Resumo semanal: 01/12 a 05/12
Por Matheus Gomes de Souza, CEA
Estados Unidos
A semana nos Estados Unidos foi marcada por sinais mistos na economia e por crescente tensão geopolítica envolvendo a Venezuela. No front interno, dados da EIA mostraram alta de 5,2 milhões de barris nos estoques comerciais de petróleo bruto, apesar de refinarias operando a 94,1% da capacidade e forte processamento de gasolina, com destaque para a queda nas importações para 6 milhões de bpd. O mercado de trabalho apresentou enfraquecimento, com o setor privado perdendo 32 mil vagas em novembro segundo a ADP, puxado por cortes em pequenas empresas e pela maior queda desde março de 2023, enquanto pedidos iniciais de seguro-desemprego caíram para 191 mil, sinalizando resiliência parcial. O núcleo do PCE registrou alta mensal de 0,2% e anual de 2,8% em setembro, alinhado às projeções, mas os gastos do consumidor mostraram moderação. Na indústria, o PMI manufatureiro do ISM caiu para 48,2, somando nove meses de contração, em contraste com o PMI da S&P Global, que ainda indica expansão moderada sustentada por aumento de produção, embora com demanda em desaceleração.
A política monetária deve ser influenciada pela combinação de inflação controlada, mas acima da meta, e desaquecimento no emprego, com mercados precificando alta probabilidade de mais um corte de 0,25 p.p. pelo Federal Reserve na reunião de dezembro, embora haja divisões internas sobre o ritmo do afrouxamento. No campo externo, a crise com a Venezuela escalou rapidamente: Washington fechou o espaço aéreo do país, classificou formalmente o “Cartel del los Soles” como organização terrorista e mobilizou ativos militares significativos, incluindo o porta-aviões USS Gerald R. Ford e 15 mil soldados no Caribe. As ações incluíram bombardeios a embarcações comerciais, criticados na ONU como possíveis execuções extrajudiciais. Embora Trump tenha revelado contato cordial prévio com Maduro, analistas divergem se isso indica abertura para negociação ou apenas manobra estratégica. O cenário geopolítico permanece tenso, com risco real de intervenção direta, consolidando múltiplas frentes de pressão econômica e militar nos EUA, fatores que podem influenciar mercados e decisões de política energética e externa no curto prazo.
Brasil
A economia brasileira encerrou o terceiro trimestre de 2025 com sinais de desaceleração. O PIB cresceu apenas 0,1% frente ao trimestre anterior e 1,8% na comparação anual, com serviços e consumo das famílias praticamente estáveis em meio à taxa Selic de 15% e condições de crédito restritivas. A indústria seguiu em perda de fôlego: em outubro, avançou 0,1% sobre setembro e recuou 0,5% no comparativo anual, com resultados heterogêneos entre setores. Indústrias extrativas (+3,6%), veículos (+2%) e alimentos (+0,9%) evitaram queda mais acentuada, mas bens intermediários caíram 0,8% pelo segundo mês consecutivo. No comércio exterior, novembro registrou superávit de US$ 5,84 bilhões, impulsionado por altas expressivas nas exportações de soja (+60%), carne bovina e petróleo para a China, que ampliou compras em 41%. Em contrapartida, as vendas para os EUA despencaram 28% no mês, enquanto importações vindas do mercado americano cresceram 24,5%.
As projeções para a indústria indicam crescimento modesto de até 1% em 2025, refletindo a sensibilidade do setor ao aperto monetário e à pressão do “tarifaço” americano sobre produtos manufaturados. A dinâmica do PIB sugere estabilidade até o fim do ano, com eventual suporte de estímulos fiscais e transferências às famílias, mas mantendo riscos de crescimento limitado em 2026. No campo político, o cenário interno se vê tensionado pela iniciativa do ministro Gilmar Mendes de restringir o alcance da Lei de Impeachment sobre magistrados do STF, provocando reação do Senado e reacendendo disputas entre Legislativo e Judiciário, com possibilidade de impacto em pautas prioritárias de segurança pública. A agenda externa ganhou novo capítulo com a ligação entre os presidentes Lula e Donald Trump, que discutiram tarifas comerciais, combate ao crime organizado e sanções a autoridades brasileiras. Lula celebrou a retirada de tarifas sobre alguns produtos, mas pediu ampliação da desoneração, sinalizando que as relações bilaterais seguirão sendo condicionadas por negociações econômicas e questões institucionais.
