Resumo semanal: 01/06/2026 a 05/06/2026

Por Matheus Gomes de Souza, CEA

1. Cenário global e geopolítica

O conflito entre Israel, Hezbollah e Irã permaneceu sem solução estrutural ao longo da semana, apesar de múltiplas tentativas de sinalização diplomática por parte dos Estados Unidos. A ofensiva israelense no sul do Líbano, os ataques atribuídos ao Irã e a fragilidade de cessar‑fogos parciais mantiveram o risco elevado no terreno. Ainda assim, o mercado passou a operar menos os fatos concretos e mais a disposição declarada de Trump em impedir uma escalada regional ampla, especialmente envolvendo o fechamento prolongado do Estreito de Ormuz.

Esse descolamento entre narrativa e execução ficou evidente na dinâmica do petróleo. Após forte alta no início da semana, com o Brent se aproximando de US$ 97, os preços recuaram de forma relevante no feriado de Corpus Christi, mesmo sem avanços materiais nas negociações. A leitura dominante foi a de que a Casa Branca está politicamente comprometida em conter os impactos inflacionários e eleitorais da guerra, reduzindo a probabilidade de cenários extremos. Ainda assim, a distância entre intenção política e capacidade de coordenação entre Israel, Irã e Hezbollah manteve a volatilidade elevada.

2. Política monetária e inflação

Nos Estados Unidos, o payroll de maio surpreendeu de forma significativa, com criação de 172 mil vagas, bem acima das expectativas. A taxa de desemprego permaneceu em 4,3% e os salários avançaram 0,3% no mês, confirmando a resiliência do mercado de trabalho. O resultado veio após dados também firmes do JOLTS e do ADP, reforçando a percepção de que a economia segue aquecida apesar do nível restritivo da política monetária.

Esse pano de fundo levou o mercado a consolidar a visão de que o Fed permanecerá em compasso de espera por mais tempo. Autoridades reforçaram que a inflação segue sendo a principal preocupação, especialmente diante do choque de energia associado à guerra e das tarifas comerciais. O FMI revisou o retorno da inflação americana à meta apenas para o fim de 2027, enquanto a Fitch passou a projetar manutenção dos juros ao longo deste ano, abandonando a expectativa anterior de cortes.

3. Brasil: Macro, fiscal e política

Os dados de atividade seguiram fortes. A produção industrial subiu 0,7% em abril, acima do esperado, confirmando a leitura de economia rodando acima do potencial após o PIB robusto do primeiro trimestre. Ao mesmo tempo, o governo ampliou bloqueios orçamentários diante da compressão das contas públicas, com destaque para o crescimento das despesas obrigatórias. O quadro fiscal continuou sendo percebido como um vetor estrutural de risco, reduzindo a eficácia da política monetária.

No campo político, a proposta de tarifas adicionais dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros ganhou forte contaminação eleitoral. Apesar do impacto financeiro inicial ter sido limitado, o episódio elevou o ruído institucional, com Lula explorando o tema sob a ótica da soberania nacional e associando o movimento à oposição. O mercado passou a tratar o risco comercial mais como um fator de volatilidade política do que como um choque macro imediato, mas reconhecendo a abertura de uma nova frente de incerteza para 2026.

4. Mercados financeiros

Em Wall Street, os índices renovaram máximas históricas ao longo da semana, impulsionados pelo ciclo de investimentos em inteligência artificial. Resultados corporativos fortes e anúncios de captação bilionária para expansão de infraestrutura de IA sustentaram a rotação setorial, mesmo em um ambiente de juros elevados. O Dow Jones se beneficiou de rotação para bancos e saúde, enquanto o Nasdaq mostrou maior volatilidade com realização parcial nos papéis de tecnologia.

No Brasil, o Ibovespa teve desempenho fraco, pressionado pela alta da curva de juros e pela saída relevante de capital estrangeiro. O mercado passou a precificar com mais força uma Selic terminal em torno de 14%, com probabilidade crescente de pausa já na próxima reunião do Copom. O dólar mostrou volatilidade, mas seguiu sustentado pelo diferencial de juros, enquanto os DIs incorporaram prêmios maiores ao longo da curva. Commodities metálicas tiveram alívio pontual, mas o índice permaneceu sensível ao cenário doméstico.

