Resumo semanal: 06/07/2026 a 10/07/2026

A semana foi marcada pela oscilação do prêmio de risco geopolítico, inicialmente reduzido pela normalização do fluxo de petróleo no Estreito de Ormuz e, posteriormente, reprecificado após novos ataques envolvendo Estados Unidos e Irã. Apesar da escalada militar, prevaleceu ao final da semana a leitura de que os custos econômicos de um conflito prolongado seguem elevados demais para permitir uma ruptura estrutural da oferta global de energia.

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Foto: (Foto: Freepik)

Por Matheus Gomes de Souza, CEA

Cenário global e geopolítica

A semana foi marcada pela oscilação do prêmio de risco geopolítico, inicialmente reduzido pela normalização do fluxo de petróleo no Estreito de Ormuz e, posteriormente, reprecificado após novos ataques envolvendo Estados Unidos e Irã. Apesar da escalada militar, prevaleceu ao final da semana a leitura de que os custos econômicos de um conflito prolongado seguem elevados demais para permitir uma ruptura estrutural da oferta global de energia.

No início da semana, a confirmação de novo aumento de produção pela Opep+ reforçou a percepção de recomposição da oferta global de petróleo, pressionando o Brent para a faixa de US$ 72 e reduzindo os prêmios incorporados durante o conflito entre Washington e Teerã. A retomada parcial do comércio marítimo no Golfo Pérsico, somada à manutenção do fluxo em Ormuz, sustentou o entendimento de que o memorando firmado em junho seguia operacional, mesmo diante de discursos agressivos do Irã e de Israel. Paralelamente, a cúpula da Otan consolidou a mudança estrutural no ambiente de segurança internacional, com expansão de gastos militares, novos acordos em defesa e energia e reforço da integração estratégica entre Estados Unidos, Europa e aliados asiáticos.

A partir de terça-feira, entretanto, ataques a embarcações no Estreito de Ormuz reacenderam o risco geopolítico. Os Estados Unidos revogaram autorizações temporárias para comercialização de petróleo iraniano e retomaram ofensivas militares contra alvos no Irã, levando o Brent a superar momentaneamente US$ 80 por barril. O mercado passou a monitorar não apenas o conflito militar, mas também os impactos potenciais sobre inflação global, juros e logística energética. Ainda assim, ao final da semana, relatos de mediação conduzida por Catar e Paquistão reduziram a percepção de ruptura prolongada, permitindo queda parcial do petróleo para US$ 76,30. A avaliação predominante voltou a ser a de volatilidade elevada, mas sem interrupção estrutural do fluxo energético global.

Política monetária e inflação

A dinâmica inflacionária global voltou ao centro das atenções diante da combinação entre choques geopolíticos, petróleo volátil e desaceleração parcial da atividade econômica. Nos Estados Unidos, a ata do Fed confirmou um comitê dividido, com preocupação persistente sobre inflação de serviços, commodities e possíveis choques de oferta, enquanto o mercado passou a revisar continuamente as apostas para os juros em função da guerra no Oriente Médio.

Ao longo da semana, os investidores reduziram a percepção de necessidade de aperto adicional pelo Fed após o payroll mais fraco e sinais de desaceleração econômica americana. As taxas dos Treasuries recuaram inicialmente, favorecendo ativos emergentes e operações de carry trade. Entretanto, a retomada das tensões em Ormuz provocou nova abertura das curvas globais, levando o Treasury de 10 anos novamente para a região de 4,57%. A ata do Fomc reforçou preocupação com inflação ainda acima da meta e mostrou que energia e commodities seguem como vetores centrais de risco. O BCE adotou tom igualmente cauteloso, enquanto dirigentes do Banco da Inglaterra voltaram a defender aperto adicional diante da persistência inflacionária.

No Brasil, o debate sobre o ciclo da Selic foi dominado pela combinação entre atividade mais fraca e inflação ainda resistente. Indicadores antecedentes — produção industrial, varejo e emprego — reforçaram a leitura de desaceleração econômica, aumentando as apostas de corte da Selic em agosto. O IPCA de junho consolidou parcialmente essa narrativa ao subir apenas 0,16%, abaixo das expectativas de mercado, com desaceleração relevante em alimentos e combustíveis. Em 12 meses, porém, o índice permaneceu elevado em 4,64%. A inflação de serviços seguiu pressionada, enquanto energia elétrica continuou como principal vetor altista. O mercado encerrou a semana mantendo como cenário-base corte de 25 pontos-base da Selic, ainda condicionado à estabilização do petróleo e à ancoragem das expectativas fiscais.