Europa
O cenário europeu foi marcado por forte convergência entre tensões políticas, sanções e debates econômicos. Na República Tcheca, Andrej Babis, líder do partido populista ANO, foi confirmado como próximo primeiro-ministro após transferir seu conglomerado Agrofert para um fundo fiduciário independente, viabilizando uma coalizão com partidos de extrema-direita e postura crítica à UE. Em Bruxelas, a Comissão Europeia propôs reforço da integração dos mercados de capitais com ampliação de poderes da ESMA e supervisão centralizada de criptoativos, visando maior competitividade frente a EUA e China. No Reino Unido, novas sanções foram impostas contra a Rússia, incluindo a totalidade da GRU, após a conclusão de inquérito ligando Moscou a ataques com agente nervoso. Paralelamente, Moscou reagiu à proposta da UE de usar ativos russos congelados para financiar a Ucrânia, ameaçando retaliações, enquanto prosseguiam negociações indiretas com Washington em busca de uma solução para o conflito ucraniano. O debate interno europeu manteve-se acirrado quanto à estratégia militar e às condições de paz.
No campo econômico, a zona do euro registrou alta revisada de 0,3% no PIB do 3º trimestre de 2025, impulsionada por expansão no investimento e comércio, com Alemanha estável, França crescendo 0,5% e Espanha liderando o avanço entre as principais economias. A inflação anual subiu marginalmente para 2,2% em novembro, consolidando a expectativa de manutenção das taxas pelo BCE no curto prazo, diante de núcleo ainda elevado em serviços. A França enfrenta alerta do Tribunal de Contas sobre pressões fiscais de longo prazo devido ao envelhecimento populacional, podendo elevar os gastos públicos além de 60% do PIB nas próximas décadas. A Ucrânia, por sua vez, tenta reestruturar US$ 3,2 bilhões em warrants do PIB para aliviar pressões da dívida, enquanto disputa apoio europeu e americano sobre os termos de paz. No campo geopolítico, as ameaças de Moscou de cortar o acesso marítimo da Ucrânia e usar seus avanços militares como barganha nas negociações revelam que o ambiente permanece altamente volátil. A combinação de desafios fiscais estruturais, ajustes monetários graduais e riscos geopolíticos prolongados mantém elevada a incerteza para a economia europeia no horizonte de curto e médio prazo.
Ásia
Os eventos recentes na Ásia foram marcados por um aumento das tensões geopolíticas e atividades militares, sobretudo envolvendo China, Taiwan e Japão. Pequim reagiu de forma contundente à nova legislação americana sobre relações oficiais com Taipé, sancionada por Donald Trump, que prevê revisões periódicas nos protocolos de interação bilateral. Em paralelo, a China intensificou sua presença marítima, mobilizando mais de 100 embarcações em áreas estratégicas do Leste Asiático, prática vista como demonstração de força e resposta a declarações japonesas sobre Taiwan e anúncios de gastos militares adicionais por Taipé. No Japão, o índice Nikkei recuou 1,3% após dados fracos de gastos das famílias e expectativas de aumento da taxa de juros pelo Banco Central, enquanto os rendimentos dos títulos públicos atingiram os maiores patamares desde 2007. Já na Coreia do Sul, os preços ao consumidor avançaram 2,4% em novembro, pressionados por alimentos e serviços, mantendo-se acima da meta de inflação pelo terceiro mês consecutivo. Hong Kong, por sua vez, enfrentou um cenário político sensível com eleições legislativas restritas a candidatos pró-Pequim, realizadas em meio à recuperação da pior tragédia em décadas, enquanto suas vendas no varejo registraram alta anual de 6,9% em outubro.
