Resumo semanal: 16/03/2026 a 20/03/2026

Por Matheus Gomes de Souza, CEA 1. Cenário global e geopolítica O conflito no Oriente Médio entrou em fase mais intensa, com ataques diretos a infraestrutura energética do Irã e retaliações contra alvos estratégicos na região, elevando o risco de interrupção prolongada do fluxo pelo Estreito de Ormuz, responsável por cerca de 20% do petróleo […]

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Por Matheus Gomes de Souza, CEA

1. Cenário global e geopolítica

O conflito no Oriente Médio entrou em fase mais intensa, com ataques diretos a infraestrutura energética do Irã e retaliações contra alvos estratégicos na região, elevando o risco de interrupção prolongada do fluxo pelo Estreito de Ormuz, responsável por cerca de 20% do petróleo global. Ao longo da semana, o Brent oscilou violentamente, chegando a testar níveis próximos de US$ 120, refletindo a percepção de escassez e a dificuldade de coordenação internacional para garantir a navegação. A hesitação de aliados dos EUA em prover escolta naval reforçou a leitura de que qualquer normalização logística seria lenta e parcial.

Na reta final, declarações de Benjamin Netanyahu e movimentos táticos dos EUA (como a liberação temporária de vendas de petróleo russo e a ampliação do uso de reservas estratégicas pela AIE) ajudaram a conter o estresse, mas sem restaurar confiança estrutural. O mercado terminou a semana precificando que a guerra ainda não está resolvida, com volatilidade elevada como regime dominante. A melhora pontual no humor foi interpretada mais como correção técnica após forte rali do petróleo do que como mudança efetiva de cenário geopolítico.

2. Política monetária e inflação

O Federal Reserve manteve os juros, mas Powell foi explícito ao descartar cortes enquanto durar o conflito e a desinflação não avançar, admitindo inclusive que a hipótese de aperto foi discutida. O mercado reagiu empurrando expectativas de flexibilização para horizontes muito mais longos, com redução do número de cortes precificados. BCE, BoE e BoJ também optaram pela manutenção das taxas, com comunicação mais cautelosa; no Reino Unido, o voto unânime reforçou a leitura de viés mais restritivo à frente. O choque do petróleo consolidou‑se como risco inflacionário relevante nas economias centrais.

No Brasil, o Copom cortou a Selic em 0,25 pp, contrariando parte do mercado que flertava com pausa. O ponto central foi a sinalização implícita de continuidade do ciclo, sustentada por projeção de inflação surpreendentemente benigna para o 3T27 (3,3%). A decisão foi lida como aposta do BC na transmissão do aperto monetário acumulado e na desaceleração da atividade, mesmo com o petróleo acima de US$ 100. A assimetria entre o conservadorismo global e a postura relativamente dovish do Copom marcou a semana e reabriu o debate sobre credibilidade e balanço de riscos.

3. Brasil: Macro, fiscal e política

A alta do petróleo pressionou expectativas de inflação doméstica, elevando projeções do IPCA e reduzindo o espaço para cortes mais agressivos da Selic ao longo do ano. O reajuste do diesel pela Petrobras e a ameaça de greve dos caminhoneiros adicionaram risco inflacionário e logístico, forçando o governo a reagir com medidas paliativas, como reforço do piso do frete e discussões sobre ICMS. A suspensão temporária da paralisação trouxe alívio tático, mas não eliminou a fragilidade do equilíbrio entre preços administrados e política fiscal.

No campo político, a confirmação da saída de Fernando Haddad da Fazenda para disputar o governo de São Paulo e a nomeação de Dario Durigan elevaram a sensibilidade do mercado ao tema fiscal em ano eleitoral. Paralelamente, o caso Banco Master seguiu reverberando, travando o avanço do PL de resolução bancária e reacendendo debates sobre autonomia do BC. O pano de fundo foi de aumento da incerteza institucional justamente no momento em que o país testa o início de um ciclo de flexibilização monetária em ambiente externo adverso.

4. Mercados financeiros

No exterior, Wall Street mostrou resiliência relativa no início da semana, mas perdeu fôlego após o tom hawkish de Powell e novas altas do petróleo. Setores sensíveis a juros e custos de energia sofreram, enquanto o dólar global alternou força e fraqueza conforme variavam as apostas sobre política monetária e guerra. A curva de Treasuries refletiu maior prêmio de risco inflacionário, consolidando a leitura de juros altos por mais tempo.

No Brasil, a curva de juros teve movimentos bruscos, com forte atuação do Tesouro para conter estresse e inclinação dos vértices longos diante do cenário global. O câmbio oscilou em linha com o DXY e com o noticiário geopolítico, mantendo‑se relativamente comportado graças ao fluxo estrangeiro positivo. A bolsa alternou quedas e recuperações, com desempenho setorial muito disperso: Petrobras acompanhou o petróleo, bancos reagiram ao Copom e empresas mais alavancadas sofreram com o ambiente de incerteza. O saldo final foi de mercado defensivo, seletivo e altamente dependente de manchetes.

Síntese da Semana

▪️ O conflito no Irã consolidou o petróleo como principal vetor de risco macro global, impondo volatilidade extrema e deteriorando o balanço inflacionário.


▪️ Bancos centrais globais reforçaram postura cautelosa, enquanto o Copom destoou ao iniciar o ciclo de cortes, apostando na desaceleração doméstica.


▪️ No Brasil, combustíveis, risco fiscal e transição política ampliaram a sensibilidade dos ativos, exigindo intervenções para estabilizar mercados.


▪️ O regime predominante ao final da semana foi de incerteza elevada, com alívios pontuais vistos mais como correções técnicas do que como mudança estrutural de cenário.

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