Síntese da Semana

▪️ O mercado global passou a operar menos os eventos concretos da guerra no Oriente Médio e mais a disposição política de Trump em evitar um cenário extremo, reduzindo parcialmente o prêmio de risco do petróleo.


▪️ Dados fortes de emprego nos Estados Unidos reforçaram o cenário de juros elevados por mais tempo, limitando apostas de flexibilização monetária global.


▪️ No Brasil, atividade resiliente, fiscal pressionado e maior ruído político elevaram a probabilidade de interrupção do ciclo de cortes da Selic e mantiveram os ativos locais em desvantagem relativa.

Resumo semanal: 25/05/2026 a 29/05/2026

Por Matheus Gomes de Souza, CEA

1. Cenário global e geopolítica

Ao longo da semana, o mercado alternou entre alívio e cautela diante das negociações entre Washington e Teerã para estender o cessar‑fogo e permitir a reabertura do Estreito de Ormuz. Reportagens sobre memorandos provisórios e concessões nucleares do Irã chegaram a derrubar o Brent para abaixo de US$ 95, mas a ausência de endosso formal de Donald Trump e novos ataques militares impediram a retirada completa do prêmio geopolítico. Mesmo nos momentos de maior otimismo, persistiu a leitura de que a normalização do fluxo de petróleo seria gradual e politicamente frágil.

A dinâmica da guerra também expôs limites diplomáticos mais amplos no Oriente Médio. Israel manteve postura dura contra qualquer acordo que não eliminasse o risco nuclear iraniano, enquanto países do Golfo condicionaram avanços regionais à criação de um Estado palestino. O resultado foi um ambiente de elevada volatilidade, no qual o petróleo passou a funcionar como principal vetor de transmissão do risco geopolítico para inflação e política monetária globais, ainda que tenha encerrado a semana em patamar inferior ao observado no auge das tensões.

2. Política monetária e inflação

Nos Estados Unidos, o PCE de abril veio abaixo do consenso na margem, mas seguiu muito acima da meta de 2%, reforçando a postura cautelosa do Federal Reserve. Dirigentes voltaram a admitir que a probabilidade de novos aumentos de juros não é nula caso a desinflação perca tração, especialmente se o choque energético persistir. A segunda leitura do PIB do 1º trimestre mostrou desaceleração da atividade, o que ajudou a conter uma reprecificação mais agressiva, mas não foi suficiente para destravar expectativas de cortes no curto prazo.

Na Europa, a inflação preliminar da Alemanha desacelerou para 2,6% em maio, abaixo do esperado, mas a comunicação do BCE permaneceu hawkish. Autoridades destacaram o risco de efeitos de segunda ordem do petróleo sobre salários e preços, mantendo a opção de aperto em aberto. No Japão, dados de varejo apontaram recuperação do consumo, reforçando a leitura de que o Banco do Japão segue pressionado a normalizar gradualmente a política monetária em um ambiente de inflação mais disseminada.

3. Brasil: Macro, fiscal e política

O IPCA‑15 de maio desacelerou, mas superou as expectativas e confirmou a persistência da inflação de serviços e núcleos, mantendo o BC em posição defensiva. O PIB do 1º trimestre cresceu 1,1%, com destaque para agropecuária, extrativa mineral e investimento, sinalizando reaceleração relevante da atividade após o fim de 2025 mais fraco. Embora o Caged de abril tenha mostrado desaceleração expressiva na criação de empregos, o mercado avaliou que ainda é cedo para confirmar uma tendência consistente de arrefecimento do mercado de trabalho.

No campo fiscal, o superávit primário de R$ 25,2 bilhões em abril foi o maior para o mês desde 2022, sustentado por receitas fortes, mas o déficit acumulado em 12 meses seguiu em 0,97% do PIB. A dívida bruta alcançou 80,4% do PIB, pressionada principalmente pelos juros nominais elevados. Politicamente, a aprovação da PEC que acaba com a escala 6×1 marcou a semana, com potencial impacto sobre custos trabalhistas e produtividade. No pano de fundo, o cenário eleitoral ganhou tração, com pesquisas mostrando Lula à frente, mas com disputa ainda competitiva no segundo turno.