A escalada das iniciativas militares da China, aliada ao fortalecimento dos laços militares entre Estados Unidos e Taiwan, tende a acentuar instabilidades no Leste Asiático, aumentando riscos para a segurança regional e influenciando alianças estratégicas. A mobilização naval chinesa e os movimentos de Taiwan e Japão configuram um ambiente de alerta, com possíveis impactos sobre cadeias logísticas e fluxos comerciais marítimos. No campo econômico, a pressão inflacionária na Coreia do Sul pode adiar cortes de juros e manter o Banco Central em posição cautelosa, enquanto no Japão, os custos financeiros mais altos desafiam o consumo doméstico e podem afetar a valorização do iene. Hong Kong enfrenta tensão institucional, com baixa expectativa de comparecimento eleitoral e críticas quanto à legitimidade do processo, embora o varejo siga positivo sustentado por turismo e bens de alto valor. No setor estratégico, um avanço significativo foi a aprovação dos EUA ao programa de submarinos nucleares da Coreia do Sul, com perspectiva de alterar o equilíbrio de forças na região, reforçar capacidades defensivas contra Pyongyang e potencialmente estimular uma corrida armamentista submarina envolvendo Japão e China. Esses movimentos, somados ao afrouxamento nas licenças de exportação de terras raras pela China, indicam um alinhamento entre dinâmicas geopolíticas e impactos diretos sobre mercados asiáticos e cadeias industriais globais.
Oriente Médio
A semana no Oriente Médio foi marcada por avanços diplomáticos pontuais e tensões persistentes. No âmbito regional, Paquistão e Afeganistão realizaram nova rodada de negociações mediadas na Arábia Saudita, mantendo o frágil cessar-fogo firmado em Doha, embora sem um acordo definitivo para encerrar conflitos fronteiriços agravados desde outubro. No Levante, Israel e Líbano ampliaram o escopo de discussões do comitê militar de cessar-fogo para incluir representantes civis, em linha com exigências dos EUA e com sinalizações iniciais para cooperação econômica, apesar de acusações mútuas sobre violações por parte do Hezbollah e das forças israelenses. Em Israel, o debate sobre o orçamento de 2026 mobilizou disputas internas e incluiu previsão de gastos de 760,6 bilhões de shekels, com 90 bilhões destinados à defesa, enquanto paralelamente avançou projeto de lei para revisão da concessão de exploração de minerais do Mar Morto, visando aumentar a participação estatal e proteger o ecossistema.
Nas frentes econômicas, a Arábia Saudita aprovou orçamento para 2026 projetando déficit menor, na ordem de 3,3% do PIB, e reposicionando seu fundo soberano em setores estratégicos como logística, mineração e inteligência artificial, alinhado à nova fase do plano Visão 2030. No setor energético, a OPEP+ decidiu implementar avaliações anuais de capacidade produtiva para alinhar cotas a volumes reais, reforçando a credibilidade dos acordos diante de disparidades crescentes entre metas e produção efetiva. O Cazaquistão, impactado por redução na capacidade de sua principal rota de exportação devido a ataque de drone, ampliou embarques via oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan, embora com limitações logísticas. No campo geopolítico, as tratativas entre Israel e Líbano permanecem condicionadas ao desarmamento do Hezbollah e à retirada de tropas israelenses, enquanto o Líbano mantém abertura para presença internacional na verificação de compromissos. Apesar de alguns gestos diplomáticos, a região segue sob pressão de agendas militares, interesses energéticos estratégicos e reformas fiscais de médio prazo.
Resumo semanal: 24/11 a 28/11
Por Matheus Gomes de Souza, CEA
Estados Unidos
A economia norte-americana apresentou sinais mistos em setembro e novembro, evidenciando desaceleração moderada em consumo e emprego. As vendas no varejo cresceram apenas 0,2% no mês, abaixo das previsões, após alta de 0,6% em agosto, com ajuste pontual no setor automotivo antes do vencimento de incentivos fiscais. O Índice de Preços ao Produtor subiu 0,3% em setembro e acumula 2,7% em 12 meses, pressionado por aumentos em combustíveis e alguns bens industriais. O Livro Bege do Fed indicou estabilidade na atividade geral, mas fragilidade no mercado de trabalho em metade dos distritos, com consumo mais sustentado por famílias de alta renda e retração nas demais, parcialmente influenciada pela paralisação de 43 dias do governo. A confiança do consumidor caiu para 88,7 em novembro, menor nível desde o segundo trimestre, com preocupações sobre empregos e finanças pessoais.
