Resumo semanal: 23/02/2026 a 27/02/2026
Por Matheus Gomes de Souza, CEA
Estados Unidos
Os indicadores econômicos recentes dos Estados Unidos apontaram sinais mistos, com pressões inflacionárias persistentes nos serviços e alguma acomodação nos bens. O Índice de Preços ao Produtor (PPI) avançou 0,5% em janeiro, mantendo ritmo elevado em relação aos meses anteriores, com alta acumulada de 2,9% em 12 meses. O movimento foi liderado pelos serviços de demanda final, que subiram 0,8%, impulsionados principalmente pela expansão de 2,5% nas margens de comércio e pelo avanço de 1,0% em transporte e armazenagem. Em contraste, os bens recuaram 0,3%, refletindo quedas concentradas em energia e alimentos, embora o núcleo de bens sem esses componentes tenha registrado alta de 0,7%. O núcleo mais restrito do PPI, que exclui alimentos, energia e serviços comerciais, subiu 0,3%, acumulando crescimento de 3,4% em 12 meses, o nono aumento consecutivo.
No mercado de trabalho e na confiança, os dados seguiram indicando resiliência com cautela. Os pedidos iniciais de seguro-desemprego ficaram em 212 mil, abaixo das expectativas, enquanto os pedidos continuados recuaram para 1,833 milhão, sugerindo manutenção de um mercado relativamente apertado. A confiança do consumidor subiu para 91,2 pontos em fevereiro, sustentada pela melhora nas expectativas, embora esse subíndice permaneça abaixo de 80 pontos, nível historicamente associado a risco de recessão. No campo político e geopolítico, o discurso do Estado da União reforçou o foco do governo na agenda econômica, em meio à queda de aprovação presidencial e à contestação judicial de parte das tarifas comerciais, que mantém incertezas no comércio exterior. Paralelamente, as negociações indiretas com o Irã sobre o programa nuclear avançaram de forma limitada, em um contexto de intensificação da pressão diplomática e militar, adicionando um vetor de risco geopolítico ao cenário macroeconômico global.
Brasil
Os dados recentes das contas externas indicaram melhora gradual do quadro externo brasileiro, apesar da manutenção de déficits relevantes. Em janeiro, o déficit em transações correntes somou US$ 8,36 bilhões, inferior ao registrado no mesmo mês de 2025, com o resultado em 12 meses recuando para 2,92% do PIB, ante 3,35% um ano antes. O desempenho foi favorecido pelo superávit comercial de US$ 3,52 bilhões e por ingressos robustos de capitais, especialmente em investimentos diretos, que alcançaram US$ 8,17 bilhões no mês, acima das expectativas do mercado. No acumulado de 12 meses, o IDP totalizou US$ 79,1 bilhões, equivalentes a 3,42% do PIB, enquanto os investimentos em carteira registraram ingressos líquidos de US$ 24,9 bilhões, refletindo maior apetite por ativos domésticos. Em contrapartida, o déficit em renda primária avançou 18,7% na comparação anual, puxado por maiores remessas de juros, lucros e dividendos.
No ambiente doméstico, os indicadores fiscais e de preços trouxeram sinais mistos. A arrecadação federal atingiu R$ 325,8 bilhões em janeiro, a maior já registrada para o mês, com crescimento real de 3,56%, impulsionado principalmente por aumentos de tributação sobre aplicações financeiras e pelo IOF. A inflação apresentou aceleração na prévia de fevereiro, com o IPCA-15 avançando 0,84%, pressionado por reajustes concentrados em educação e transportes, elevando a taxa acumulada em 12 meses para 4,10%. Em contraste, o IGP-M recuou 0,73% no mês, acumulando queda de 2,67% em 12 meses, refletindo alívio nos preços ao produtor. No campo fiscal, a Dívida Pública Federal encerrou janeiro em R$ 8,64 trilhões, com leve alta mensal, aumento do custo médio para 12,07% ao ano e redução do colchão de liquidez para 6,77 meses de vencimentos. Paralelamente, avançaram discussões institucionais sobre a limitação de remunerações acima do teto constitucional, com a proposta de uma regra de transição para mitigar impactos fiscais e reduzir tensões entre os Poderes.
