Resumo semanal: 22/06/2026 a 26/06/2026
O pano de fundo doméstico combinou atividade forte, contas externas ainda confortáveis e ruído político crescente, com reflexos sobre juros e câmbio.
Por Matheus Gomes de Souza, CEA
1. Cenário global e geopolítica
A semana foi marcada por distensão gradual no Oriente Médio, com impacto direto sobre o petróleo e o regime de risco global, apesar de episódios pontuais que lembraram a fragilidade do acordo.
As negociações entre Estados Unidos e Irã avançaram ao longo da semana, com a criação de mecanismos para garantir a navegação no Estreito de Ormuz, flexibilização temporária de sanções ao petróleo iraniano e aumento efetivo do fluxo de embarcações. Mesmo com divergências públicas sobre inspeções nucleares e uso de ativos desbloqueados, os fatos observáveis (retomada do tráfego marítimo e retorno gradual do petróleo iraniano ao mercado) reduziram de forma relevante o prêmio geopolítico embutido nos preços da energia. O Brent acumulou queda próxima de dois dígitos ao longo da semana, atingindo mínimas desde o início do conflito, reforçando a leitura de normalização da oferta global.
O movimento não foi linear. Um ataque isolado a uma embarcação em Ormuz na quinta-feira interrompeu temporariamente a queda do petróleo e evidenciou que a trégua ainda é frágil. Ainda assim, o mercado interpretou o episódio como ruído dentro de um processo mais amplo de distensão, não como ruptura do acordo. Em paralelo, outros focos de risco geopolítico ganharam atenção marginal, como o recrudescimento retórico entre Rússia e Ucrânia e sinais de desgaste político interno nos Estados Unidos relacionados à condução da guerra, mas sem impacto sistêmico relevante sobre os ativos globais ao longo da semana.
2. Política monetária e inflação
A combinação entre petróleo em queda, inflação parcialmente benigna e comunicação confusa dos bancos centrais definiu a dinâmica dos juros globais e domésticos.
Nos Estados Unidos, a semana consolidou a percepção de um Fed mais hawkish no curto prazo, apesar de dados de inflação que não surpreenderam negativamente. O PCE de maio veio abaixo do esperado na margem, mas seguiu rodando muito acima da meta, reforçando a precificação majoritária de alta de juros em setembro. O PIB revisado do primeiro trimestre, mais forte que o previsto, e os PMIs resilientes sustentaram a leitura de uma economia ainda aquecida. A reação dos Treasuries foi moderada, com leve fechamento das taxas após o PCE, mas dentro de um intervalo compatível com a expectativa de aperto monetário ainda neste ano.
No Brasil, a política monetária foi o eixo central da semana. Após o corte da Selic para 14,25%, o comunicado inicial gerou forte ruído, amplificado pela ata que falhou em construir consenso. O Relatório de Política Monetária e a coletiva de Gabriel Galípolo, no entanto, reorganizaram a leitura do mercado. O BC preservou explicitamente a flexibilidade, validando cenários de “stop and go” (pausa temporária seguida de novos cortes) sem assumir compromisso com decisões futuras. A divulgação do IPCA-15 de junho, com desaceleração dos núcleos e da inflação de serviços, reforçou a percepção de que o pico inflacionário pode ter ficado para trás, ainda que as expectativas permaneçam desancoradas no horizonte mais longo.
3. Brasil: Macro, fiscal e política
O pano de fundo doméstico combinou atividade forte, contas externas ainda confortáveis e ruído político crescente, com reflexos sobre juros e câmbio.
Os dados de atividade seguiram resilientes. A taxa de desemprego caiu para 5,6%, mínima histórica para maio, com expansão da população ocupada e estabilidade do mercado formal, sinalizando um mercado de trabalho apertado. No setor externo, o déficit em conta corrente permaneceu administrável em termos relativos (2,6% do PIB em 12 meses), amplamente financiado por um fluxo robusto de Investimento Direto no País, que segue acima de 3% do PIB. Em contraste, os investimentos estrangeiros em carteira mostraram saída líquida relevante, refletindo maior aversão a risco e diferencial de política monetária global.
No campo fiscal e político, a semana trouxe sinais mistos. A S&P manteve o rating soberano do Brasil, destacando a posição externa sólida como contrapeso à fragilidade fiscal, mas reiterou projeções de déficits elevados e aumento da dívida nos próximos anos. O noticiário político adicionou ruído: avanço de investigações relacionadas ao caso Master, saída de Jaques Wagner da liderança no Senado e tensões dentro da oposição, além de pesquisas eleitorais mostrando disputa acirrada. Esses fatores reforçaram a sensibilidade da curva de juros longos, especialmente em um ambiente de questionamentos sobre a comunicação e a função de reação do Banco Central.
4. Mercados financeiros
Os preços dos ativos refletiram a interação entre alívio geopolítico, reprecificação da política monetária e fluxo estrangeiro ainda negativo.
Globalmente, as bolsas operaram de forma instável. Em Wall Street, a expectativa de aperto monetário pressionou ações de tecnologia, com quedas relevantes no Nasdaq, apesar de resultados fortes no setor de semicondutores ligados à inteligência artificial. O dólar oscilou, mas terminou a semana mais fraco após o PCE, enquanto os Treasuries fecharam com leve alívio nas taxas. O petróleo foi o principal vetor direcional, com impacto direto sobre moedas de países produtores e setores sensíveis à energia.
No Brasil, os mercados reagiram de forma mais construtiva na segunda metade da semana. A curva de juros devolveu parte relevante dos prêmios, especialmente nos vencimentos curtos e intermediários, após o RPM e o IPCA-15. A ponta longa permaneceu mais pressionada, refletindo risco fiscal, político e a incerteza geopolítica residual. O real se apreciou moderadamente no fechamento da semana, mais ancorado no movimento global do dólar do que no petróleo. A bolsa encerrou em alta, impulsionada por bancos e por uma leitura mais favorável da inflação, apesar da continuidade da saída de capital estrangeiro da B3.
Síntese da Semana
▪️ A distensão entre EUA e Irã reduziu de forma significativa o prêmio geopolítico do petróleo, criando um vetor desinflacionário relevante para os mercados globais.
▪️ No Brasil, o ruído inicial da comunicação do Copom foi parcialmente corrigido pelo RPM, que preservou a flexibilidade da política monetária e reabriu o debate sobre novos cortes, ainda que sem consenso.
▪️ Dados de inflação mais benignos e atividade resiliente sustentaram alívio nos juros curtos, enquanto risco fiscal, político e externo mantiveram a ponta longa sensível.
▪️ O regime de mercado ao final da semana foi de menor estresse, mas ainda marcado por elevada dependência do petróleo e da evolução da política monetária global.