A desaceleração das vendas e a queda na confiança do consumidor apontam para um ritmo mais cauteloso no gasto das famílias, em especial entre as de menor renda, pressionadas por tarifas e inflação persistente. O avanço moderado dos preços ao produtor sugere manutenção de pressões de custo, com impacto desigual entre setores, podendo sustentar a inflação próxima ou acima da meta do Fed. O cenário descrito no Livro Bege fortaleceu expectativas de novo corte de 0,25 p.p. na taxa básica na reunião de dezembro, diante do enfraquecimento gradual do mercado de trabalho e perda de ímpeto em consumo. Todavia, a decisão deve enfrentar resistência interna entre dirigentes preocupados com o risco de flexibilização prematura. A paralisação do governo adicionou ruído à demanda e à percepção de estabilidade financeira das famílias, ampliando incertezas no curto prazo e reforçando a necessidade de calibragem cuidadosa da política monetária para 2026.
Brasil
Os indicadores de outubro apontaram uma economia brasileira marcada por contrastes entre mercado de trabalho aquecido, desaceleração na atividade e pressões fiscais. A taxa de desemprego atingiu 5,4% no trimestre até outubro, menor patamar da série histórica do IBGE, com renda média recorde de R$ 3.528, embora dados do Caged mostrem criação líquida de apenas 85,1 mil vagas formais (o pior resultado para o mês desde 202). O setor público consolidado acumulou déficit primário de R$ 46,85 bilhões entre janeiro e outubro, equivalente a 0,45% do PIB, puxado pelo rombo de R$ 63,38 bilhões no governo central. O IPCA-15 avançou 0,20% em novembro, trazendo inflação em 12 meses para 4,50%, dentro da meta, enquanto o IGP-M também subiu 0,27% no mês, mas acumula queda de 0,11% em um ano. Nas contas externas, o déficit em transações correntes foi de US$ 5,12 bilhões, acima do esperado, com investimentos diretos no país somando US$ 10,94 bilhões. A arrecadação federal registrou recorde para outubro, com R$ 261,9 bilhões, influenciada por alta expressiva em IOF, IRRF-Capital e regulamentação das apostas online, que geraram R$ 1 bilhão no mês.
A baixa taxa de desemprego reforça a resiliência do mercado de trabalho e sustenta a renda e o consumo, mas sinais de moderação (como menor ritmo de contratações formais e desempenho desigual por setores) indicam que o ciclo de expansão pode estar próximo ao ápice. A manutenção da Selic em 15% gera efeito de contenção sobre a economia, refletido na desaceleração das receitas federais e na pressão sobre criação de empregos. No campo fiscal, o déficit primário do governo central, somado ao aumento da dívida pública bruta para 78,6% do PIB, reforça o desafio de conciliar estímulo econômico com disciplina orçamentária. A melhora da inflação para dentro da meta abre espaço para eventual flexibilização monetária, embora o Banco Central adote cautela diante da persistência de pressões sobre preços administrados e serviços. O saldo elevado de investimentos diretos revela confiança externa, atenuando parte do impacto do déficit externo, ao passo que a forte alta na arrecadação com apostas online mostra potencial de novas bases tributárias. Esses elementos compõem um quadro de transição para 2026, em que ajustes fiscais e calibragem monetária serão decisivos para sustentabilidade do crescimento.
Europa
O cenário europeu foi marcado por definições fiscais relevantes e intensificação das discussões geopolíticas. No Reino Unido, a ministra das Finanças, Rachel Reeves, apresentou um orçamento com aumento de impostos de £26 bilhões, elevando a carga tributária para 38% do PIB até 2030, o maior nível desde a Segunda Guerra Mundial, acompanhado de medidas como congelamento de limites de imposto de renda, sobretaxa sobre imóveis de alto padrão e fim da restrição de benefícios sociais a famílias com mais de dois filhos. As principais agências de classificação de risco avaliaram o plano como consistente para consolidação fiscal, embora com riscos de execução. Na União Europeia, avançaram as negociações para o uso de €140 bilhões em ativos russos congelados para financiar a Ucrânia, mas a Bélgica mantém resistência, alegando riscos jurídicos e diplomáticos. A França anunciou um serviço militar voluntário para jovens visando reforço defensivo diante de ameaças, enquanto a Suíça se prepara para votar um imposto sobre grandes heranças e enfrenta retração de 0,5% no PIB no terceiro trimestre, impactada pela queda nas exportações químicas e farmacêuticas. Em Portugal, o parlamento aprovou o orçamento de 2026 com previsão de superávit e queda da dívida pública, mantendo estímulos fiscais seletivos.