Europa
O início de 2026 foi marcado por desaceleração inflacionária e atividade econômica ainda frágil na Europa, em um contexto de elevada heterogeneidade entre países. Na zona do euro, a inflação anual recuou para 1,7% em janeiro, abaixo dos 2% de dezembro, enquanto, na comparação mensal, os preços caíram 0,6%, sinalizando perda de fôlego no curto prazo. A inflação subjacente ficou em 2,1%, também em desaceleração, refletindo principalmente a contribuição menor da energia e a persistência moderada dos preços de serviços. O movimento foi acompanhado por leituras mais baixas em grandes economias, como a Alemanha, onde a inflação caiu abaixo de 2% em diversos estados. No mercado de trabalho alemão, embora o desemprego tenha recuado marginalmente no mês, o total permaneceu acima de 3 milhões de pessoas, com taxa estável em 6,3%, evidenciando os efeitos prolongados de anos de estagnação econômica, apesar do crescimento trimestral de 0,3% no quarto trimestre de 2025.
No campo político e geopolítico, a região seguiu lidando com desafios relevantes. Na Dinamarca, pesquisas indicaram avanço do bloco de esquerda às vésperas das eleições parlamentares, sugerindo possível reconfiguração do governo após quase quatro anos de coalizão ampla. Na Itália, propostas de reforma do sistema eleitoral, com bônus de cadeiras para a coligação mais votada, aumentaram as chances de manutenção do centro-direita no poder, elevando o debate sobre governabilidade e representatividade. Na Hungria, sondagens apontaram crescimento da oposição ao primeiro-ministro Viktor Orbán, tornando a eleição de abril mais competitiva do que em ciclos anteriores. No front externo, a guerra na Ucrânia seguiu como fator central de risco, com o FMI aprovando um novo programa de US$ 8,1 bilhões para sustentar a estabilidade macroeconômica do país e negociações de paz previstas para o início de março. Paralelamente, a Alemanha buscou redefinir sua relação econômica com a China, diante de um déficit comercial próximo de 90 bilhões de euros em 2025, reforçando preocupações europeias com dependência externa, competitividade industrial e tensões comerciais globais.
Ásia
Os mercados asiáticos atravessaram a semana sob sinais mistos de atividade econômica e ajustes de política monetária. Na China, as autoridades mantiveram as taxas referenciais de empréstimo inalteradas pelo nono mês consecutivo, com a LPR de um ano em 3,0% e a de cinco anos em 3,5%, indicando cautela após estímulos direcionados recentes. As projeções apontam desaceleração do crescimento para cerca de 4,5% em 2026, apesar do desempenho mais forte das exportações em 2025. No Japão, a inflação ao consumidor, excluindo alimentos voláteis, desacelerou para 2,0% em janeiro, abrindo espaço para o Banco do Japão calibrar o momento do próximo ajuste de juros, em um contexto de moderação dos custos de energia e alimentos. Na Coreia do Sul, o banco central manteve a taxa básica em 2,50% e sinalizou estabilidade por pelo menos seis meses, elevando a projeção de crescimento para 2,0% em 2026, sustentada pela expansão das exportações de semicondutores, com reflexos positivos sobre o câmbio e o mercado de títulos. Na Tailândia, em contraste, o banco central surpreendeu ao cortar a taxa para 1,00%, o menor nível em mais de três anos, diante de crescimento abaixo do potencial e incertezas externas.
No Sudeste Asiático, a Indonésia avançou em reformas do mercado de capitais para elevar o free float mínimo das empresas listadas para 15%, em resposta a preocupações de governança e ao risco de rebaixamento de classificação de mercado, enquanto o superávit comercial de janeiro foi estimado em US$ 2,76 bilhões, com exportações e importações crescendo em ritmo de dois dígitos e inflação projetada acima da meta do banco central. Em Hong Kong, o governo projetou crescimento entre 2,5% e 3,5% em 2026 e retorno ao superávit fiscal, apoiado por mercados financeiros aquecidos, aumento de IPOs e retomada parcial do setor imobiliário, apesar das incertezas globais. No campo geopolítico, as tensões se intensificaram no Mar da China Meridional, com exercícios militares conjuntos envolvendo Filipinas, EUA e Japão, e na Ásia Meridional, onde confrontos diretos entre Paquistão e Afeganistão elevaram o risco de escalada regional. Na península coreana, a Coreia do Norte reforçou sua retórica nuclear e planos de expansão do arsenal, mantendo elevado o grau de incerteza geopolítica em uma região já sensível às mudanças no ambiente de segurança e comércio internacional.