4. Mercados financeiros

As bolsas americanas renovaram máximas históricas, impulsionadas por resultados corporativos ligados à IA, com destaque para a forte reação positiva aos números da Dell. Mesmo com a guerra no radar, o apetite por risco no setor de tecnologia sobrepôs‑se às preocupações macro de curto prazo. Em renda fixa, os Treasuries oscilaram conforme o petróleo, mas terminaram a semana com alívio após o PCE menos pressionado.

No Brasil, a curva de juros permaneceu elevada e volátil, com o mercado precificando um ciclo de cortes mais curto da Selic diante da inflação resistente. O câmbio oscilou acima de R$ 5, reagindo tanto às manchetes geopolíticas quanto à leitura de que o real perdeu parte do suporte do petróleo. O Ibovespa teve desempenho irregular, pressionado por Petrobras e bancos em diferentes momentos da semana, enquanto casos corporativos específicos (como Copasa, Raízen e BRB) adicionaram ruído idiossincrático ao mercado local.

Síntese da Semana

▪️ O petróleo consolidou‑se como o principal vetor macro, transmitindo a incerteza geopolítica diretamente para inflação e juros globais.

▪️ Apesar de dados pontuais mais benignos, a narrativa dominante seguiu sendo de política monetária restritiva por mais tempo, com bancos centrais atentos a choques de energia.

▪️ No Brasil, a combinação de atividade ainda forte, inflação de serviços persistente e avanço do ciclo político manteve os ativos sob cautela, limitando o espaço para reprecificação mais otimista.

Resumo semanal: 18/05/2026 a 22/05/2026

Por Matheus Gomes de Souza, CEA

1. Cenário global e geopolítica

Ao longo da semana, o mercado migrou da precificação de um ataque imediato dos EUA ao Irã para a incorporação do custo econômico de uma guerra longa. As ameaças e recuos sucessivos de Donald Trump perderam poder de choque, substituídos por uma leitura mais estrutural: o Estreito de Ormuz segue operando com restrições, sob controle iraniano parcial, e sem perspectiva concreta de normalização rápida. Mesmo sem bloqueio total, o uso de rotas designadas, autorizações seletivas e cobranças adicionais manteve a percepção de risco elevado para a oferta global de petróleo. Tentativas de mediação envolvendo Paquistão, países do Golfo e contatos indiretos com Washington reduziram o risco de escalada imediata, mas não resolveram os impasses centrais ligados ao urânio enriquecido iraniano e às sanções.

Esse pano de fundo geopolítico foi agravado por sinais de reorganização estratégica global. A visita de Vladimir Putin à China, o alinhamento tático sino-russo e o papel ambíguo de Pequim (interessada em manter o fluxo energético, mas sem pressionar Teerã) reforçaram a fragmentação do sistema internacional. O mercado passou a operar com maior convicção a ideia de que o conflito não será resolvido no curto prazo, elevando o prêmio de risco global, pressionando commodities energéticas e criando um ambiente estruturalmente mais hostil para ativos de risco.

2. Política monetária e inflação

Com o Brent operando grande parte da semana acima de US$ 100 (e chegando a ultrapassar US$ 110) os investidores passaram a incorporar inflação mais resistente nos principais blocos econômicos. Nos Estados Unidos, a ata do Fed confirmou um tom mais hawkish, com dirigentes discutindo explicitamente a possibilidade de novas altas e a retirada de qualquer viés pró-corte da comunicação oficial. O mercado reagiu ampliando significativamente as apostas de aperto monetário já no fim de 2026, com forte abertura dos yields longos. O rendimento do Treasury de 30 anos atingiu o maior nível em quase duas décadas, refletindo não apenas inflação, mas também prêmio fiscal e incerteza geopolítica.