As medidas fiscais no Reino Unido tendem a reforçar o equilíbrio das contas, mas podem pressionar o consumo, em um contexto de crescimento fraco e risco de reversões políticas devido à queda de popularidade do governo. O impasse na UE sobre ativos russos reflete a complexidade de conciliar apoio financeiro à Ucrânia com segurança jurídica e unidade política interna, enquanto debates sobre modelos alternativos liderados pelos EUA adicionam novas variáveis. O programa militar voluntário francês sinaliza adaptação às mudanças no ambiente de segurança europeu, fortalecendo o contingente de reservistas sem retomar o serviço obrigatório. A proposta suíça de imposto sobre heranças de grandes fortunas, apesar da baixa expectativa de aprovação, reabre o debate sobre redistribuição e financiamento climático. A contração econômica na Suíça, aliada à pressão por redução de custos de vida, pode influenciar decisões fiscais futuras. Já Portugal busca manter estabilidade fiscal e atratividade para investimentos, equilibrando cortes tributários e disciplina orçamentária. O aumento moderado da confiança do consumidor alemão sugere resiliência para as vendas de fim de ano, embora expectativas de curto prazo sigam contidas, limitando impulso adicional ao crescimento regional.
Ásia
A semana na Ásia foi marcada por tensões geopolíticas e decisões relevantes de política monetária e orçamentária. No Japão, o Banco do Japão sinalizou possibilidade de novos aumentos graduais nas taxas de juros, após anos de estímulo e com inflação persistentemente acima da meta de 2%, impulsionada por alta de preços de alimentos e valorização do dólar frente ao iene. O ambiente regional segue agravado pela pior crise diplomática entre Japão e China em anos, com Pequim reagindo fortemente às declarações da primeira-ministra japonesa sobre defesa de Taiwan, e ao plano japonês de instalar mísseis em Yonaguni. A pressão chinesa também é sentida em Taiwan, que anunciou um orçamento suplementar de US$ 40 bilhões para defesa e iniciou conversas com os EUA sobre aquisições estratégicas de armamentos. Na Coreia do Sul, o banco central manteve sua taxa básica em 2,50%, ajustou projeções de crescimento e inflação e demonstrou cautela diante da depreciação do won e da alta dos preços imobiliários em Seul. No Sudeste Asiático, a Tailândia aprovou um orçamento de 3,788 trilhões de baht para 2027 com déficit reduzido, enquanto a junta militar de Myanmar anunciou anistia a milhares de pessoas antes de eleições contestadas internacionalmente.
As expectativas de ajuste monetário no Japão podem fortalecer o iene e conter pressões inflacionárias, mas exigem equilíbrio para não comprometer aumentos salariais e atividade econômica. A escalada diplomática entre Japão, China e Taiwan eleva riscos de instabilidade no Leste Asiático, sobretudo diante da ampliação das capacidades defensivas de Taiwan e da retórica militar chinesa, o que tende a influenciar mercados e rotas comerciais. Na Coreia do Sul, a decisão de manter juros reflete as limitações impostas pela fragilidade cambial frente a um cenário de exportações em recuperação (puxadas por semicondutores e automóveis) e pode sinalizar um fim próximo ao ciclo de cortes. A aprovação orçamentária na Tailândia indica esforço por responsabilidade fiscal, enquanto em Myanmar o gesto político da anistia é percebido por analistas como tentativa de legitimar um processo eleitoral sem garantias democráticas, podendo ter impacto limitado na percepção de risco-país. O reforço militar conjunto entre Coreia do Sul e EUA, voltado a conter a Coreia do Norte, adiciona um elemento de tensão adicional ao quadro regional.