Oriente Médio
As negociações entre Estados Unidos e Irã avançaram de forma limitada, mantendo elevado o risco geopolítico na região. A rodada mais recente em Genebra indicou disposição ao diálogo, mas revelou divergências estruturais difíceis de conciliar, especialmente sobre o enriquecimento de urânio, o programa de mísseis e o apoio iraniano a grupos armados regionais. Enquanto Washington exige restrições profundas e permanentes, Teerã sustenta que o enriquecimento é um direito soberano previsto no Tratado de Não Proliferação Nuclear. Em paralelo, os EUA intensificaram sua presença militar no Oriente Médio, incluindo o envio de caças F‑22, e ampliaram sanções contra indivíduos, entidades e redes logísticas ligadas ao Irã, reforçando a estratégia de pressão econômica e dissuasão militar em meio à percepção crescente de risco de conflito.
O aumento das tensões gerou efeitos regionais relevantes, com evacuação de pessoal diplomático e alertas de viagem emitidos por diversos países, além da retirada de funcionários não essenciais da embaixada americana em Beirute. Israel sinalizou que reagirá de forma contundente caso o Hezbollah se envolva em um eventual confronto entre EUA e Irã, enquanto o governo libanês busca evitar nova escalada militar após perdas significativas em conflitos recentes. A Turquia, por sua vez, passou a avaliar cenários de contingência, reiterando oposição a qualquer violação da soberania iraniana. No plano econômico, as reservas internacionais da Turquia apresentaram recuo recente, refletindo operações financeiras e intervenções cambiais. Em conjunto, o cenário reforça a elevada incerteza política e de segurança no Oriente Médio, com potenciais impactos sobre fluxos financeiros, estabilidade regional e o apetite global por risco.
Resumo semanal: 16/02/2026 a 20/02/2026
Por Matheus Gomes de Souza, CEA
Estados Unidos
Os indicadores econômicos dos Estados Unidos trouxeram sinais mistos ao longo da semana, reforçando a leitura de desaceleração gradual da atividade. O índice de atividade industrial do Federal Reserve da Filadélfia surpreendeu positivamente em fevereiro, ao subir para 16,3, acima das expectativas (8,5) e do nível anterior (12,6), indicando resiliência pontual do setor manufatureiro regional. Em contraste, o crescimento do PIB no quarto trimestre de 2025 desacelerou para 1,4% em termos anualizados, bem abaixo da projeção de 3,0%, refletindo os efeitos da paralisação do governo federal e a moderação dos gastos das famílias. Pesquisas de atividade corroboraram esse arrefecimento, com o PMI Composto da S&P Global recuando para 52,3, o menor patamar em dez meses, sugerindo expansão mais fraca no início de 2026, apesar de o mercado de trabalho ainda apresentar sinais de resiliência, como a queda dos pedidos iniciais de seguro-desemprego para 206 mil.
No campo inflacionário e de política monetária, os dados reforçaram uma postura mais cautelosa do Federal Reserve. A inflação subjacente medida pelo núcleo do PCE avançou 0,4% em dezembro, acima do esperado, elevando a taxa anual para 3,0%, com indícios de nova aceleração em janeiro, especialmente em serviços. Esse quadro sustentou o consenso no Fed por manter os juros na faixa de 3,50% a 3,75% por mais tempo, com a possibilidade de cortes apenas a partir de junho, caso a inflação mostre convergência mais clara à meta de 2%. No ambiente institucional e geopolítico, a Suprema Corte impôs um revés relevante ao governo ao derrubar tarifas amplas impostas com base em poderes de emergência, reacendendo debates sobre a autoridade do Executivo e gerando impactos imediatos nos mercados financeiros. Paralelamente, a agenda externa ganhou destaque com a criação do Conselho de Paz liderado por Donald Trump e com o aumento das tensões com o Irã, após o presidente admitir considerar um ataque militar limitado como instrumento de pressão nas negociações nucleares, ampliando as incertezas no cenário global.
Brasil
A semana no Brasil foi marcada por liquidez reduzida e agenda econômica esvaziada, em função do feriado de Carnaval e da Quarta-feira de Cinzas, o que limitou a reação dos mercados a dados e anúncios domésticos. Ainda assim, houve sinalizações relevantes no campo da atividade econômica. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) apontou crescimento de 2,5% em 2025, com queda mensal de apenas 0,2% em dezembro, desempenho melhor que o esperado. Na comparação anual, o indicador avançou 3,1%, com destaque para a agropecuária, que acumulou alta de 13,05%, enquanto serviços cresceram 2,06% e a indústria 1,45%, reforçando a leitura de desaceleração no fim do ano, porém sem ruptura do ciclo de crescimento.