Brasil: Macro, fiscal e política

O ambiente doméstico foi marcado por melhora parcial dos ativos financeiros, sustentada pela desaceleração da atividade econômica, fluxo positivo de commodities e revisão baixista das expectativas de inflação de curto prazo. Ao mesmo tempo, o cenário fiscal continuou pressionado por medidas de expansão de gastos, subsídios e incertezas políticas associadas ao ciclo eleitoral de 2026.

No campo macroeconômico, os dados reforçaram perda de tração da economia brasileira. A produção industrial caiu 0,2% em maio, contrariando expectativas de alta, enquanto o mercado passou a consolidar apostas de flexibilização monetária adicional. O câmbio permaneceu resiliente ao longo da semana, com o dólar operando abaixo de R$ 5,20 em diversos momentos, sustentado pela melhora dos termos de troca, exportações recordes de commodities agrícolas e diferencial de juros ainda elevado frente ao exterior. Mesmo com a volatilidade geopolítica, o real exibiu desempenho superior entre moedas emergentes, beneficiado também pelo petróleo mais caro em parte da semana.

Na política econômica, o governo manteve postura intervencionista no mercado de combustíveis diante da volatilidade internacional. Subsídios à gasolina e ao diesel foram preservados, enquanto o imposto de exportação sobre petróleo foi prorrogado por mais 60 dias. O Congresso avançou em medidas de impacto fiscal relevante, incluindo crédito extraordinário para subsídio ao diesel e ampliação de exceções ao arcabouço fiscal. Também avançaram discussões sobre renegociação de dívidas rurais e linhas subsidiadas para empresas exportadoras afetadas pela guerra e pelo ambiente tarifário internacional. No campo político, pesquisas mostraram fortalecimento relativo da direita e centro-direita, além de empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro em São Paulo, reforçando a antecipação do debate eleitoral de 2026.

Mercados financeiros

Os mercados globais oscilaram entre momentos de forte aversão a risco e recuperação parcial do apetite por ativos, em função da alternância entre escalada militar no Oriente Médio e expectativas de retomada das negociações diplomáticas. O petróleo foi o principal vetor de transmissão para juros, câmbio e bolsas ao longo da semana.

As bolsas americanas iniciaram a semana sustentadas pelo avanço estrutural do setor de inteligência artificial, com forte valorização de empresas ligadas à cadeia de semicondutores, infraestrutura tecnológica e chips. Nvidia, Broadcom, Meta e Micron lideraram os ganhos em Wall Street, enquanto o Nasdaq renovou máximas históricas em diversos momentos. A escalada militar envolvendo Irã e Estados Unidos provocou realização parcial nas techs e abertura das curvas globais, mas o mercado voltou rapidamente à tese estrutural de crescimento associado à IA. No fechamento da semana, prevaleceu novamente o fluxo para tecnologia, mesmo em ambiente geopolítico ainda instável.

No Brasil, o Ibovespa alternou sessões de recuperação e realização, encerrando a semana ainda próximo da região de 172 mil pontos. O setor financeiro foi diretamente beneficiado pela queda dos juros futuros, enquanto Petrobras oscilou conforme a dinâmica do petróleo e das decisões do governo sobre combustíveis e tributação. Vale permaneceu pressionada por preocupações com governança, revisão baixista do minério de ferro e rebaixamentos de recomendação por bancos internacionais. O mercado de juros apresentou forte volatilidade ao longo da semana, acompanhando Treasuries e petróleo, mas encerrou com manutenção da precificação majoritária de corte da Selic em agosto. O real, por sua vez, combinou diferencial de juros elevado, melhora do fluxo comercial e menor pressão cambial global para sustentar apreciação relevante frente ao dólar.

Síntese da Semana:

▪️ O petróleo voltou ao centro da dinâmica macro global, mas o mercado encerrou a semana apostando que a diplomacia prevalecerá sobre uma ruptura prolongada da oferta energética.

▪️ A ata do Fed reforçou preocupação com inflação persistente, enquanto os choques geopolíticos reacenderam dúvidas sobre a velocidade de flexibilização monetária global.

▪️ O IPCA abaixo do esperado fortaleceu a narrativa de desaceleração econômica no Brasil e consolidou o mercado em torno de mais um corte de 25bps da Selic.

▪️ O real apresentou desempenho robusto mesmo em ambiente de aversão a risco, sustentado pelo diferencial de juros e pelo fluxo positivo de commodities.

▪️ O setor de tecnologia voltou a liderar os mercados globais, confirmando que a tese estrutural de inteligência artificial continua predominando sobre ruídos de curto prazo.

▪️ No Brasil, o ambiente fiscal permaneceu pressionado por subsídios, ampliação de exceções ao arcabouço e antecipação do ciclo político-eleitoral de 2026.

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