Oriente Médio
O Oriente Médio registrou avanços diplomáticos e agravamento de tensões militares. Líbano e Chipre assinaram um acordo histórico de demarcação marítima, encerrando uma disputa de anos e abrindo perspectivas para cooperação energética e exploração de gás offshore, enquanto a Turquia rejeitou o pacto por considerar que viola direitos dos cipriotas turcos. Nos Emirados Árabes Unidos, foi anunciado um pacote de US$ 1 bilhão para projetos de energia solar, eólica e rede elétrica no Iêmen, visando reconstrução e expansão da capacidade energética. Ao mesmo tempo, mediadores turcos, egípcios e catarianos discutiram no Cairo a transição para a segunda fase do cessar-fogo em Gaza. Apesar da trégua vigente desde outubro, a UNCTAD relatou o pior colapso econômico já registrado nos territórios palestinos, com PIB de Gaza recuando ao nível de 2003. Paralelamente, a ONU denunciou a morte de pelo menos 127 civis no Líbano em ataques israelenses pós-trégua, e Israel realizou um ataque aéreo que matou o chefe de gabinete interino do Hezbollah, ampliando a fragilidade do cessar-fogo estabelecido em 2024.
O acordo marítimo entre Líbano e Chipre pode atrair investimentos e criar base legal para futuros projetos de exploração e interconexão elétrica, aliviando a crônica escassez energética libanesa, embora a contestação da Turquia introduza incertezas jurídicas e diplomáticas. O pacote energético dos Emirados ao Iêmen representa um impulso crucial para sua infraestrutura, podendo aumentar participação das renováveis na matriz nacional, mas requer estabilidade política para plena execução. O colapso econômico palestino sinaliza desafios de reconstrução que demandam vultosos recursos internacionais e décadas de recuperação, criando riscos sociais e humanitários adicionais. No front militar, os ataques israelenses contra alvos no Líbano e a eliminação de líderes do Hezbollah aumentam a possibilidade de retomada das hostilidades, comprometendo negociações mediadas regionalmente com apoio dos EUA. A manutenção da política de produção da OPEP+ reforça expectativas de estabilidade de oferta global, mas debates internos sobre capacidade de produção podem influenciar acordos futuros, afetando mercados e receitas de países-membros.
Resumo semanal: 17/11 a 21/11
Por Matheus Gomes de Souza, CEA
Estados Unidos
O mercado de trabalho norte-americano mostrou sinais mistos em setembro: houve criação de 119 mil postos não agrícolas, acima das expectativas, mas insuficiente para absorver o aumento de 470 mil pessoas na força de trabalho, elevando a taxa de desemprego para 4,4%, maior patamar em quatro anos. Revisões para baixo nos dados anteriores reforçaram o cenário de desaceleração, com indústria (-6 mil), transporte e armazenagem (-25 mil) e serviços profissionais em retração. O setor de saúde liderou os ganhos (+43 mil), seguido de lazer e hotelaria (+47 mil). A IA vem substituindo mão de obra em ocupações iniciais, aumentando a pressão sobre recém-formados. A paralisação de 43 dias do governo federal adiou a divulgação de outubro, que será agregada ao relatório de novembro.
O mercado segue dividido sobre cortes de juros pelo Federal Reserve em dezembro: alguns veem o aumento do desemprego como espaço para aliviar a taxa, outros destacam a criação acima do esperado para mantê-la. A ata mais recente do Fed apontou cautela, com manutenção como cenário majoritário. A política fiscal de Trump (“One Big Beautiful Bill”) deverá gerar crescimento adicional de 0,32 p.p. em 2026, porém elevando o déficit em 0,8 p.p., com juros potencialmente mais altos que o normal. A popularidade de Trump recuou para 47%, mínima do segundo mandato, pressionada pelo custo de vida e pelo caso Epstein, fatores que podem influenciar as eleições legislativas.
Brasil
A economia brasileira apresentou queda de 0,20% no IBC‑Br em setembro, mais intensa que a expectativa (-0,10%), com recuo de 0,9% no terceiro trimestre, refletindo juros elevados (15%) e desaceleração da indústria (-0,7%) e serviços (-0,1%), parcialmente compensada pela agropecuária (+1,5%). No acumulado de 12 meses, há alta de 3,0%. O BC mantém o discurso de moderação da atividade para garantir inflação dentro da meta (3%), e o Focus estima PIB +2,16% em 2025 e +1,78% em 2026.