No front institucional e de políticas públicas, o BNDES aprovou R$ 715,9 milhões em financiamento para a Companhia Brasileira de Alumínio, direcionados à modernização produtiva, eficiência operacional e projetos de descarbonização, alinhados à estratégia do banco de apoiar tecnologia mais limpa e redução de emissões. No campo político-jurídico, decisões recentes do Supremo Tribunal Federal reacenderam debates sobre limites institucionais, especialmente em investigações envolvendo a Receita Federal e autoridades públicas, elevando o ruído institucional. Já no mercado de trabalho, a taxa de desemprego caiu para 5,1% no quarto trimestre de 2025, o menor patamar da série recente, com aumento do rendimento médio real para R$ 3.613, indicando resiliência do emprego e da renda. Em paralelo, o governo intensificou a agenda externa com viagem presidencial à Ásia, buscando ampliar acordos comerciais, cooperação em tecnologia, minerais críticos e abertura de mercados agropecuários, dentro de uma estratégia de diversificação de parceiros e maior inserção do Brasil nas cadeias globais de valor.
Europa
O cenário europeu da semana combinou incertezas institucionais, tensões geopolíticas e sinais ainda frágeis de recuperação econômica. No âmbito monetário, a presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, buscou conter especulações sobre uma possível saída antecipada, afirmando que seu ponto de partida é concluir o mandato até outubro de 2027, embora sem descartar totalmente outras opções. O episódio reacendeu debates sobre a independência dos bancos centrais em um contexto de crescente politização na Europa e nos Estados Unidos. No campo geopolítico, a segurança voltou ao centro das atenções: a Polônia avançou no processo de saída da Convenção de Ottawa, abrindo espaço para a reinstalação de minas antipessoais em sua fronteira leste como parte do projeto “Escudo Oriental”, enquanto a guerra na Ucrânia registrou progresso técnico nas negociações mediadas pelos EUA, com Kiev indicando proximidade de um acordo sobre mecanismos de monitoramento de um eventual cessar-fogo. Em paralelo, o rei Frederik da Dinamarca visitou a Groenlândia em gesto simbólico de unidade frente às pressões dos EUA, e o Vaticano anunciou que não participará do Conselho da Paz proposto por Donald Trump, reforçando a defesa do papel central da ONU na gestão de crises internacionais.
No eixo macroeconômico, os dados apontaram para uma recuperação lenta e desigual. Na Alemanha, a confiança dos investidores caiu para 58,3 pontos em fevereiro, abaixo das expectativas, mas permaneceu em patamar compatível com crescimento modesto, enquanto a Câmara Alemã de Indústria e Comércio elevou a projeção de expansão do PIB para 1% em 2026, destacando, contudo, a necessidade de reformas estruturais para sustentar o avanço. No Reino Unido, a inflação desacelerou para 3,0% em janeiro, a menor desde março do ano anterior, reforçando apostas de corte de juros pelo Banco da Inglaterra já em março, apesar de pressões persistentes no núcleo de serviços. O mercado de trabalho britânico mostrou enfraquecimento adicional, com o desemprego subindo para 5,2% e desaceleração do crescimento salarial para 4,2%, aumentando a probabilidade de flexibilização monetária. No plano político doméstico, o governo de Keir Starmer recuou da tentativa de adiar eleições locais após risco de derrota judicial, evidenciando fragilidade política em um ambiente de baixo crescimento e maior sensibilidade social às decisões econômicas.
Ásia
A semana foi marcada por fatores sazonais e políticos que afetaram a dinâmica econômica e institucional da região. O início do Ano Novo Lunar reduziu a liquidez global e a divulgação de indicadores, com paralisações relevantes em economias asiáticas, especialmente na China, Coreias, Mongólia e países do Sudeste Asiático. O feriado impulsionou fluxos turísticos regionais e internacionais, mas implicou menor atividade produtiva no curto prazo. No campo político-estratégico, o Japão adotou um tom mais assertivo em relação à China, com a primeira-ministra Sanae Takaichi alertando para riscos crescentes de coerção econômica e militar, anunciando revisão da estratégia de defesa, flexibilização das regras de exportação militar e aceleração do programa que eleva os gastos de defesa para 2% do PIB. Na península coreana, a Coreia do Norte abriu o Nono Congresso do Partido dos Trabalhadores com discurso focado em autossuficiência e metas econômicas para os próximos cinco anos, evitando menções diretas a temas nucleares, enquanto analistas acompanham possíveis sinais de sucessão política.
