Resumo semanal: 29/06/2026 a 03/07/2026

A semana foi marcada pela redução gradual do prêmio de risco geopolítico embutido nos mercados, apesar da continuidade das tensões entre Estados Unidos e Irã. O foco deixou de ser uma interrupção abrupta do fluxo energético global e passou a concentrar-se na normalização operacional do Estreito de Ormuz e na reintegração gradual da oferta iraniana ao mercado internacional de petróleo. Esse deslocamento de narrativa alterou significativamente a dinâmica dos ativos globais.

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Por Matheus Gomes de Souza, CEA

Cenário global e geopolítica

A semana foi marcada pela redução gradual do prêmio de risco geopolítico embutido nos mercados, apesar da continuidade das tensões entre Estados Unidos e Irã. O foco deixou de ser uma interrupção abrupta do fluxo energético global e passou a concentrar-se na normalização operacional do Estreito de Ormuz e na reintegração gradual da oferta iraniana ao mercado internacional de petróleo. Esse deslocamento de narrativa alterou significativamente a dinâmica dos ativos globais.

Os ataques cruzados entre Washington e Teerã continuaram ao longo da semana, incluindo ofensivas contra bases militares e embarcações no Golfo Pérsico, mas os mercados passaram a interpretar o conflito sob uma ótica mais pragmática. O entendimento predominante foi de que nenhuma das partes tinha incentivo econômico para inviabilizar permanentemente o fluxo pelo Estreito de Ormuz. A ampliação das rotas marítimas por Omã, o aumento das exportações sauditas e a retomada parcial do tráfego comercial reforçaram essa percepção. Em paralelo, as negociações diplomáticas permaneceram abertas, mesmo em meio a discursos conflitantes sobre enriquecimento de urânio e controle da navegação regional.

A consequência mais relevante foi a forte correção do petróleo. O Brent encerrou a semana próximo de US$ 71-72 por barril, praticamente devolvendo todo o prêmio incorporado durante o auge da crise e acumulando perdas próximas de 20% no trimestre. Além da normalização geopolítica, o mercado passou a precificar aumento adicional da oferta global, impulsionado pela retomada das exportações iranianas, expansão da produção da Opep+ e aceleração dos embarques russos. O petróleo deixou de funcionar como vetor inflacionário global e passou a atuar como elemento desinflacionário para as principais economias, reduzindo parte da pressão sobre bancos centrais.

Política monetária e inflação

A política monetária global continuou sendo conduzida por uma combinação de inflação ainda resistente e atividade econômica gradualmente mais moderada. Nos Estados Unidos, a desaceleração do payroll alterou parcialmente a percepção sobre o Fed, reduzindo a probabilidade de novos aumentos de juros, embora sem consolidar uma expectativa clara de cortes. O mercado passou a enxergar menor urgência para aperto adicional, mas ainda sem convicção suficiente para antecipar flexibilização monetária relevante.

O payroll de junho foi o principal evento macroeconômico da semana. A economia americana criou apenas 57 mil vagas, bem abaixo das 110 mil esperadas, enquanto abril e maio sofreram revisões negativas acumuladas de 74 mil postos. A desaceleração foi reforçada pela composição mais fraca do relatório, concentrada em saúde e assistência social, enquanto setores mais sensíveis ao ciclo econômico praticamente estagnaram. Ainda assim, o desemprego caiu para 4,2% e os salários mantiveram avanço de 0,3% no mês e 3,5% em 12 meses, impedindo uma interpretação totalmente dovish. A reação do mercado foi uma redução das apostas de alta adicional dos Fed Funds, especialmente para setembro e dezembro.

A comunicação do Fed permaneceu cautelosa. Kevin Warsh evitou oferecer forward guidance durante o Fórum de Sintra, reforçando que os dados econômicos ganharam peso ainda maior na formação das expectativas de política monetária. Mesmo com o alívio proporcionado pela queda do petróleo e pelo payroll mais fraco, dirigentes do Fed continuaram enfatizando inflação subjacente elevada e mercado de trabalho ainda próximo do pleno emprego. Na Europa, a inflação da zona do euro desacelerou para 2,8% em junho, abaixo do esperado, fortalecendo apostas de pausa do BCE após o ciclo recente de aperto monetário.

Brasil: Macro, fiscal e política

No Brasil, a narrativa dominante da semana foi a consolidação das apostas de corte adicional da Selic, sustentada pela combinação entre desaceleração gradual da atividade, inflação mais comportada e forte queda do petróleo. Ao mesmo tempo, o ambiente político e fiscal voltou a gerar desconforto nos ativos locais, especialmente na segunda metade da semana, diante da deterioração das percepções eleitorais e dos ruídos comerciais com os Estados Unidos.