O Banco Central decretou liquidação do Banco Master por crise de liquidez e graves violações regulatórias, afetando o FGC, que terá de cobrir R$ 41 bi em depósitos e investimentos elegíveis. A operação envolve prisão do controlador Daniel Vorcaro, afastamento do CEO do BRB e impactos em empresas com exposição relevante. No campo político, Lula indicou Jorge Messias para o STF, fortalecendo diálogo com evangélicos, e o Congresso aprovou lei de contenção de gastos e restrição ao uso de créditos tributários, com potencial de economia de R$ 25 bi. Na esfera internacional, Trump retirou tarifas de 40% sobre alimentos brasileiros, medida que deve favorecer exportações e aliviar preços nos EUA.
Europa
A Polônia acusou a Rússia de conduzir sabotagens no país e classificou como “terrorismo de Estado”, após explosão em trilhos ferroviários chave e identificação de envolvidos ligados à inteligência russa. O governo respondeu com fechamento do consulado russo, pedido de extradição e aumento da proteção militar. Paralelamente, Alemanha, França e Reino Unido reafirmaram apoio militar à Ucrânia em reunião com Zelensky, alinhando-se ao plano de paz de 28 pontos apoiado pelos EUA, que propõe garantias de segurança, limitação das forças ucranianas, arranjos territoriais e reintegração gradual da Rússia à economia global.
No campo econômico, indicadores britânicos mostram desaceleração: queda de 1,1% no varejo em outubro, confiança do consumidor recuando para -19 e empréstimos do governo no acumulado do ano fiscal em recorde histórico fora da pandemia. A zona do euro manteve crescimento moderado, com PMI composto em 52,4, sustentado por serviços (+53,1) e indústria em leve contração (49,7). A inflação se mantém próxima da meta de 2%, favorecendo estabilidade nos juros do BCE. Em paralelo, a Albânia destituiu sua vice-primeira-ministra por suspeita de favorecimento em licitação de obra pública, reforçando a pauta anticorrupção.
Ásia
Na Tailândia, o ministro das Finanças destacou fundamentos sólidos — inflação e desemprego abaixo de 1%, dívida pública em 64% do PIB — e anunciou estímulos para elevar crescimento, após avanço de apenas 1,2% no 3T. O pacote inclui R$ 1,36 bi em subsídios e incentivo a investimentos privados, enquanto negociações comerciais com os EUA buscam isenções tarifárias. Em Singapura, o PIB do 3T cresceu 4,2% a/a, acima das expectativas, levando o governo a elevar a projeção de 2025 para 4%. A política monetária permanece apertada, mas o risco de desaceleração externa e tarifas setoriais preocupa exportações-chave (40% das vendas aos EUA).
Na esfera geopolítica, aumentaram tensões entre China e Japão por declarações da primeira-ministra Sanae Takaichi sobre Taiwan, culminando em restrições comerciais e suspensão de eventos oficiais. Taiwan posicionou-se ao lado do Japão, com manifestações públicas de apoio, e anunciou reforço nos controles de exportação de tecnologias sensíveis para cumprir compromissos de não proliferação. Nas Filipinas, um escândalo de corrupção em projetos de controle de enchentes levou a protestos de mais de 200 mil pessoas, queda na confiança dos investidores e promessa de responsabilização antes do Natal.
Oriente Médio
Em Gaza, ataques israelenses em meio a trégua de seis semanas deixaram dezenas de mortos, incluindo crianças, e motivaram acusações mútuas de violação do cessar-fogo. Desde o acordo de 10 de outubro, 312 palestinos e três soldados israelenses morreram. O pacto envolveu troca de reféns, corpos e prisioneiros, mas não cessou a violência. Em paralelo, Netanyahu visitou tropas no sul da Síria, provocando críticas e reforçando que Israel manterá posições avançadas no território, enquanto negociações de pacto de segurança mediadas pelos EUA seguem travadas.
No dossiê nuclear iraniano, a AIEA aprovou resolução exigindo acesso a estoques e instalações bombardeadas; Teerã reagiu encerrando acordo de inspeções e buscando mediação da Arábia Saudita para retomar negociações com Washington. O enfraquecimento estratégico do Irã e pressões econômicas internas aumentam seu interesse por acordo, embora divergências sobre sanções e limites ao enriquecimento mantenham o risco de escalada. No Líbano, Israel intensificou ataques contra suposta infraestrutura do Hezbollah, com vítimas civis. No Chipre, líderes greco e turco-cipriotas sinalizaram disposição para retomar negociações de reunificação após anos de impasse.