Na Europa e no Japão, o movimento foi semelhante. Autoridades do BCE passaram a admitir que um novo aumento de juros se tornaria inevitável caso o choque energético persistisse, enquanto no Japão os rendimentos dos títulos soberanos atingiram máximas históricas, pressionados por inflação importada e atividade mais resiliente. A posse de Kevin Warsh na presidência do Fed adicionou um vetor adicional de incerteza: apesar de seu perfil percebido como mais favorável a juros mais baixos, o contexto macro limita qualquer flexibilização prematura. O resultado foi um ambiente global marcado por menor previsibilidade da política monetária, maior volatilidade nos mercados de juros e fortalecimento estrutural do dólar.

3. Brasil: Macro, fiscal e política

O principal vetor doméstico foi o agravamento da crise envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Ao longo da semana, novas revelações, investigações e pesquisas eleitorais passaram a enfraquecer de forma mais clara a percepção de viabilidade eleitoral do senador. Levantamentos captaram aumento de rejeição e perda de competitividade frente a Lula, levando o mercado a reavaliar a probabilidade de alternância de poder em 2026. Essa mudança de narrativa reacendeu preocupações com risco fiscal, diante da leitura de maior chance de continuidade do atual governo e menor espaço para uma agenda fiscal mais ortodoxa.

No campo macroeconômico, os dados de atividade vieram mais fracos (com destaque para o IBC-Br e o tombo do volume de serviços) mas foram amplamente ignorados pelos mercados, dominados pela inflação importada via petróleo e pelo cenário político. O debate sobre o espaço para cortes adicionais da Selic perdeu força, com migração parcial das apostas para uma pausa no ciclo. No fiscal, o Relatório Bimestral confirmou pressões crescentes nas despesas obrigatórias, especialmente previdenciárias, reforçando dúvidas sobre a sustentabilidade do arcabouço. A combinação de ruído eleitoral, choque externo e fragilidade fiscal elevou o prêmio exigido nos vértices longos da curva de juros.

4. Mercados financeiros

No exterior, a disparada dos yields dos Treasuries foi o principal canal de transmissão do estresse. O T-Bond de 30 anos superou 5%, pressionando bolsas globais e desencadeando realização nas ações de tecnologia. O balanço da Nvidia, embora forte em termos absolutos, falhou em sustentar o entusiasmo: guidance abaixo das expectativas mais agressivas e valuations esticados levaram a uma reação negativa, marcando um ponto de inflexão no otimismo irrestrito com inteligência artificial. O movimento reforçou a percepção de que o mercado passou a exigir resultados cada vez mais extraordinários para justificar prêmios elevados, em um ambiente de juros estruturalmente mais altos.

No Brasil, o Ibovespa refletiu a soma de choques. A bolsa chegou a perder mais de 25 mil pontos em relação às máximas recentes, pressionada pela saída de capital estrangeiro, pelo aumento do risco político e pela abertura da curva de juros. O câmbio voltou a operar acima de R$ 5,00, mesmo com petróleo elevado, sinalizando que o canal eleitoral se sobrepôs ao tradicional suporte via termos de troca. Os juros futuros longos embutiram prêmio adicional relevante, enquanto o fluxo estrangeiro na B3 tornou-se negativo no mês. Os momentos de alívio (associados a quedas pontuais do petróleo) mostraram-se frágeis e dependentes de manchetes diplomáticas ainda pouco críveis.

Síntese da Semana

▪️ O mercado deixou de operar o risco de um choque geopolítico pontual e passou a precificar o custo econômico de uma guerra prolongada no Oriente Médio, com petróleo estruturalmente caro.


▪️ A persistência do choque energético reancorou expectativas de inflação mais alta e forçou uma reprecificação global de juros elevados por mais tempo, pressionando especialmente os yields longos.

▪️ O balanço da Nvidia marcou um teste importante para o rali das big techs, revelando um mercado mais exigente e menos tolerante a decepções, em meio a valuations esticados.


▪️ No Brasil, a deterioração da candidatura de Flávio Bolsonaro alterou a leitura eleitoral, reacendeu o risco fiscal e ampliou o prêmio de risco doméstico, sobrepondo-se aos dados fracos de atividade.


▪️ O resultado foi um regime de maior volatilidade, com dólar resiliente, curva de juros pressionada e ativos de risco operando sem convicção, à espera de definições que ainda não vieram.