Resumo semanal: 25/05/2026 a 29/05/2026

A semana foi dominada pela tentativa de consolidação de uma trégua entre Estados Unidos e Irã, com impacto direto sobre o petróleo, a inflação global e a precificação de risco. Apesar de sinais diplomáticos, o conflito seguiu instável, mantendo elevada a sensibilidade dos mercados a manchetes.

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Por Matheus Gomes de Souza, CEA

1. Cenário global e geopolítica

Ao longo da semana, o mercado alternou entre alívio e cautela diante das negociações entre Washington e Teerã para estender o cessar‑fogo e permitir a reabertura do Estreito de Ormuz. Reportagens sobre memorandos provisórios e concessões nucleares do Irã chegaram a derrubar o Brent para abaixo de US$ 95, mas a ausência de endosso formal de Donald Trump e novos ataques militares impediram a retirada completa do prêmio geopolítico. Mesmo nos momentos de maior otimismo, persistiu a leitura de que a normalização do fluxo de petróleo seria gradual e politicamente frágil.

A dinâmica da guerra também expôs limites diplomáticos mais amplos no Oriente Médio. Israel manteve postura dura contra qualquer acordo que não eliminasse o risco nuclear iraniano, enquanto países do Golfo condicionaram avanços regionais à criação de um Estado palestino. O resultado foi um ambiente de elevada volatilidade, no qual o petróleo passou a funcionar como principal vetor de transmissão do risco geopolítico para inflação e política monetária globais, ainda que tenha encerrado a semana em patamar inferior ao observado no auge das tensões.

2. Política monetária e inflação

Nos Estados Unidos, o PCE de abril veio abaixo do consenso na margem, mas seguiu muito acima da meta de 2%, reforçando a postura cautelosa do Federal Reserve. Dirigentes voltaram a admitir que a probabilidade de novos aumentos de juros não é nula caso a desinflação perca tração, especialmente se o choque energético persistir. A segunda leitura do PIB do 1º trimestre mostrou desaceleração da atividade, o que ajudou a conter uma reprecificação mais agressiva, mas não foi suficiente para destravar expectativas de cortes no curto prazo.

Na Europa, a inflação preliminar da Alemanha desacelerou para 2,6% em maio, abaixo do esperado, mas a comunicação do BCE permaneceu hawkish. Autoridades destacaram o risco de efeitos de segunda ordem do petróleo sobre salários e preços, mantendo a opção de aperto em aberto. No Japão, dados de varejo apontaram recuperação do consumo, reforçando a leitura de que o Banco do Japão segue pressionado a normalizar gradualmente a política monetária em um ambiente de inflação mais disseminada.

3. Brasil: Macro, fiscal e política

O IPCA‑15 de maio desacelerou, mas superou as expectativas e confirmou a persistência da inflação de serviços e núcleos, mantendo o BC em posição defensiva. O PIB do 1º trimestre cresceu 1,1%, com destaque para agropecuária, extrativa mineral e investimento, sinalizando reaceleração relevante da atividade após o fim de 2025 mais fraco. Embora o Caged de abril tenha mostrado desaceleração expressiva na criação de empregos, o mercado avaliou que ainda é cedo para confirmar uma tendência consistente de arrefecimento do mercado de trabalho.

No campo fiscal, o superávit primário de R$ 25,2 bilhões em abril foi o maior para o mês desde 2022, sustentado por receitas fortes, mas o déficit acumulado em 12 meses seguiu em 0,97% do PIB. A dívida bruta alcançou 80,4% do PIB, pressionada principalmente pelos juros nominais elevados. Politicamente, a aprovação da PEC que acaba com a escala 6×1 marcou a semana, com potencial impacto sobre custos trabalhistas e produtividade. No pano de fundo, o cenário eleitoral ganhou tração, com pesquisas mostrando Lula à frente, mas com disputa ainda competitiva no segundo turno.

4. Mercados financeiros

As bolsas americanas renovaram máximas históricas, impulsionadas por resultados corporativos ligados à IA, com destaque para a forte reação positiva aos números da Dell. Mesmo com a guerra no radar, o apetite por risco no setor de tecnologia sobrepôs‑se às preocupações macro de curto prazo. Em renda fixa, os Treasuries oscilaram conforme o petróleo, mas terminaram a semana com alívio após o PCE menos pressionado.

No Brasil, a curva de juros permaneceu elevada e volátil, com o mercado precificando um ciclo de cortes mais curto da Selic diante da inflação resistente. O câmbio oscilou acima de R$ 5, reagindo tanto às manchetes geopolíticas quanto à leitura de que o real perdeu parte do suporte do petróleo. O Ibovespa teve desempenho irregular, pressionado por Petrobras e bancos em diferentes momentos da semana, enquanto casos corporativos específicos (como Copasa, Raízen e BRB) adicionaram ruído idiossincrático ao mercado local.

Síntese da Semana

▪️ O petróleo consolidou‑se como o principal vetor macro, transmitindo a incerteza geopolítica diretamente para inflação e juros globais.

▪️ Apesar de dados pontuais mais benignos, a narrativa dominante seguiu sendo de política monetária restritiva por mais tempo, com bancos centrais atentos a choques de energia.

▪️ No Brasil, a combinação de atividade ainda forte, inflação de serviços persistente e avanço do ciclo político manteve os ativos sob cautela, limitando o espaço para reprecificação mais otimista.

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