição americana às propostas iranianas, mantendo o Estreito de Ormuz parcialmente bloqueado e elevando o Brent para a faixa entre US$ 104 e US$ 108. A escalada verbal de Trump, somada a novos episódios militares na região, consolidou a percepção de que o choque energético não seria transitório. Relatórios de grandes bancos e de organismos internacionais apontaram consumo acelerado de estoques globais e risco operacional para países importadores, reforçando a vulnerabilidade estrutural do mercado de energia.

Na segunda metade da semana, a visita de Trump a Pequim ajudou a reduzir o risco de cauda mais extremo. Os encontros com Xi Jinping produziram sinais de cooperação pragmática em comércio, tecnologia e energia, além de acenos para a manutenção da abertura do Estreito de Ormuz. O petróleo perdeu impulso, mas permaneceu acima de US$ 100, refletindo a leitura de que, mesmo com diplomacia ativa, os efeitos logísticos e inflacionários do conflito devem se estender por meses.

2. Política monetária e inflação

Nos Estados Unidos, o CPI de abril confirmou aceleração da inflação cheia para 3,8% em 12 meses, com núcleo avançando 2,8% e alta mensal de 0,4%. O PPI surpreendeu ainda mais, com avanço mensal de 1,4% e aceleração anual para 6%, evidenciando repasse do choque de energia ao longo da cadeia produtiva. A combinação dos dados reforçou o discurso hawkish de dirigentes do Fed e elevou a probabilidade implícita de juros mais altos por mais tempo, com o mercado passando a precificar inclusive a possibilidade de aperto adicional em 2027.

Fora dos EUA, o ambiente também ficou mais restritivo. Autoridades do BCE, do BoJ e do BoE reforçaram preocupações com inflação persistente, enquanto dados da Ásia mostraram resiliência da atividade, como o crescimento de 5,4% do PIB da Malásia no primeiro trimestre, sustentado por consumo e pelo ciclo de investimentos em inteligência artificial. O pano de fundo global passou a ser de desaceleração assimétrica, com inflação ainda elevada e menor margem para respostas monetárias acomodatícias.

3. Brasil: Macro, fiscal e política

O IPCA de abril desacelerou na margem para 0,67%, mas com aceleração dos núcleos e inflação mais disseminada, levando o acumulado em 12 meses a 4,39%. A deterioração qualitativa reduziu o espaço para cortes adicionais da Selic e elevou a probabilidade de pausa já nas próximas reuniões. Esse quadro foi agravado pela sinalização da Petrobras de que os preços da gasolina estão fortemente defasados em relação à paridade internacional, aumentando o risco de novos repasses inflacionários.

No campo fiscal e político, o anúncio de subsídios diretos à gasolina e ao diesel, via crédito extraordinário fora do limite de gastos, elevou o prêmio de risco. As estimativas de custo variaram de bilhões por mês, reacendendo o debate sobre sustentabilidade fiscal. Em paralelo, o vazamento de mensagens envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro introduziu ruído eleitoral relevante, afetando a percepção de alternância de poder em 2027 e pressionando câmbio e juros. Mesmo com alguma acomodação no fim da semana, a eleição presidencial entrou definitivamente no radar dos mercados.

4. Mercados financeiros

Globalmente, as curvas de juros abriram com força após CPI e PPI nos EUA, levando os Treasuries de 10 e 30 anos a níveis próximos ou acima de patamares psicologicamente relevantes. Ainda assim, as bolsas americanas sustentaram novos recordes, impulsionadas por big techs e pelo alívio parcial trazido pela aproximação entre EUA e China. O petróleo encerrou a semana estabilizado acima de US$ 100, longe dos picos, mas ainda como principal vetor macro.

No Brasil, o Ibovespa devolveu parte dos ganhos recentes, pressionado por bancos, Petrobras e aumento do risco político, enquanto o fluxo estrangeiro seguiu negativo. O dólar oscilou fortemente, rompendo R$ 5,00 no auge do estresse e recuando depois para abaixo desse nível com acomodação parcial. A curva de juros futuros abriu de forma significativa, refletindo tanto o choque externo quanto a piora do fiscal e da incerteza eleitoral. Nos balanços, a temporada mostrou resultados mistos, com setores mais sensíveis a juros e energia sob maior pressão e empresas ligadas a commodities e infraestrutura exibindo maior resiliência.

Síntese da Semana

▪️ O conflito no Oriente Médio deixou de ser apenas geopolítico e passou a atuar como choque econômico persistente, via petróleo, inflação e política monetária.


▪️ Dados de inflação nos EUA e no Brasil confirmaram deterioração qualitativa, reduzindo o espaço para flexibilização monetária e elevando prêmios de risco globais.


▪️ No Brasil, a combinação de subsídios a combustíveis e ruído eleitoral alterou de forma relevante a percepção de risco fiscal e político, pressionando câmbio, juros e bolsa.