No eixo econômico, os dados mostraram sinais mistos. Em Hong Kong, a taxa de desemprego subiu marginalmente para 3,9% no trimestre encerrado em janeiro, refletindo pressões em seguros, construção e finanças, apesar da avaliação oficial de que o crescimento sustentado deve dar algum suporte ao mercado de trabalho. Na Indonésia, dois vetores ganharam destaque: a política monetária e o comércio exterior. O banco central manteve a taxa básica em 4,75% pela quinta reunião consecutiva, priorizando a estabilização da rupia após sua mínima histórica, em um contexto de fuga de capitais, questionamentos sobre governança e rebaixamento da perspectiva de crédito. Em paralelo, Jacarta concluiu um acordo comercial com os Estados Unidos que reduziu tarifas de 32% para 19%, com isenções para óleo de palma e outros produtos, além de compromissos em minerais críticos, movimento visto como potencial catalisador de confiança e reformas. Na Coreia do Sul, o ambiente político permaneceu instável após a condenação do ex-presidente Yoon Suk Yeol à prisão perpétua por insurreição ligada à decretação de lei marcial em 2024, aprofundando incertezas institucionais em uma economia já sensível a choques regionais e globais.
Oriente Médio
O ambiente geopolítico no Oriente Médio se deteriorou de forma relevante na semana, com a intensificação das tensões entre Estados Unidos e Irã. O presidente Donald Trump estabeleceu um prazo de 10 a 15 dias para que Teerã alcance um acordo “significativo” sobre seu programa nuclear, reiterando a possibilidade de ações militares caso não haja avanço. Em resposta, o Irã comunicou formalmente à ONU que qualquer agressão resultaria em retaliação direta contra bases e ativos americanos na região. O período também foi marcado por exercícios militares iranianos no Golfo de Omã, pela participação da Rússia em manobras navais e por episódios de fechamento temporário do Estreito de Ormuz, evidenciando o aumento do risco de escalada regional. Paralelamente, imagens de satélite indicaram esforços acelerados do Irã para fortificar e enterrar instalações nucleares e bases de mísseis atingidas em ataques anteriores, reforçando preocupações sobre o avanço de capacidades estratégicas sensíveis.
No eixo Israel–Palestina–Líbano, persistem incertezas sobre a governança e a segurança pós-conflito. Avaliações militares israelenses apontam que o Hamas vem recompondo estruturas administrativas em Gaza, ampliando sua influência política e econômica apesar do cessar-fogo em vigor desde outubro, o que lança dúvidas sobre a viabilidade do plano de transição apoiado pelos EUA. Ao mesmo tempo, foi anunciado o compromisso inicial de cinco países (Indonésia, Marrocos, Cazaquistão, Kosovo e Albânia) em enviar tropas para uma força internacional de estabilização em Gaza, enquanto Egito e Jordânia se dispuseram a treinar a polícia local. No Líbano, o Hezbollah rejeitou o cronograma do governo para avançar no desarmamento, classificando-o como favorável a Israel, o que mantém elevado o risco de instabilidade na fronteira norte israelense. Em Israel, a combinação entre alívio inflacionário, recuperação econômica após a guerra e incertezas geopolíticas ligadas a um possível confronto com o Irã dividiu expectativas sobre novos cortes de juros, reforçando o peso do risco regional sobre decisões de política monetária.
Resumo semanal: 09/02/2026 a 13/02/2026
Por Matheus Gomes de Souza, CEA
Estados Unidos
Os dados recentes indicam um mercado de trabalho em processo de estabilização, após um período de enfraquecimento ao longo do ano anterior. Em janeiro, a economia norte-americana criou 130 mil vagas fora do setor agrícola, acima das expectativas, enquanto a taxa de desemprego recuou para 4,3%. Os pedidos iniciais de auxílio-desemprego permaneceram em níveis historicamente baixos, em 227 mil solicitações, sugerindo ausência de deterioração significativa das condições de emprego. Ainda assim, revisões estatísticas apontam crescimento médio modesto de vagas em 2025, refletindo contratações cautelosas, influenciadas por políticas comerciais e migratórias mais restritivas. A desaceleração do crescimento salarial e dos custos trabalhistas reforça a leitura de um arrefecimento gradual, sem sinais de estresse agudo.
