Resumo semanal: 06/10 a 10/10

O cenário global segue dinâmico: Ásia avança com investimentos em IA e defesa; Europa enfrenta instabilidade política; EUA vive shutdown; Oriente Médio sinaliza trégua em Gaza; e Brasil registra alívio inflacionário, mantendo expectativa de Selic estável.

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Por Matheus Gomes de Souza, CEA

Ásia

O cenário político e econômico asiático segue marcado por eventos estratégicos e tensões regionais. Na Malásia, o Parlamento aprovou um orçamento recorde para 2026 de 470 bilhões de ringgits, focado em disciplina fiscal, introdução de imposto sobre carbono, aumento de tributos sobre bebidas alcoólicas e tabaco, e substituição gradual de subsídios por transferências direcionadas. O país também reforça setores como semicondutores, transição energética e pesquisa em inteligência artificial, ao mesmo tempo em que participa do processo eleitoral controverso de Mianmar como observador, buscando manter influência regional via ASEAN. Na Índia, o governo anunciou a reabertura de sua embaixada em Cabul e recepção de diplomatas do Talibã, movimento que reflete preocupações estratégicas com China e Paquistão, embora sem reconhecimento oficial do regime afegão.

Em outros focos regionais, Cingapura deve manter inalterada sua política monetária, sustentada por crescimento resiliente e pressões inflacionárias moderadas, apesar do impacto das tarifas dos EUA. A China ampliou significativamente seus controles sobre exportações de terras raras e tecnologias de refino, incluindo cinco novos elementos críticos e restrições para semicondutores avançados, intensificando a disputa tecnológica global. Em Taiwan, o presidente Lai Ching-te anunciou o “T-Dome”, sistema de defesa aérea multicamadas inspirado no modelo israelense, parte de um aumento no orçamento de defesa para conter ameaças chinesas. Esses movimentos mostram uma Ásia dinâmica, onde avanços econômicos convivem com desafios geopolíticos complexos, exigindo respostas calibradas para preservar estabilidade e competitividade global.

Europa

No âmbito econômico, o volume de vendas no varejo da Zona do Euro apresentou leve crescimento de 0,1% em agosto, após redução de 0,4% em julho, segundo o Eurostat. França e Espanha contribuíram positivamente, com avanços de 0,5% e 0,4%, respectivamente, enquanto a Alemanha registrou queda de 0,2%. O indicador agregado permanece próximo aos níveis pré-pandemia, evidenciando recuperação lenta e heterogênea entre os países. Esse cenário reforça a necessidade de políticas coordenadas para sustentar o consumo e a atividade produtiva.

Na esfera política, a França vive mais um episódio de instabilidade com a renúncia do primeiro-ministro Sébastien Lecornu, menos de um mês após assumir o cargo. A saída reflete dificuldades para viabilizar o plano fiscal e reduzir o déficit público diante de um parlamento fragmentado. O presidente Emmanuel Macron deverá anunciar em breve um novo chefe de governo, buscando recompor a base política e implementar medidas de ajuste. A combinação de pressão política interna e turbulência externa aumenta os riscos para a economia francesa e europeia como um todo. Essa conjuntura exige respostas rápidas e consistentes para não comprometer a trajetória de recuperação regional.

Oriente Médio

Israel e Hamas avançaram na primeira fase do plano de 20 pontos do presidente norte-americano Donald Trump para Gaza, que prevê cessar-fogo, libertação de reféns e retirada parcial das tropas israelenses para a chamada “linha amarela”. A medida surge após negociações no Egito, dois anos depois do ataque do Hamas que deflagrou a guerra, e pode representar um passo inicial para encerrar o conflito. O grupo palestino confirmou acordo incluindo troca de prisioneiros, mas exige garantias internacionais para plena implementação. Ainda persistem incertezas sobre quem administrará Gaza no pós-guerra, com Netanyahu, países ocidentais e árabes rejeitando papel do Hamas, e possibilidade de a Autoridade Palestina assumir após reformas. Essa movimentação reduziu o prêmio de risco nos preços do petróleo, que recuaram mais de 3%, refletindo também menor temor de ataques iranianos a navios na região.