O principal gatilho macroeconômico foi o Caged de maio, que mostrou criação líquida de apenas 72,9 mil vagas, muito abaixo das expectativas de 120 mil. O dado reforçou a leitura de moderação gradual do mercado de trabalho e reduziu uma das principais preocupações do Banco Central em relação à inflação de serviços. Em paralelo, o IPCA-15 abaixo do esperado, a deflação do IGP-M e a acomodação das expectativas no Focus fortaleceram o cenário de flexibilização monetária. Ao longo da semana, a probabilidade implícita de corte de 0,25 ponto na reunião de agosto aproximou-se de 70%, enquanto parte do mercado passou a discutir um ciclo “stop and go” ao longo do segundo semestre.

No campo fiscal e político, o ambiente tornou-se mais adverso. O lançamento do Plano Safra 2026/27 trouxe volume recorde de crédito de R$ 610,3 bilhões, acompanhado por aumento expressivo da equalização de juros pelo Tesouro. Simultaneamente, novos programas de crédito subsidiado e discussões sobre pautas de impacto previdenciário reacenderam preocupações fiscais. A tensão aumentou ainda mais com a escalada da disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos após o tarifaço americano de 25%, além do acirramento da disputa eleitoral entre Lula e Flávio Bolsonaro. O mercado passou a incorporar maior prêmio político nos ativos domésticos, especialmente após pesquisas reforçarem a percepção de continuidade de uma política fiscal expansionista em 2027.

Mercados financeiros

Os mercados globais atravessaram uma semana de forte reprecificação macroeconômica, marcada pela queda do petróleo, revisão parcial das expectativas para o Fed e rotação de fluxo internacional em direção aos ativos ligados à tecnologia e inteligência artificial. Apesar do alívio inflacionário global, os movimentos nos mercados brasileiros foram parcialmente limitados pela piora do ambiente político doméstico e pela saída contínua de capital estrangeiro.

Nos Estados Unidos, as curvas de Treasuries oscilaram em torno da expectativa para o payroll e terminaram a semana incorporando menor probabilidade de alta adicional dos Fed Funds. O DXY perdeu força, recuando para a região dos 100 pontos, enquanto euro e libra se valorizaram moderadamente. Em Wall Street, a volatilidade do setor de tecnologia permaneceu elevada. Houve recuperação relevante das big techs no início da semana, impulsionada pelo entusiasmo renovado com inteligência artificial, mas o movimento perdeu força posteriormente diante de dúvidas sobre sustentabilidade dos lucros do setor. O Nasdaq encerrou a semana pressionado por realização nas ações de tecnologia, especialmente Tesla e semicondutores.

No Brasil, a curva de juros inicialmente fechou de maneira expressiva, refletindo a combinação entre petróleo mais baixo, IPCA-15 benigno e Caged fraco. Os contratos de DI para 2027 chegaram a negociar próximos de 14,00%, mas parte do movimento foi revertida no fim da semana por conta do aumento do prêmio político e fiscal. O dólar oscilou entre R$ 5,16 e R$ 5,21, encerrando próximo das máximas recentes, enquanto o Ibovespa permaneceu pressionado pela fuga de capital estrangeiro, acumulando liquidez reduzida ao longo de toda a semana. Ainda assim, bancos domésticos sustentaram parte do índice, enquanto Petrobras acompanhou a queda do petróleo e empresas ligadas à tecnologia e commodities permaneceram no centro da volatilidade global.

Síntese da Semana:

▪️ A normalização gradual do fluxo pelo Estreito de Ormuz desmontou boa parte do prêmio geopolítico incorporado ao petróleo e reduziu as pressões inflacionárias globais.

▪️ O payroll americano confirmou desaceleração do mercado de trabalho, reduzindo a probabilidade de novas altas de juros pelo Fed, embora sem consolidar apostas de cortes iminentes.

▪️ No Brasil, IPCA-15, Caged fraco e petróleo mais baixo fortaleceram significativamente o cenário de corte adicional da Selic em agosto.

▪️ O ambiente doméstico voltou a incorporar prêmio político e fiscal relevante, especialmente após pesquisas eleitorais e ruídos na relação comercial entre Brasil e Estados Unidos.

▪️ O fluxo estrangeiro continuou negativo para a B3, refletindo rotação global para ativos asiáticos ligados à tecnologia e inteligência artificial.

▪️ A queda do petróleo permitiu ao governo iniciar a retirada gradual dos subsídios aos combustíveis, reduzindo riscos inflacionários de curto prazo.

▪️ O Plano Safra recorde ampliou o suporte ao agronegócio, mas reforçou preocupações sobre custo fiscal e expansão do crédito subsidiado.

▪️ A semana consolidou um cenário de menor risco inflacionário global, porém acompanhado de maior sensibilidade dos mercados domésticos ao risco político e fiscal brasileiro.

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