Resumo semanal: 04/05/2026 a 08/05/2026

Por Matheus Gomes de Souza, CEA

1. Cenário global e geopolítica

O conflito entrou na semana com sinais diplomáticos iniciais, mas rapidamente voltou a se intensificar, especialmente no Estreito de Ormuz. Ataques a embarcações, uso de drones e mísseis, além de ações classificadas como “defensivas” pelos EUA, reforçaram a percepção de que o bloqueio marítimo pode se prolongar. Mesmo quando Washington sinalizou pausas táticas ou avanços diplomáticos, os episódios de violência seguiram ocorrendo, minando a credibilidade de um cessar‑fogo sustentável. O mercado passou a operar em regime claramente “headline‑driven”, com oscilações bruscas a cada nova declaração de Trump ou resposta iraniana.

Na quinta‑feira, a expectativa de um memorando preliminar para reabrir Ormuz derrubou o petróleo e impulsionou ativos de risco, mas a leitura se mostrou prematura. Na sexta‑feira, novos confrontos desmontaram a narrativa de acordo iminente. A Agência Internacional de Energia reagiu anunciando a liberação de reservas estratégicas, reconhecendo que a guerra já retira volumes relevantes da oferta global. Em paralelo, Trump voltou a endurecer o discurso comercial contra a União Europeia, reforçando que tarifas seguem sendo instrumento ativo de pressão geopolítica, adicionando ruído a um ambiente global já tensionado.

2. Política monetária e inflação

Nos Estados Unidos, a disparada do petróleo reacendeu preocupações com inflação persistente, levando dirigentes do Fed a reforçarem discursos hawkish. Mesmo com dados mistos de atividade, incluindo um payroll mais fraco em abril (115 mil vagas) e desaceleração salarial para 3,6% ao ano, o banco central sinalizou desconforto em assumir que o próximo movimento será corte de juros. Parte do mercado voltou a precificar inclusive risco de aperto adicional, diante da possibilidade de o choque energético contaminar preços de forma mais duradoura.

Na Europa, o impacto também foi relevante. Autoridades do BCE alertaram que a alta de energia pode exigir postura mais restritiva, enquanto dados da Alemanha mostraram queda da produção industrial em março (-0,7% m/m) e retração anual de 2,8%, sinalizando estagflação latente. Ainda assim, o risco inflacionário prevaleceu sobre a fraqueza da atividade. No Brasil, o IGP‑DI acelerou para 2,41% em abril, com pressão disseminada ao longo da cadeia produtiva, reforçando a leitura de que o choque do petróleo deixou de ser pontual e passou a contaminar núcleos e custos estruturais.

3. Brasil: Macro, fiscal e política

A ata do Copom confirmou um Banco Central mais cauteloso e dependente de dados, enfatizando a desancoragem das expectativas e os riscos de segunda ordem do choque de energia. Embora o cenário‑base ainda contemple cortes graduais de 0,25 p.p., o mercado passou a atribuir probabilidade relevante a uma pausa no ciclo, sobretudo após a alta do IGP‑DI e a persistência das tensões externas. A curva de juros refletiu essa ambiguidade, com maior fechamento no miolo e resistência na ponta longa, sugerindo juro terminal mais elevado.

No campo político, a viagem de Lula a Washington ajudou a recompor capital simbólico após derrotas recentes no Congresso. O encontro com Trump resultou na prorrogação por 30 dias das negociações comerciais, sem avanços estruturais imediatos, mas reduziu o risco de deterioração abrupta da relação bilateral. Internamente, porém, o ambiente seguiu ruidoso, com pressão sobre o governo em temas fiscais, autonomia do BC e investigações envolvendo figuras centrais do Congresso. O pano de fundo segue sendo de fragilidade institucional em um contexto pré‑eleitoral.

4. Mercados financeiros

Globalmente, o petróleo foi o ativo‑chave da semana: o Brent flertou com US$ 115 nos momentos de maior tensão e chegou a cair abaixo de US$ 101 com rumores de acordo, apenas para voltar a subir com novos confrontos. Essa dinâmica se traduziu em forte volatilidade dos Treasuries, com o T‑bond de 30 anos rompendo 5% em um momento e recuando nos dias seguintes. Apesar disso, as bolsas americanas renovaram máximas históricas, sustentadas por balanços robustos de tecnologia, especialmente no segmento ligado à inteligência artificial.

No Brasil, o real mostrou resiliência relativa, apoiado pelo diferencial de juros e pelo fato de o país ser exportador de petróleo, mas o Ibovespa sofreu com rotação setorial e realização após o pico do rali. Bancos oscilaram fortemente ao longo da semana, enquanto Petrobras e Vale refletiram diretamente as oscilações das commodities. A temporada de balanços trouxe resultados majoritariamente sólidos, mas insuficientes para neutralizar o aumento do prêmio de risco macro ao final da semana.

Síntese da Semana

▪️ A guerra no Oriente Médio mostrou‑se mais longa e errática do que o mercado antecipava, mantendo o petróleo como principal vetor de risco sistêmico.


▪️ O choque de energia reancorou a discussão inflacionária global e reduziu o espaço para discursos dovish dos bancos centrais, mesmo com sinais de desaceleração da atividade.


▪️ No Brasil, o Copom reforçou cautela, a inflação de custos ganhou tração e o mercado passou a conviver com a possibilidade concreta de pausa no ciclo de cortes da Selic.


▪️ Os mercados terminaram a semana mais defensivos, com maior sensibilidade a manchetes e menor disposição para carregar risco direcional.