Além de Gaza, outros eventos relevantes marcam o cenário regional. A Turquia garantiu financiamento de €974 milhões para sua nova rodovia entre Ancara e Delice, um projeto de €1,4 bilhão que reforça a infraestrutura logística e integração interna. Na Síria, eleições indiretas para o primeiro parlamento pós-Assad revelam baixa representatividade feminina e de minorias, com 119 cadeiras preenchidas e 21 assentos ainda vagos devido a adiamentos em zonas fora do controle governamental. Observadores apontam predominância masculina e sunita na composição, e autoridades prometem corrigir distorções na nomeação dos 70 parlamentares restantes. A conjuntura do Oriente Médio combina componentes de estabilização geopolítica — potencialmente positivos para fluxos comerciais e energéticos — com desafios estruturais internos que mantêm níveis elevados de risco político.

Estados Unidos

O governo norte-americano enfrenta desde 1º de outubro um “shutdown” em decorrência do impasse no Congresso para aprovação do orçamento fiscal de 2026. A paralisação interrompeu operações de diversos serviços federais, preservando apenas atividades essenciais, como segurança nacional e saúde. A divulgação de dados econômicos por agências oficiais também foi suspensa, afetando temporariamente a disponibilidade de informações de mercado. Apesar disso, historicamente os impactos econômicos de paralisações desse tipo tendem a ser limitados e revertidos após o término do impasse. O cenário reforça a sensibilidade do ambiente político e institucional para decisões de política fiscal e monetária.

A ata da reunião de setembro do Federal Reserve indicou que a inflação permanece elevada e que o mercado de trabalho dá sinais de desaquecimento. Embora alguns membros tenham defendido cortes mais acentuados, o comitê optou por manter a taxa de juros entre 4% e 4,25% ao ano, ponderando riscos sobre emprego e inflação. Em nossa avaliação, a persistência da inflação acima da meta, somada à pressão de preços por tarifas comerciais, exige cautela nas próximas decisões do Fed. Um ajuste abrupto na política monetária poderia gerar volatilidade significativa no mercado de trabalho, mesmo diante de um desempenho econômico relativamente resiliente. Esse contexto demanda postura prudente para equilibrar crescimento e estabilidade de preços.

Brasil

Em setembro, a inflação medida pelo IGP-DI avançou 0,36%, abaixo da mediana das projeções de mercado de 0,42%, refletindo alívio nos preços das commodities em reais ao longo do ano. O IPA agrícola registrou alta de 1,9%, enquanto o núcleo do IPA industrial, excluindo alimentos, combustíveis e minério de ferro, recuou 0,3%. Em 12 meses, o IGP-DI acumula alta de 2,3%, frente aos 3% do mês anterior, com o núcleo industrial e o setor agrícola subindo 2,8% e 2,4%, respectivamente. Já o IPCA fechou setembro em 0,48%, também abaixo das estimativas internas (0,55%) e de mercado (0,52%), marcado pelo fim do desconto do bônus de Itaipu nas contas de energia. Houve contribuições baixistas vindas de alimentação no domicílio, seguros de veículos e passagens aéreas.

Apesar do arrefecimento recente da inflação, fatores internos continuam exercendo pressão, como mercado de trabalho aquecido e câmbio depreciado. Para o IPCA, estima-se encerramento de 2025 em 5%, com viés de baixa, e de 2026 em 5,2%. No campo monetário, a expectativa é que o Copom mantenha a taxa Selic em 15% até o fim do ano, iniciando cortes a partir de março de 2026, com encerramento do ciclo em 13%. A combinação de desaceleração inflacionária e cenário externo de possível flexibilização monetária abre espaço para ajustes graduais. No entanto, a manutenção de credibilidade exige que a política monetária avance de forma prudente, respeitando os sinais da atividade econômica e dos preços.

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