No consumo, os indicadores mostram perda de fôlego no curto prazo. As vendas no varejo ficaram estáveis em dezembro, com retração em segmentos sensíveis a juros, como veículos, móveis e eletrodomésticos, enquanto o núcleo de vendas recuou 0,1%. O mercado imobiliário seguiu pressionado: as vendas de casas usadas caíram 8,4% em janeiro, atingindo o menor nível desde o fim de 2023, apesar da melhora no índice de acessibilidade, que subiu para 116,5. A inflação ao consumidor desacelerou, com o CPI avançando 0,2% no mês e 2,4% em 12 meses, abaixo do consenso, reforçando a expectativa de manutenção dos juros pelo Federal Reserve no intervalo de 3,50% a 3,75%. No campo político, avançaram tensões comerciais com o Canadá, debates fiscais e imigratórios no Congresso e uma ampla reversão da agenda climática, elevando a incerteza regulatória e jurídica para os próximos trimestres.
Brasil
O ambiente político-institucional ganhou centralidade com a redistribuição, no Supremo Tribunal Federal, da relatoria das investigações envolvendo o caso Master. Após articulações internas e preocupação com a imagem da Corte, o ministro Dias Toffoli deixou o comando do processo, que passou ao ministro André Mendonça, mantendo-se válidos os atos já praticados. O caso envolve movimentações societárias e financeiras relacionadas à empresa Maridt e ao resort Tayayá, com conexões indiretas a figuras do sistema financeiro e empresarial. O episódio adiciona ruído ao cenário institucional e ocorre em paralelo à intensificação do debate eleitoral, com pesquisas indicando disputa mais competitiva para a Presidência, ainda com Lula à frente, mas com redução relevante da diferença em relação ao principal adversário, ambos exibindo elevados níveis de rejeição.
Na atividade econômica, os dados de fim de 2025 apontam desaceleração disseminada. O varejo acumulou alta de 1,6% no ano, bem abaixo de 2024, e registrou queda de 0,4% em dezembro, refletindo antecipação de compras para a Black Friday e o impacto da política monetária restritiva. O setor de serviços recuou 0,4% na margem em dezembro, pressionado principalmente por transportes, embora tenha fechado o ano com crescimento de 2,8%. Do lado dos preços, o IPCA avançou 0,33% em janeiro, levando a inflação em 12 meses a 4,44%, com pressão de combustíveis parcialmente compensada pela queda da energia elétrica. Já os preços ao produtor acumularam deflação de 4,53% em 2025, sinalizando menor pressão inflacionária à frente e reforçando a expectativa de início do ciclo de cortes da Selic, atualmente em 15%, nos próximos meses.
Europa
O cenário político europeu seguiu marcado pelo avanço de forças de direita e por instabilidade institucional em diversos países. Na Hungria, pesquisas indicam o partido de oposição Tisza com vantagem de cerca de 10 pontos sobre o Fidesz, de Viktor Orbán, às vésperas da eleição parlamentar de abril, sinalizando o maior desafio ao governo desde 2010. Na França, o conservador Bruno Retailleau oficializou sua candidatura à presidência de 2027, com discurso centrado em imigração, segurança e reindustrialização, embora enfrente elevada rejeição popular. No Reino Unido, o governo de Keir Starmer atravessou uma crise política após a nomeação de Peter Mandelson como embaixador nos EUA, levando à saída de assessores-chave e ampliando pressões internas por mudanças na liderança.
Em paralelo, eleições e disputas regionais reforçaram a consolidação da extrema-direita em partes da Europa. Na Espanha, o Vox dobrou sua bancada em Aragão, obrigando o Partido Popular a depender ainda mais do apoio do partido anti-imigração. Em Portugal, apesar da vitória ampla do socialista moderado António José Seguro na eleição presidencial, o Chega obteve cerca de um terço dos votos, confirmando sua força como principal oposição. No campo econômico, o Reino Unido registrou crescimento fraco no quarto trimestre de 2025, com PIB de apenas 0,1% e forte retração do investimento empresarial, aumentando as expectativas de novos cortes de juros pelo Banco da Inglaterra. Já no plano geopolítico, a OTAN lançou a missão Arctic Sentry para reforçar sua presença no Ártico, enquanto a Rússia afirmou que continuará respeitando voluntariamente os limites do tratado nuclear Novo START, elevando o debate sobre segurança e estabilidade estratégica no continente.
