Resumo semanal: 15/09 a 19/09
Por Matheus Gomes de Souza, CEA Ásia No Japão, o Banco do Japão (BoJ) manteve a taxa de juros em 0,5% ao ano, decisão amplamente esperada, mas marcada pela dissidência de dois membros do comitê, que defenderam alta imediata e a redução gradual do balanço de ativos. O presidente Kazuo Ueda adotou postura cautelosa, afirmando […]
Por Matheus Gomes de Souza, CEA
Ásia
No Japão, o Banco do Japão (BoJ) manteve a taxa de juros em 0,5% ao ano, decisão amplamente esperada, mas marcada pela dissidência de dois membros do comitê, que defenderam alta imediata e a redução gradual do balanço de ativos. O presidente Kazuo Ueda adotou postura cautelosa, afirmando que são necessárias mais evidências para avaliar o impacto das tarifas impostas pelos EUA sobre a economia japonesa, embora, até o momento, não observe efeitos negativos significativos. Analistas avaliam que, diante do bom desempenho da economia e da inflação mais elevada, o BoJ deverá iniciar o ciclo de alta ainda este ano. A projeção é que os ajustes ocorram de forma gradual, preservando a estabilidade financeira.
Na China, a atividade econômica apresentou crescimento abaixo do esperado em agosto, com a produção industrial desacelerando para 5,2% na comparação anual. Apesar do desempenho positivo em setores de alta tecnologia, eletrônicos e automotivo, as vendas no varejo perderam força, e os investimentos fixos recuaram, impactados pela menor aplicação em infraestrutura. A taxa de desemprego urbano subiu de 5,2% para 5,3%, enquanto o governo adotou políticas “anti-involução” para estabilizar preços imobiliários e coibir práticas predatórias. Mesmo com subsídios e estímulos, a crise no setor de construção persiste, pressionando o mercado e elevando os estoques de imóveis, fator que limita uma recuperação mais robusta.
Europa
O prolongamento da guerra entre Rússia e Ucrânia, agora em seu quarto ano, mantém elevado o grau de incerteza geopolítica na região, sem perspectivas de solução definitiva no curto prazo. No campo econômico, a produção industrial da zona do euro registrou leve alta de 0,3% em julho, recuperando parte da queda anterior, impulsionada pela Alemanha (+1,3%), mas com recuos relevantes na França (-1,1%) e na Espanha (-0,5%). Apesar do avanço, o nível de produção segue inferior ao observado em 2019, evidenciando uma retomada ainda incompleta. A fragilidade industrial reflete, em parte, custos elevados de energia e demanda externa moderada.
No Reino Unido, o mercado de trabalho continua perdendo fôlego, com a taxa de desemprego estável em 4,7% nos três meses até julho, mas diante de menor oferta de vagas. O crescimento salarial, embora desacelerando, ainda supera a inflação — destaque para o setor privado, com alta anual de 8,1%, frente a um índice de preços ao consumidor de 3,6% ao ano, no menor patamar em mais de dois anos. O Banco da Inglaterra manteve a taxa básica em 4%, com dois membros votando por corte, reforçando a atuação cautelosa diante dos riscos inflacionários. As projeções apontam pico de inflação em 4% em setembro, seguido de queda gradual, o que abre espaço para possíveis reduções de juros apenas no terceiro trimestre de 2025.
Oriente Médio
No Oriente Médio, Israel intensificou a ofensiva sobre a Cidade de Gaza, com bombardeios direcionados à infraestrutura do Hamas nas regiões de Sheikh Radwan e Tel Al-Hawa. Essas áreas são estratégicas para avançar em direção ao centro e ao oeste da cidade, onde se concentra a maior parte da população. Autoridades locais informaram 33 mortes nas últimas 24 horas, enquanto estimam que 350 mil pessoas já deixaram a Cidade de Gaza desde o início de setembro, restando cerca de 600 mil. Imagens de satélite mostram a instalação de novos acampamentos ao sul, além de intenso fluxo de civis pela via Salah al Din. Israel também anunciou a morte de Mahmoud Yusuf Abu Alkhir, apontado como vice-chefe da inteligência militar do Hamas. Apesar da pressão militar, não há sinais de cessar-fogo, enquanto cresce a insatisfação interna com protestos que exigem a libertação de reféns.
No campo geopolítico, a Arábia Saudita firmou um pacto de defesa com o Paquistão, introduzindo o guarda-chuva nuclear paquistanês no quadro estratégico regional, ainda que sem referência explícita ao uso de armas nucleares. A medida é interpretada como resposta às ameaças percebidas de Israel e como reflexo da desconfiança em relação à proteção oferecida pelos Estados Unidos. Paralelamente, Israel fechou o cruzamento de Allenby/King Hussein entre a Cisjordânia e a Jordânia após um ataque que matou dois militares, afetando uma rota comercial e humanitária essencial para milhões de palestinos. Já os Emirados Árabes Unidos elevaram sua projeção de crescimento para 2025 a 4,9%, impulsionados pelo aumento da produção de petróleo e pelo desempenho do setor não-petrolífero, que já responde por mais de 75% do PIB. As estimativas apontam para aceleração em 2026, com efeitos positivos sobre investimentos, confiança e gastos públicos.
Estados Unidos
O Federal Reserve reduziu a taxa básica de juros em 25 pontos-base, para o intervalo de 4% a 4,25% ao ano, movimento amplamente antecipado pelo mercado. A decisão, no entanto, não foi unânime: parte do Comitê defendeu um corte maior, de 50 pontos-base, diante do enfraquecimento na geração de empregos e maiores riscos de deterioração no mercado de trabalho. O comunicado indicou que a inflação segue resiliente, freando cortes mais agressivos. As projeções divulgadas apontam para três novas reduções em 2025, totalizando 0,75 p.p., e confirmam expectativa de ajustes graduais ao longo dos próximos anos. Jerome Powell destacou que os riscos estão mais equilibrados entre inflação e atividade, reforçando cautela na condução da política monetária.
A economia norte-americana apresentou desempenho melhor no setor real em agosto. A produção industrial avançou 0,1% frente a julho, com destaque para o segmento manufatureiro, enquanto as vendas no varejo superaram as expectativas. Em contraste, o mercado imobiliário manteve fraqueza: o número de construções iniciadas caiu 8,5% no mês, e as permissões para novas obras recuaram 3,7%, refletindo o impacto das taxas de hipoteca ainda elevadas. O índice de confiança das construtoras permaneceu em patamar baixo, mantendo a atividade abaixo do nível pré-pandemia. Por outro lado, os pedidos semanais de seguro-desemprego mostraram resiliência, somando 231 mil na semana até 13 de setembro.
Brasil
A taxa de desemprego medida pela PNAD Contínua recuou para 5,6% no trimestre encerrado em julho, alinhada às projeções e abaixo dos 5,8% do trimestre anterior, igualando o menor nível da série histórica. Os dados ajustados sazonalmente indicam estabilidade da população ocupada e economicamente ativa, com mercado de trabalho ainda aquecido. Em relação a julho de 2024, a renda real média subiu 3,8% e a massa de renda habitual avançou 6,4%, impulsionada pelo emprego formal e salários. A projeção aponta para encerramento de 2025 com desemprego em torno de 5,5%, patamar historicamente baixo, o que sustentará a atividade econômica, mas pode dificultar o controle da inflação, sobretudo no segmento de serviços.
No campo da política monetária, o Copom manteve a Selic em 15% ao ano, decisão unânime e consistente com o cenário de estabilidade até o fim de 2024, com possível início de cortes apenas em março de 2025. O comitê destacou que a convergência da inflação para a meta exige postura restritiva por mais tempo, e reforçou que poderá retomar ajustes se necessário. No lado dos preços, o IGP-10 subiu 0,21% em setembro, abaixo das estimativas, com alta de 3,1% no IPA agrícola e queda de 0,29% no núcleo industrial. Em 12 meses, o índice acumula avanço de 2,88%, próximo à variação anterior, com alívio no atacado por commodities mais baratas em reais, mas ainda com pressão inflacionária doméstica ligada ao mercado de trabalho robusto.