Ásia
O desempenho econômico e político da região mostrou forte heterogeneidade. Em Taiwan, as exportações dispararam 69,9% em janeiro na comparação anual, atingindo US$ 65,8 bilhões, o maior valor mensal da série, impulsionadas pela demanda global por semicondutores e aplicações ligadas à inteligência artificial. As vendas externas de componentes eletrônicos cresceram 59,8%, enquanto as exportações para os Estados Unidos avançaram 151,8%, refletindo tanto a base de comparação fraca quanto o novo acordo comercial que reduziu tarifas americanas para 15% e garantiu isenções relevantes para produtos tecnológicos. Em paralelo, o governo taiwanês enfrenta tensões políticas internas para aprovar um orçamento especial de defesa de US$ 40 bilhões, em meio à intensificação da presença militar chinesa no entorno da ilha e ao apoio explícito dos EUA ao reforço da capacidade defensiva.
No Sul e Sudeste Asiático, o foco esteve em rearranjos políticos com impacto econômico. Em Bangladesh, o Partido Nacionalista (BNP) obteve uma vitória expressiva, conquistando mais de dois terços das cadeiras parlamentares, abrindo espaço para maior estabilidade após meses de crise política e econômica. O partido prometeu reformas institucionais, estímulo ao emprego, diversificação das exportações e ampliação de programas sociais, em um país-chave para a indústria global de vestuário. Na Tailândia, o Partido Bhumjaithai venceu as eleições e formou uma coalizão com o Pheu Thai, garantindo maioria parlamentar e reduzindo a incerteza após sucessivos episódios de instabilidade. Já na China, os dados de inflação indicaram recuperação gradual da demanda doméstica: o núcleo do CPI avançou 0,8% em 12 meses, com aceleração mensal de 0,3%, enquanto o índice de preços ao produtor registrou o quarto aumento mensal consecutivo, reforçando a sinalização de políticas voltadas ao estímulo do consumo interno e do investimento privado.
Oriente Médio
O cenário geopolítico regional foi dominado pela intensificação das negociações entre Estados Unidos e Irã, acompanhada de forte demonstração de poder militar. O primeiro‑ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou esperar que o presidente Donald Trump esteja criando condições para um acordo que evite um novo confronto armado, embora tenha defendido que qualquer entendimento inclua não apenas restrições ao programa nuclear iraniano, mas também aos mísseis balísticos e ao apoio de Teerã a grupos aliados. Trump manteve o discurso de que a decisão final caberá aos EUA, reiterando que prefere uma solução diplomática, mas voltou a ameaçar uma ação “muito dura” caso as negociações fracassem. Em paralelo, os Estados Unidos reforçaram significativamente sua presença militar na região, com o envio de um segundo porta‑aviões e o reposicionamento de sistemas de defesa Patriot no Catar, enquanto o Irã sinalizou capacidade de retaliação contra bases americanas no Oriente Médio.
No plano econômico e político interno, os riscos geopolíticos recuaram parcialmente nos mercados, com a diminuição dos prêmios de conflito refletida em movimentos mais contidos nos preços de ativos sensíveis à região. Na Turquia, o Banco Central elevou sua projeção de inflação para o fim do ano para a faixa de 15% a 21%, mas manteve o discurso de continuidade cautelosa do ciclo de cortes de juros, após reduzir a taxa básica para 37%, em um contexto de desaceleração gradual da inflação. Ainda no país, o ambiente político seguiu tensionado com a ofensiva judicial contra o prefeito de Istambul, Ekrem Imamoglu, principal rival do presidente Recep Tayyip Erdogan, que voltou a defender eleições antecipadas e acusou o governo de usar o Judiciário para inviabilizar sua candidatura. No Irã, o presidente Masoud Pezeshkian pediu desculpas públicas pela repressão violenta a protestos recentes, em um gesto raro, mas que não dissipou as preocupações internacionais com direitos humanos nem reduziu a incerteza sobre os desdobramentos políticos e diplomáticos na região.